segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

MATADOR

MATADOR (Matador, 1986, Cia. Iberoamericana de TV S/A, 110min) Direção: Pedro Almodovar. Roteiro: Pedro Almodovar, Jesús Ferrero, argumento de Pedro Almodovar. Fotografia: Ángel Luis Fernández. Montagem: Pepe Salcedo. Música: Bernardo Bonezzi. Figurino: J.M. Cossio. Direção de arte/cenários: Fernando Sánchez/R. Arango, J. Morales, J. Rosell. Produção executiva: Andrés Vicente Gómez. Elenco: Assumpta Serna, Nacho Martínez, Antonio Banderas, Eva Cobo, Chus Lampreave, Carmen Maura, Eusébio Poncela. Estreia: 07/3/86

Depois de sacudir o underground espanhol com suas obras debochadas e construídas em torno de um humor anárquico e transgressor, Pedro Almodovar falou sério em "O que fiz eu para merecer isto?". Mas o humor que ainda fazia parte de seu quarto filme - mesmo que disfarçado em ironia - inexiste na obra mais ousada de sua primeira fase como cineasta. "Matador" reúne Eros e Thanatos - amor e morte - de forma poética, tensa e romântica - ainda que o romantismo em sua filmografia fuja violentamente do que se espera de uma história de amor corriqueira. Como ficaria claro em alguns de seus filmes posteriores, quando um personagem de Almodovar se apaixona ele rapta, mata ou estupra o objeto de seu afeto.

Como faria dezessete anos mais tarde em "Fale com ela", Almodovar utiliza o mundo das touradas como pano de fundo para sua história. Um dos protagonistas, Diego Montez (Nacho Martinez), é um ex-toureiro que, depois de um acidente na arena, passou a dedicar-se a ensinar sua arte a jovens aspirantes e sua primeira cena já demonstra claramente sua tendência a excitar-se com a morte e a violência, quando o público o flagra se masturbando enquanto assiste a um filme de terror. Em outra sequência inicial, uma mulher sexy e dominadora leva um amante para sua casa e, seguindo os movimentos de uma tourada, o mata no momento do orgasmo. Essa dupla central - improvável como protagonistas de uma história de amor nos moldes hollywoodianos - é que conduzirá a trama. Ele é o assassino de duas mulheres que enterrou em seu jardim. Ela é - como é informado logo depois - María Cardenal (Assumpta Serna), advogada bem-sucedida que entra na vida de Diego quando passa a defender seu jovem aluno Antonio (Antonio Banderas), que vai à justiça para assumir a morte de uma série de homens. Sendo a verdadeira criminosa, María tenta entender os motivos que o levaram a confessar crimes que não cometeu. Antonio, um rapaz filho de mãe religiosa conservadora (Julieta Serrano) é vidente e, com a ajuda da psicoterapeuta Julia (Carmen Maura), quer provar sua masculinidade, questionada pelo professor.


Ao contrário dos filmes anteriores de Almodovar, "Matador" apresenta uma série de personagens bem desenvolvidos, que fogem ao estigma de apenas estereótipos. Apesar de sua força icônica, os protagonistas de seu filme tem personalidades fortes e conduzem suas vidas de forma coerente com seus desejos e tendências. Como se fizessem parte de uma mesma espécie - e que só podem conviver entre si - Diego e Maria vêem-se nos olhos um do outro, apaixonam-se porque sabem que não tem outra escolha senão entregar-se a esse amor - doentio na visão dos outros, absolutamente inevitável em sua perspectiva. Nesse ponto, é exemplar como o cineasta narra tudo com sobriedade, evitando as cores exageradas e o humor corrosivo que já eram suas maiores características. "Matador" é sombrio, pesado e excitante. E talvez por isso seja um de seus melhores trabalhos.

Um estudo poderoso sobre o tesão, sobre o amor e a morte, "Matador" é, no entanto, um típico produto almodovariano em seu sucesso ao romper com o esperado, com o normal e com o superficial.

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