sábado, 13 de fevereiro de 2016

MAPAS PARA AS ESTRELAS

MAPAS PARA AS ESTRELAS (Maps to the stars, 2014, Prospero Pictures/Sentient Entertainment, 111min) Direção: David Cronenberg. Roteiro: Bruce Wagner. Fotografia: Peter Suschitzky. Montagem: Ronald Sanders. Música: Howard Shore. Figurino: Denise Cronenberg. Direção de arte/cenários: Carol Spier/Sandy Lindstedt, Peter P. Nicolakakos. Produção executiva: Benedict Carver, Renee Tab, Patrice Theroux. Produção: Sain Ben Said, Martin Katz, Michael Merkt. Elenco: Julianne Moore, Mia Wasikowska, Robert Pattinson, John Cusack, Evan Bird, Olivia Williams, Sarah Gadon. Estreia: 19/5/14 (Festival de Cannes)

Palma de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Atriz (Julianne Moore)

Já faz algum tempo que o canadense David Cronenberg deixou de lado sua obsessão por vísceras expostas e personagens tão bizarros que beiravam o surreal. O homem que se tornou conhecido por obras quase desagradáveis como "Scanners: sua mente pode destruir" (81), "Videodrome: a síndrome do vídeo" (83), "A mosca" (86), "Gêmeos: mórbida semelhança" (88) e "Crash: estranhos prazeres" (96) entrou ameno no século XXI, contando histórias mais palatáveis ao público médio - "Marcas da violência" (05) e "Senhores do crime" (07) chegaram, vejam só, a concorrer ao Oscar. Porém, a alma de Cronenberg ainda mantém algo de doentio, como mostra "Mapas para as estrelas", uma aparentemente inofensiva comédia dramática sobre os exageros das celebridades no mundo do cinema e que deu à Julianne Moore a Palma de Ouro de melhor atriz no Festival de Cannes 2014. Aparentemente inofensiva porque, por debaixo do humor mordaz do roteiro de Bruce Wagner e da atuação à beira do over do elenco - uma característica que também marca normalmente a obra de outro outsider, chamado David Lynch - está uma narrativa ferozmente cruel, que desnuda sem pudores o universo fútil e impiedoso da indústria cinematográfica americana.  

Assim como Robert Altman fez em "O jogador" (92), Cronenberg explora as entranhas do mundo corporativo do cinema, mas não através do olhar de um poderoso produtor e sim de uma atriz outrora significante lutando para dar a volta por cima e retornar aos holofotes. Em uma de suas duas brilhantes atuações da temporada (a outra foi em "Simplesmente Alice", que lhe deu um merecido Oscar), Julianne Moore vive de corpo e alma a desesperada e frustrada Havana Segrand, que, entre massagens, sessões de terapia e almoços de negócios, tenta convencer a todos que passam por seu caminho que ela é a escolha certa para interpretar, em um remake, a personagem que tornou sua mãe em estrela nos anos 60. Resistindo ao preconceito - a idade, afinal, é um fator dominante dentro da indústria - e às flutuações de prestígio que a fazem disputar o papel com nomes mais quentes, Havana também precisa brigar com fantasmas interiores que remetem a um trauma de infância que ela teima em esconder. E trauma de infância também é um problema para Benjie Weiss (Evan Bird), um adolescente de 13 anos, astro de um filme de sucesso que é aterrorizado por ter quase sido assassinado pela irmã mais velha quando era uma criança: rigidamente controlado por gente que exige que ele fique longe das drogas para manter seu contrato, ele vive em conflito com os pais, o médico-astro Stafford Weiss (John Cusack) e a nervosa Christina (Olivia Williams) - eles também detentores de um grave segredo.



As vidas de Havana e Benji - famosos e flutuando em um universo de drogas, álcool, sexo e celebridade fácil - contrasta com a de Agatha (Mia Wasikowska), uma jovem que chega da Califórnia disposta a trabalhar em Los Angeles e esquecer um incêndio que destruiu parte do seu rosto e suas mãos. Por intermédio da atriz Carrie Fischer - que conhece pela Internet - Agatha vai trabalhar com Havana, que se solidariza com seus dramas pessoais. Enquanto cuida de manter a agenda da patroa em dia - e de fazer compras pessoais para ela - a jovem acaba se encantando com Jerome (Robert Pattinson), motorista de limousine que sonha ser ator e tenta escrever um romance. Seus complexos, no entanto, acabam por se mostrarem mais fortes do que qualquer desejo, principalmente quando ela se vê obrigada a encará-los novamente e percebe que sua relação com Havana não será tão pacífica quanto o esperado.

Dirigindo seu filme como uma comédia de erros macabra - com direito a revelações bombásticas, incesto e uma inesperada violência física no clímax - David Cronenberg volta a mostrar seu domínio da técnica narrativa, impulsionada por personagens pouco simpáticos e situações cuja banalidade se mostra crucial para um maior impacto. Com um roteiro que enfatiza a superficialidade das relações e a fugacidade da juventude, "Mapas para as estrelas" usa e abusa de ironia, com inúmeras referências ao mundo do cinema e uma contundente crítica à importância exagerada que é dada à juventude e à beleza em detrimento do talento. Não é um filme convencional - o que fica evidente conforme a narrativa vai assumindo ares cada vez mais surreais - mas tampouco é uma tour de force bizarra como os trabalhos lançados pelo cineasta na década de 80. É um belo e impactante filme, repleto de um sarcasmo sutil e rascante e ilustrado pelo sublime desempenho de Julianne Moore. Quem gosta de esmiuçar os bastidores de Hollywood vai se encantar.

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