quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

O ÚLTIMO REI DA ESCÓCIA


O ÚLTIMO REI DA ESCÓCIA (The last king of Scotland, 2006, Fox Searchlight, 121min) Direção: Kevin MacDonald. Roteiro: Peter Morgan, Jeremy Brock, livro de Giles Foden. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Montagem: Justine Wright. Música: Alex Heffes. Figurino: Michael O'Connor. Direção de arte/cenários: Michael Carlin/Tina Jones. Produção executiva: Andrew Macdonald, Allon Reich, Tessa Ross. Produção: Lisa Bryer, Andrea Calderwood, Charles Steel. Elenco: Forest Whitaker, James McAvoy, Gillian Anderson, Kerry Washington, Simon McBurney. Estreia: 01/9/06 (Festival de Telluride)

Vencedor do Oscar de Melhor Ator (Forest Whitaker)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Forest Whitaker)

Entre a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1988 pelo sensacional desempenho como o músico Charlie Parker em "Bird" e a consagração com o Oscar por sua interpretação de Idi Amin Dada, ditador de Uganda, o ator Forest Whitaker esperou quase vinte anos. Nesse meio-tempo ele mostrou seu rosto e seu talento em projetos tão díspares quanto os elogiados "Traídos pelo desejo" e "Cortina de fumaça" e os puramente comerciais como "A experiência", "Fenômeno" e "O quarto do pânico", além de aventurar-se também na cadeira de diretor, assinando obras corretas como "Falando de amor" - estrelado por Whitney Houston e Angela Bassett - e "Quando o amor acontece", com Sandra Bullock pré-Oscar. Apesar de sempre apresentar trabalhos dignos e competentes, porém, não deixou de ser uma surpresa das melhores vê-lo em ação em "O último rei da Escócia", dirigido por Kevin MacDonald: na pele de Idi Amin, o ator texano proporciona ao público uma estarrecedora atuação, que merecidamente avocanhou todos os prêmios da temporada, sem dar chance à concorrência.

Se formos levar em consideração as regras dos manuais de roteiro e assemelhados, Whitaker nem é o verdadeiro protagonista do filme de MacDonald: assim como aconteceu com Anthony Hopkins em "O silêncio dos inocentes", sua personagem é a alma da produção, o que a empurra pra frente, mas o ponto de vista da narrativa não é seu, e sim do jovem médico inglês Nicholas Garrigan (o ótimo James McAvoy), que, recém formado e em busca de experiência profissional - e de fugir do jugo de seu pai dominador - parte para Uganda, onde começa a trabalhar com um casal de médicos (Adam Kotz e a eterna Scully, Gillian Anderson). Pouco depois de sua chegada, um imprevisto o coloca frente a frente com o presidente do país, o temido Idi Amin (um assustador Whitaker, oscilando entre a doçura e o terror). Impressionado com o rapaz, o ditador o convence a aceitar o cargo de médico particular - e logo Nicholas estará sendo testemunha ocular dos bastidores do poder, em que atrocidades monstruosas convivem em aparente tranquilidade com uma imagem paradoxal do presidente. Garrigan, atônito, descobre que Amin é o responsável por um legítimo genocídio, mas se vê aprisionado por sua lealdade. Essa lealdade, por outro lado, é posta à prova quando ele se encanta por Kay (Kerry Washington), terceira mulher do mandatário supremo do local. Arriscando a própria vida, ele inicia um intenso romance com ela.



Baseado no livro de Giles Folden - que se utiliza de fatos reais mas é uma obra de ficção - o roteiro de Peter Morgan e Jeremy Brock acerta em optar pelo ponto de vista de Nicholas Garrigan ao invés de centrar sua trama no polêmico ditador: os olhos de Garrigan são também os olhos da audiência, que vai tomando conhecimento aos poucos de todo o horror que se esconde atrás dos discursos ufanistas do governante, até chegar em suas sequências finais, de uma violência física e psicológica ímpares no cinemão. Kevin MacDonald, estreando em longas-metragens com o pé direito, não tem medo de explicitar a sangrenta forma com que Amin lidava com seus desafetos e isso mantém o suspense sempre em altos níveis, sem nunca deixar de lembrar que está contando uma história política e não se inscrevendo na lista de filmes de terror. O sangue que escorre na tela é real, é humano, é infelizmente derramado sem motivos, o que aumenta a sensação de perigo e indignação. E, sem dúvida, é Forest Whitaker quem comanda tudo com maestria.

Mantendo-se na personagem mesmo quando estava fora de cena, Whitaker construiu um Idi Amin antológico, sem exageros mas extremamente fiel à realidade. Quem lembra do ator na pele de inúmeras outras personagens dóceis e pacatas leva um susto ao vê-lo destilando ódio, fúria e violência, em uma interpretação simplesmente impecável. Mesmo ao lado de atores excelentes como James McAvoy, ele chama todas as cenas para si, com um magnetismo que se equipara ao do próprio Amin, considerado um político carismático e popular até que começou a mostrar sua verdadeira face. Se seu mandato foi trágico e triste, ao menos rendeu um ótimo filme, que não apenas narra episódios grotescos, mas convida o público a compartilhar deles, graças à ótima trilha sonora e à fotografia em cores quentes que dão a nítida sensação de estar em Uganda. Vale a pena conferir.

3 comentários:

K disse...

um filme bastante triste....

Abraços
blogtvmovies.blogspot.com.br

Marcelo keiser disse...

É ótimo esse filme. Talvez o melhor filme de James McAvoy.

abraço

marcelokeiser.blogspot.com.br

Hugo disse...

Perfeito seu texto, é um ótimo filme com uma magnífica interpretação de Forest Whitaker.

Abraço