domingo, 7 de fevereiro de 2016

PRAIA DO FUTURO

PRAIA DO FUTURO (Praia do Futuro, 2014, Coração da Selva/Hank Levine Film/Watchmen Productions, 106min) Direção: Karim Ainouz. Roteiro: Karim Ainouz, Felipe Bragança, colaboração de Marco Dutra. Fotografia: Ali Olay Gozkaya. Montagem: Isabela Monteiro de Carvalho. Música: Hauschka. Figurino: Ruth Aragão, Camila Soares. Direção de arte: Marcos Pedroso. Produção executiva: Luciano Patrick, Andro Steinborn. Produção: Geórgia Costa Araújo, Hank Levine. Elenco: Wagner Moura, Clemens Schick, Jesuíta Barbosa, Fred Lima, Thomás Aquino. Estreia: 11/02/14 (Festival de Berlim)

Apesar do título, "Praia do Futuro" não é uma ficção científica nacional. O ponto turístico que dá nome ao filme de Karim Ainouz - de "Madame Satã" e "Abismo prateado" - fica em Fortaleza (CE), e é apenas um ponto de referência geográfico para uma trama que fala sobre isolamento social, solidão e o medo de romper com as amarras sentimentais sob a ótica mais sensorial do que verbal do cinema de Ainouz. Contrário à onda de filmes puramente comerciais que se alastrou pela cinematografia nacional, o cineasta cearense constrói uma narrativa calcada basicamente em silêncios - opressivos ou carinhosos - e, se decepciona ao público que busca roteiros mais convencionais, conquista a plateia mais afeita às ideias do que a números de bilheteria. Premiado pela Associação de Críticos de Arte de São Paulo como o melhor filme brasileiro de 2014 - além de outros prêmios em festivais internacionais - "Praia do Futuro" não é um filme para qualquer um, apesar da presença do festejado Wagner Moura encabeçando os créditos.

Moura, em uma interpretação corajosa que apaga em poucos minutos de tela a lembrança do truculento Capitão Nascimento de "Tropa de Elite", vive Donato, um salva-vidas melancólico que tem sua existência totalmente transformada depois que não consegue resgatar do mar um turista alemão que morre afogado em seu turno. Transtornado, ele trava conhecimento com o melhor amigo da vítima, Konrad (Clemens Schick) e os dois acabam se apaixonando. Depois do período de dez dias necessário para o encerramento das buscas pelo corpo do afogado, Konrad volta para Berlim. Algum tempo depois, Donato vai visitá-lo e, ao fim de suas férias, resolve ficar de vez na Alemanha, deixando para trás a mãe e o irmão caçula e o emprego. Essa decisão - que faz com que esteja sempre se sentindo deslocado e não completamente conectado à própria vida - sofre um novo baque quando, anos depois, seu irmão, Ayrton (Jesuíta Barbosa) aparece para visitá-lo e cobrá-lo pela total falta de notícias.


Moldando sua narrativa em elipses e cortes bruscos que contrastam com a bela fotografia - solar no Brasil, gélida na Alemanha - Karim Ainouz entrega um filme que fala mais à mente do que ao coração. Seus belos enquadramentos sustentam uma trama de aparente fragilidade dramática, mas que se revela, aos poucos, um retrato doloroso e angustiante de uma existência que nunca atinge totalmente seu potencial de realização. Donato é um personagem de grande profundidade psicológica - um homem incapaz de lidar satisfatoriamente com seus desejos, suas ambições e com as expectativas das pessoas a seu redor - e Wagner Moura é um ator extraordinário, que consegue, mesmo com poucas palavras, transmitir ao espectador todo seu turbilhão emocional sem soar fraco. Nem sempre seu parceiro na maioria das cenas (Clemens Schick) atinge tal nível de profundidade, mas a entrada de Jesuíta Barbosa em cena parece dar início ao encerramento de um ciclo de vida de seu personagem que engrandece a obra. Uma das maiores promessas do cinema brasileiro, Barbosa encara Moura de frente e, para os impacientes de plantão, o filme ganha ritmo e emoção.

Na pele de Ayrton, o irmão caçula que chega à Berlim para acertar as contas com Donato, Jesuíta Barbosa injeta fôlego novo e proporciona ao filme de Ainouz o que parecia estar faltando até então: sentido. Com um roteiro que exige mais do cérebro e da sensibilidade de seu público do que o normal, "Praia do futuro" traduz os sentimentos dos personagens em imagens - a água servindo como um arremedo de lar para Donato, as corridas de moto forjando uma liberdade para Konrad - e é somente a chegada de Ayrton que faz com que a barreira do silêncio imposta entre o casal de amantes seja quebrada: o jovem não aceita a deserção do irmão quando ele ainda era uma criança e sua mãe precisava de sua ajuda e não tem medo de expor, sem meias-palavras, todos os problemas do rapaz (medo, indecisão, inconstância) e balançar suas certezas. Juntos em cena, Wagner Moura e Jesuíta Barbosa estão brilhantes - não à toa, o segundo foi eleito o melhor ator coadjuvante do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro em 2014.

Um filme feito para fãs de um cinema menos comercial e mais voltado para sensações do que para reações imediatas, "Praia do Futuro" pode ser acusado pelos frequentadores médios como "parado", "pedante", "metido a cult" e "chato". Mas em um tempo em que filme brasileiro normalmente significa comédias rasteiras e imitações baratas de clichês americanos, talvez tais definições que se desejam pejorativas tornem-se medalhas a ostentar com orgulho. Cinema nem sempre é feito para agradar multidões, e são filmes assim, de emoções aparentemente pequenas, que tocam mais fundo o cérebro e a alma.

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