terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

LIVRE

LIVRE (Wild, 2014, Fox Searchlight Pictures, 115min) Direção: Jean-Marc Vallé. Roteiro: Nick Hornby, livro "Wild: from lost to found on the Pacific Crest Trail", de Cheryl Strayed. Fotografia: Yves Bélanger. Montagem: Jean-Marc Vallé, Martin Pensa. Figurino: Melissa Bruning. Direção de arte/cenários: John Paino/Robert Covelman. Produção executiva: Nathan Ross, Bergen Swanson. Produção: Bruna Papandrea, Bill Pohland, Reese Witherspoon. Elenco: Reese Witherspoon, Laura Dern, Thomas Sadoski, Keene McRae, Michiel Huisman, Gaby Hoffman. Estreia: 29/8/14 (Festival de Telluride)

2 indicações ao Oscar: Melhor Atriz (Reese Witherspoon), Atriz Coadjuvante (Laura Dern)


O que “Livre” – que concorreu a dois Oscar na cerimônia de 2015 – tem em comum com o fotogênico cartão-postal “Comer, rezar, amar”, estrelado por Julia Roberts em 2010 e o emocionante “Na natureza selvagem”, que Sean Penn dirigiu em 2007? Quem apostar em “são todos adaptados de livros baseados em histórias reais” não estará errado. Quem optar por “todos são protagonizados por personagens que resolvem promover o reencontro consigo mesmos através de viagens” igualmente estará certo. Mas a resposta mais completa certamente é “são filmes que, mesmo involuntariamente, acabam por completar-se, em uma espécie de trilogia informal sobre as angústias modernas sendo curadas pelo contato com a natureza e com a paz de espírito”. Parece um resgate temporão de valores da década de 60, mas o fato é que os três filmes, cada um com sua identidade própria, apontam para uma saudável forma de reaproximação do público com histórias menos centradas em efeitos visuais idiotizantes e mais preocupadas com personagens de carne-e-osso. Se “Comer, rezar, amar” era o mais leve e despretensioso – apesar do orçamento generoso e do nome de Julia Roberts no elenco – e “Na natureza selvagem” mergulhava sem medo na poesia visual e na beleza dolorosa da história de Christopher McCandless (narrada por Jon Krakauer no livro homônimo), “Livre”, baseado na obra de Cheryl Strayed é uma espécie de meio-termo entre os dois filmes. Do primeiro herda a ideia de um recomeço emocional longe das armadilhas do dia-a-dia; do segundo, uma personagem central ousada e destemida, que enfrenta seus fantasmas pessoais com uma mochila nas costas e a coragem de encarar a solidão de uma longa caminhada através de quilômetros de estradas dos EUA.


O desempenho de Reese Witherspoon como Cheryl Strayed, a protagonista de “Livre”, é um passo à frente em sua carreira, superior em qualidade até mesmo à sua interpretação como June Carter em “Johnny & June”, que lhe deu o Oscar em 2006. Na pele de Strayed, Whiterspoon – que assina o filme também como produtora – abandona a vaidade e o sorriso radiante que tanto lhe ajudaram em sua trajetória rumo ao estrelato (em filmes como “Legalmente loira” e “Doce lar”) para apresentar um trabalho maduro, sóbrio e corajoso que sobrepuja até mesmo o roteiro pouco inspirado e a direção burocrática de Vallé – ainda que, justiça seja feita, o cineasta também tenha evoluído em relação a seu premiado “Clube de compras Dallas”. Mesmo que abuse dos flashbacks – que explicam as razões da protagonista mas diluem os momentos mais emocionais – Vallé consegue impor um ritmo menos irregular do que em seu filme anterior, aproximando o público de sua protagonista apesar de ela não ser exatamente uma personagem das mais “gostáveis”.




Revoltada com a morte de sua mãe (Laura Dern, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), Cheryl, até então uma jovem ajustada e feliz em seu casamento, entra em uma espiral de autodestruição, se afundando no vício em drogas e sexo promíscuo. Seu desespero, disfarçado também em agressividade contra todos que a tentam ajudar, acaba por empurrá-la em direção a uma solução um tanto inesperada: com o apoio do ex-marido, ela inicia uma travessia longa, complexa e perigosa pelas estradas americanas, munida apenas de uma mochila (a princípio pesadíssima e repleta de supérfluos que vão ficando pelo caminho) e o desejo irredutível de purificar a mente e redescobrir suas qualidades. No trajeto – que faz absolutamente sozinha, salvo alguns contatos fugazes com outros andarilhos – ela faz as pazes consigo mesma, com a vida e dá início ao processo de aceitação da perda da mãe. Uma trama um tanto recheada de clichês, sem dúvida, mas valorizada pela interpretação honesta de Witherspoon, que evita as armadilhas do roteiro e foge da tentação de ser maior do que a história ou a personagem. Discreta na maior parte do tempo, ela transmite uma vasta gama de emoções – tristeza, revolta, medo, angústia, paz – sem precisar recorrer ao repertório comum de gritos e lágrimas que é moeda corrente no cinema comercial americano. Sim, ela tem uma “grande cena dramática” que justifica sua indicação ao Oscar, mas na maior parte do tempo sua atuação é sutil e inteligente – uma prova disso é o fato de o filme não ter feito muito barulho nas bilheterias nem mesmo com suas duas indicações à estatueta.
Contado fora de ordem cronológica – ao menos quando se trata dos flashbacks que mostram a vida de Strayed antes de sua caminhada – “Livre” reitera suas semelhanças com “Na natureza selvagem”, mas ressente-se da profundidade do filme estrelado por Emile Hirsch. Uma surpresa, já que o roteiro é assinado pelo escritor Nick Hornby, autor de livros também transformados em filmes – como “Alta fidelidade” (99) e “Um grande garoto” (02) – e indicado ao Oscar pela adaptação das memórias de Lynn Barber, no festejado “Educação” (09). Mesmo com seu invejável currículo, o autor britânico não foi completamente feliz em narrar as aventuras de Cheryl: em alguns momentos a superficialidade é maior do que deveria, dificultando um maior envolvimento do público com a protagonista e, consequentemente, diminuindo o impacto emocional da história. Ainda assim, com sua sensibilidade e talento, ele consegue desviar do óbvio, com um final inspirador bem aproveitado por Jean-Marc Vallé e valorizado pela atuação de Witherspoon. No cômputo final, “Livre” acaba por ser um filme acima da média – mais profundo que “Comer, rezar, amar”, mas bem menos impactante que “Na natureza selvagem”.

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