segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

ORGULHO E ESPERANÇA

ORGULHO E ESPERANÇA (Pride, 2014, Pathé/BBC Films, 119min) Direção: Matthew Warchus. Roteiro: Stephen Beresford. Fotografia: Tat Radcliffe. Montagem: Melanie Oliver. Música: Christopher Nightingale. Figurino: Charlotte Walter. Direção de arte/cenários: Simon Bowles/Liz Griffiths. Produção executiva: James Clayton, Christine Langan, Cameron McCracken. Produção: David Livingstone. Elenco: Ben Schnetzer, Abram Rooney, Jim McManus, George MacKay, Dominic West, Paddy Considine, Bill Nighy, Imelda Staunton. Estreia: 23/5/14 (Festival de Cannes)

Entre 1984 e 1985, uma greve de mineiros de carvão - paralisados por melhores condições de trabalho e salários mais justos - tornou-se uma grande pedra no sapato da então primeira-ministra Margaret Tatcher e mobilizou toda a Inglaterra. Tal greve, que foi o pano de fundo do lírico "Billy Elliot" (2000) é também o catalisador da trama de "Orgulho e esperança", bela comédia dramática inspirada em fatos reais que foi indicada ao Golden Globe de melhor comédia/musical de 2014. Com um elenco coadjuvante que inclui nomes respeitados como Bill Nighy, Imelda Staunton e Paddy Considine, o trabalho do britânico Matthew Marcus - cujo único cartão de visitas em longas-metragens até então havia sido o pouco visto "Simpático", estrelado por Sharon Stone e Nick Nolte (e devidamente ignorado) em 1999 - consegue o feito de ser acessível tanto ao público simpatizante ao movimento gay quanto ao espectador que busca apenas uma história bem contada e emocionante. Tudo ao mostrar, com delicadeza e bom-humor, a força da união, da solidariedade e da tolerância.

O protagonista do filme - se é que um filme com tantos personagens importantes tem um protagonista - é Mark Ashton (Ben Schnetzer), um jovem londrino que, tocado pela situação complicada pela qual passam os mineiros em greve e suas famílias, tem a ideia de fundar uma associação para arrecadar dinheiro que os impeça de passar necessidades. Surge, então, o "Gays e lésbicas em apoio aos Mineiros em Greve", que, com a ajuda de um grupo de amigos, desafia o preconceito e o desprezo de muitos conterrâneos contrários aos grevistas (considerados ilegais) e aos próprios jovens gays da região. Depois de um tempo - e já com uma boa quantia em mãos - o clube entra em contato com a Associação de Mineiros de um pequeno vilarejo do interior, cujo líder é o racional e empático Dai (Paddy Considine) e marcam de viajar para lá e entregar sua colaboração. A chegada do grupo, porém, não é das mais bem-sucedidas: apesar do caloroso carinho de alguns moradores - em especial as mulheres - os jovens gays descobrem que sua sexualidade pode ser um empecilho à união entre os dois times. Começa então uma luta para que o preconceito não atrapalhe uma relação que pode ser muito benéfica a ambos.


"Orgulho e esperança" é um filme de muitos acertos, boa parte deles graças ao roteiro esperto, ágil e simples de Stephen Beresford, que consegue contar sua história central - o embate entre dois grupos radicalmente diferentes com objetivos comuns - sem deixar de lado a atenção às figuras essenciais ao drama. Sem esquecer que foi justamente no princípio dos anos 80 que a AIDS começou a fazer suas vítimas, Beresford a coloca como uma sombra de angústia e medo diante de seus personagens - mesmo que de forma discreta e sem alarde. Sem sexualizar em excesso os protagonistas - que se beijam, dormem juntos e são abertamente gays mas não são vistos em cenas eróticas que destoariam da narrativa - o roteirista busca conquistar a simpatia do público médio, mas o faz com inteligência, nunca deixando de sublinhar o orgulho (afinal o título original) de uma sexualidade sem culpa e sem neuroses. E até mesmo quando caminha pelo drama, consegue ser sutil e evitar o óbvio. É assim que conta a saída do armário do jovem Joe (George MacKay) - que começa o filme sem ter os 21 anos de idade que fariam de sua homossexualidade algo legal - e a situação mal-resolvida de Gethin (Andrew Scott) com sua mãe - e até mesmo a violência de que o rapaz é vítima.

Sem atolar na superficialidade mesmo quando tenta contar várias histórias ao mesmo tempo - um mérito que deve ser dividido com a edição de ritmo impecável - e ao fazer rir e chorar ao mesmo tempo, Matthew Marcus faz um gol de placa com "Orgulho e esperança". Não apenas conta uma história relevante e inspiradora - que ilustra como poucas a noção de união entre diferenças - como desmistifica muitas lendas do universo homossexual, graças a diálogos carregados de ironia e um delicioso sarcasmo britânico. O equilíbrio certeiro entre a graça e o drama, entre a risada fácil e as lágrimas de emoção é o ingrediente secreto do filme, que ainda encontra espaço para surpreender o espectador a fugir, em alguns momentos, do previsível, e entregar cenas carregadas de um humanismo irresistível. "Orgulho e esperança" é uma pequena obra-prima do gênero. Não percam!

Um comentário:

Luciana Saunders Hutchings disse...

Nunca ouvi falar desse filme, mas parece ser muito bom!!