quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

LABIRINTO DE PAIXÕES

LABIRINTO DE PAIXÕES (Laberinto de pasiones, 1982, Alphaville SA, 100min) Direção e roteiro: Pedro Almodovar. Fotografia: Ángel Luis Fernández. Montagem: Miguel Fernández, Pablo Mínguez, José Salcedo. Música: Bernardo Bonezzi, Fany McNamara. Figurino: Alfredo Caral, Marina Rodríguez. Direção de arte: Pedro Almodovar, Andrés Santana. Produção: Pedro Almodovar. Elenco: Cecilia Roth, Imanol Arías, Helga Liné, Marta Fernández Muro, Fernando Vivanco, Antonio Banderas. Estreia: 29/9/82

Depois do sucesso marginal de seu primeiro filme, "Pepi, Luci, Bom e outras garotas de montão", Pedro Almodovar tornou-se mais ambicioso. Seu segundo longa, a comédia "Labirinto de paixões" buscou influências nas produções ligeiras feitas em Hollywood nos anos 30 e, unindo-as com seu próprio arsenal de ideias extravagantes e personagens nonsense, criou uma desvairada e anárquica comédia, com mais substância narrativa do que seu primeiro trabalho e que agradou em cheio o público underground a que se destinava em primeira instância - a ponto de ficar em cartaz por dez anos em um cinema espanhol, sempre na sessão da meia-noite.

Enquanto "Pepi, Luci, Bom" focava-se basicamente em sua heroína desnorteada, cercada de amigos e conhecidos tão perdidos quanto ela, "Labirinto de paixões" expande o número de situações cômicas ao eleger como protagonistas uma dupla capaz de transitar pelos mais variados cenários, envolvendo todos os demais personagens em uma comédia de erros que mistura terrorismo, traumas de infância, homossexualidade, música e bebês de proveta. Nas mãos alucinadas de Almodovar, esses ingredientes aparentemente tão díspares transformam-se no coquetel de risadas absurdas.


Sexília (Cecilia Roth), como o nome sugere, é uma jovem ninfomaníaca que é também a vocalista de uma banda formada por mulheres que abandonaram os namorados - que são também músicos e tocam em outro grupo. Filha de um médico especialista em inseminações artificiais e genética, ela sofre de um trauma de infância que a faz temer a luz do sol, mas suas consultas terapêuticas não causam muito efeito, porque sua médica quer apenas seduzir seu pai. Um dia, Sexília conhece e se apaixona por Johnny (Imanol Arías), que assumiu o posto de vocalista da banda de seu ex-namorado. Acontece que Johnny é, na verdade, Riza Niro,  o filho do imperador do Tirão que está na Espanha fugido de seu país. Homossexual, Riza encontra em Sexília um outro tipo de relação - não calcada unicamente em sexo - e resolve fugir com ela, justamente quando um grupo de terroristas está em seu encalço. Um dos integrantes do grupo é Sadec (Antonio Banderas), com quem ele teve uma noite de sexo, que tem um olfato altamente desenvolvido e está obcecado em encontrá-lo. Junta-se a eles todos a ex-imperatriz do Tirão (Helga Liné), que quer ter um filho com Riza e Queti (Marta Fernández Muro), uma jovem que deseja livrar-se do pai que a estupra constantemente, confundindo-a com sua mãe.

Jogando com sua própria forma de construir seus roteiros, Almodovar encontra, em "Labirinto de paixões", uma estrutura que se assemelha a um de seus maiores sucessos, o posterior "Mulheres à beira de um ataque de nervos", onde vários personagens confluem para um clímax em um aeroporto. Perceptivelmente feito com menos dinheiro e menos experiência, porém, "Labirinto" se aproveita do charme de um período de grande efervescência cultural na Espanha pós-Franco para brincar, debochar e fugir das amarras de um cinema bem-comportado - características que o cineasta iria refinar em suas obras-primas mais conhecidas e louvadas. Cecilia Roth - que estrelaria seu "Tudo sobre minha mãe" quase duas décadas mais tarde - combina com perfeição a doçura de uma mulher apaixonada com o fervor de uma jovem ninfomaníaca, entregando-se com divertimento às loucuras do diretor, assim como Antonio Banderas - que se tornaria seu alter-ego e alçaria grandes voos no cinema internacional graças a isso - em sua primeira colaboração com ele. E é impossível também não rir da aparição do próprio Almodovar em duas sequências: dirigindo uma fotonovela com McNamara - músico célebre no underground madrilenho da época - e depois, em dueto com ele, cantando a improvável "Suck it to me".

"Labirinto de paixões" ainda faz parte do cinema marginal de Pedro Almodovar, aquele celebrado pelos fãs mais fieis e olhado com curiosidade mórbida pelos mais conservadores. Mantém seu charme tosco e pobre de orçamento, mas deixa vislumbrar nitidamente todas as qualidades que seu diretor viria a mostrar em seus deslumbrantes filmes a partir da década de 90.

Nenhum comentário: