segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

O JOGO DA IMITAÇÃO

O JOGO DA IMITAÇÃO (The imitation game, 2014, Black Bear Pictures, 114min) Direção Morten Tyldum. Roteiro: Graham Moore, livro de Andrew Hodges. Fotografia: Oscar Faura. Montagem: William Goldenberg. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Sammy Sheldon Differ. Direção de arte/cenários: Maria Djurkovic/Tatiana Macdonald. Produção executiva: Graham Moore. Produção: Nora Grossman, Ido Ostrowsky, Teddy Schwarzman. Elenco: Benedict Cumberbatch, Keira Knightley, Matthew Goode, Rory Kinnear, Charles Dance, Mark Strong, Allen Leech, Matthew Beard. Estreia: 29/8/1 (Festival de Telluride)

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Morten Tyldum), Ator (Benedict Cumberbatch), Atriz Coadjuvante (Keira Knightley), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Roteiro Adaptado 

Se o filme fosse ruim e sua história não fosse fascinante e quase inacreditável ainda assim "O jogo da imitação" deveria ser obrigatório para qualquer um devido à sua mensagem pró-tolerância - conceito abstrato desconhecido para aberrações políticas nacionais cujos nomes não serão citados para que não tenham mais mídia do que já tem sem merecê-la mas que são extremamente perigosos em seu preconceito doentio e beligerante. A história real de Alan Turing, o matemático inglês que criou uma máquina capaz de decifrar códigos secretos da Alemanha nazista e assim abreviou a II Guerra em cerca de dois anos - poupando, por consequência, milhares de vidas - não é apenas uma história de guerra. Não é apenas uma ilustração de como o ser humano pode superar as máquinas com sua inteligência. Não é apenas sobre um período negro na história da humanidade. É também uma história sobre como a discriminação e a ignorância ainda conseguem suplantar o espírito humano a ponto de compactuar com a tragédia. Sim, Alan Turing, além de gênio, era homossexual, crime passível de prisão na Inglaterra da época, e optou pela castração química a ter que abandonar sua criação - que tinha raízes profundas que remetiam à sua infância e a seu primeiro e grande amor. Sim, "O jogo da imitação" é, além de um estupendo suspense de guerra, uma bela e emocionante história de amor.

Dirigido pelo norueguês Morten Tyldum - que merecidamente ficou entre os indicados ao Oscar de sua categoria em um ano repleto de injustiças cometidas pela Academia - "O jogo da imitação" é brilhante por pelo menos duas razões. Primeiro, porque não levanta a bandeira da homossexualidade para vender ingressos, preferindo deixar a vida pessoal de seu protagonista vir à tona aos poucos, quase com uma subtrama que se desvenda magistralmente no ato final, dando sentido e um toque emocional precioso à narrativa (mérito também do roteiro de Graham Moore). E segundo porque apresenta uma das atuações mais viscerais da temporada: na pele de Turing, o ator Benedict Cumberbatch mostra porque tornou-se, a partir de 2012, um dos intérpretes mais requisitados de Hollywood. Caminhando na tênue linha que separa o grotesco do sublime, ele constroi um protagonista que, a despeito de suas características quase clichês (é antissocial, é excêntrico, é um tanto arrogante), conquista a simpatia do público sem precisar apelar para a compaixão - até as explosivas sequências finais onde revela seu lado apaixonado e desmancha o coração de qualquer ser humano dotado de alma.


Baseado em um livro de Andrew Hodges, "O jogo da imitação" é, também, um fascinante passeio pelos bastidores da II Guerra menos retratados pelo cinema, bem mais afeito à batalhas sangrentas do que a lutas intelectuais. Sem deixar que as complicadas equações e códigos decifrados por Turing sejam empecilho para a compreensão da história, o roteiro busca concentrar-se na relação do protagonista com seus colegas de missão - também importantes para o desfecho do conflito - e com seu passado, contado através de flashbacks inseridos nos momentos corretos: ao contrário do que acontece com outros filmes que abusam do recurso, atrapalhando o ritmo com desnecessárias interrupções, a edição do veterano William Goldenberg é certeira, trabalhando em conjunto para desenhar o belíssimo produto final, assim como a impecável reconstituição de época e a trilha sonora inspirada de Alexandre Desplat. A direção de Tyldum é tão firme, aliás, que até mesmo Keira Knightley está bem em cena, deixando de lado suas caras e bocas costumeiras - ser indicada ao Oscar de coadjuvante talvez tenha sido mais reflexo de um ano fraco na categoria do que da excelência de seu trabalho, mas ela está decididamente contida e convincente.

Mas, sem dúvida nenhuma, o maior valor de "O jogo da imitação" é a força que imprime em seus minutos finais, quando fica claro à plateia o quanto a humanidade ainda precisa caminhar para se tornar digna de ser assim chamada. Saber que foi um homossexual um dos maiores responsáveis pelo fim de um período de terror no mundo, e que foi ele quem salvou milhares de vidas talvez - talvez, já que não dá para pedir razão a seres desprovidos dela - pudesse mudar o modo como muita coisa é vista e percebida ainda hoje, sete décadas depois do fim do conflito. E muito disso se deve à corajosa atuação de Benedict Cumberbatch. Seu trabalho irretocável enfrentou concorrência ferrenha no Oscar deste ano, principalmente do vencedor Eddie Redmayne em "A teoria de tudo" e Michael Keaton em "Birdman", ambos excelentes em seus filmes. Mas arrepios de emoção somente a sua interpretação ele conseguiu causar.

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