domingo, 9 de abril de 2017

LA LAND: CANTANDO ESTAÇÕES

LA LA LAND: CANTANDO ESTAÇÕES (La La Land, 2016, Summit Entertainment/Black Label Media, 128min) Direção e roteiro: Damien Chazelle. Fotografia: Linus Sandgren. Montagem: Tom Cross. Música: Justin Hurwitz. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: David Wasco/Sandy Reynolds-Wasco. Produção executiva: Michael Beugg, Mike Jackson, John Legend, Qiuyun Long, Thad Luckinbill, Trent Luckinbill, Jasmine McGlade, Molly Smith, Ty Stiklorius. Produção: Fred Berger, Gary Gilbert, Jordan Horowitz, Marc Platt. Elenco: Ryan Gosling, Emma Stone, John Legend, J.K. Simmons, Tom Everett Scott, Rosemarie DeWitt, Finn Wittrock. Estreia: 31/8/16 (Festival de Veneza)

14 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Damien Chazelle), Ator (Ryan Gosling), Atriz (Emma Stone), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção ("Audition", "City of stars"), Figurino, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 6 Oscar: Diretor (Damien Chazelle), Atriz (Emma Stone), Fotografia, Trilha Sonora Original, Canção ("City of stars"), Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 7 Golden Globes: Melhor Filme (Comédia ou Musical), Diretor (Damien Chazelle), Ator Comédia/Musical (Ryan Gosling), Atriz Comédia/Musical (Emma Stone), Roteiro, Trilha Sonora Original, Canção ("City of stars")

 Poético! Encantador! Irresistível! Fascinante! Em um período em que filmes retratam uma realidade dolorosa, cruel e por vezes realista ao extremo, quantas produções nascidas no berço de ouro de Hollywood podem ostentar tantos adjetivos quanto "La La Land: cantando estações"? Realizado como uma homenagem do jovem cineasta Damien Chazelle à era de ouro dos musicais americanos, e com um custo quase irrisório de 30 milhões de dólares, a doce e apaixonante história de amor entre um fã obcecado de jazz e uma aspirante à atriz acabou por conquistar o mundo, principalmente graças a seu perfeito equilíbrio entre gêneros (romance, musical, comédia, drama), à química inquestionável de seu par de atores centrais e ao visual deslumbrante, milimetricamente calculado para causar um efeito hipnotizante entre os fãs de cinema. Recordista de Golden Globes (levou sete para casa, arrebatando prêmios em todas as categorias a que foi indicado) e em indicações ao Oscar (14, empatando com "A malvada", de 1950, e "Titanic", de 1997), acabou, no entanto, frustrando seus admiradores quando perdeu a principal estatueta (melhor filme) para "Moonlight: sob a luz do luar" - em uma situação sem precedentes na história da Academia, quando foi anunciado vencedor para depois descobrir que os apresentadores Warren Beatty e Faye Dunaway haviam lido o nome errado. Tal situação, no entanto, não apaga seu brilho, suas seis vitórias (incluindo direção e atriz) e a sensação de já ter nascido clássico. Sucesso de público e de crítica, amado por fãs e admirado por amantes de música, é uma obra-prima indiscutível - capaz de abrir sorrisos no mais cínico espectador e provocar lágrimas nos mais sensíveis. Enfim, um filme que redescobre o prazer que apenas o cinema pode proporcionar.

Influenciado por dezenas de produções clássicas - percebe-se referências nítidas no desenrolar da narrativa, sejam diretas ou implícitas - e ainda assim dotado de personalidade própria, "La La Land" é um gigantesco passo à frente na carreira de seu diretor, já devidamente aplaudido em seu filme anterior, o premiado "Whiplash: em busca da perfeição" (2014). Com uma segurança de veterano, Chazelle constrói um universo particular, uma visão romantizada e colorida de sua cidade natal, Los Angeles, e de um mundo que parece radicalmente distante da realidade. Tudo em seu filme é reflexo de uma ótica visualmente deslumbrante e emocionalmente passional: da fotografia impecável de Linus Sandgren, de encher os olhos com sua paleta de cores delicadas em alguns momentos e gritantes em outros à direção de arte, que acompanha o imaginário onírico do cineasta ao criar cenários que parecem ter saído direto do mais apaixonado sonho. Da primeira sequência, em um engarrafamento monstruoso que se transforma magicamente em um número musical animado e empolgante, até os minutos finais (de partir o coração com suas implicações a respeito do destino e de como os sonhos tem seu lado bom e ruim), tudo que é visto na tela tem a clara intenção de encantar o público e transportá-lo para um lugar distante da realidade. As coreografias delicadas e complexas, as canções melancólicas de melodia discreta, as visitas a cenários conhecidos do público - o planetário de "Juventude transviada", os estúdios da Warner, as colinas de Hollywood - e a beleza artificial de uma cidade que já faz parte do inconsciente coletivo formam um impressionante painel narrativo, onde cada peça se encaixa perfeitamente na outra e, juntas, conduzem a audiência a uma experiência cada vez mais rara no quadradinho panorama do cinema americano.


A trama, como convém, é simples e pouco ambiciosa: a jovem Mia (Emma Stone, uma delícia de se assistir) trabalha como garçonete em uma lanchonete de Los Angeles enquanto espera sua grande chance como atriz. Sebastian (Ryan Gosling, versátil como nunca) é um pianista de bares que sonha abrir seu próprio estabelecimento, onde poderá finalmente valorizar a arte do jazz, pela qual é apaixonado. Os caminhos dos dois se cruzam e, depois de alguma relutância, Mia se entrega a um idílico romance com o rapaz, que lhe dá apoio e incentivo a perseguir seus objetivos. Conforme o tempo passa (dividido na tela nas quatro estações do ano, daí o subtítulo em português), os dois sentem que as coisas não serão assim tão fáceis: para juntar dinheiro, ele aceita fazer parte de um grupo musical pop liderado por um antigo desafeto (o cantor John Legend), e ela, motivada por ele, escreve um monólogo para lhe servir de escada para o sucesso. O que deveria unir o casal, porém, começa a afastá-los: será que é impossível a realização profissional e sentimental ao mesmo tempo? A resposta virá no devido tempo - e a música inspirada de Justin Hurwitz irá sublinhá-la de maneira a não deixar um único olho seco na plateia.

Com uma química já comprovada em outras duas ocasiões - nos filmes "Amor à toda prova" (2011) e "Caça aos gângsteres" (2014) - e novamente testada com sucesso, Ryan Gosling e Emma Stone estão fabulosos, e nem é possível imaginar que não foram os primeiros atores escalados para seus papéis. Se os planos de Damien Chazelle corressem conforme o esperado, Emma Watson e Miles Teller estariam na pele de Mia e Sebastian, mas por uma providencial mudança de planos, voltaram a contracenar e tiveram sua mais bem-sucedida parceria: Emma, escolhida pelo diretor depois de ele confirmar seus dotes musicais em uma montagem de "Cabaret", chegou a ganhar o Oscar de melhor atriz com seu misto de ingenuidade e determinação - impossível não se emocionar com a bela "Audition (The fools who dream"), indicada à estatueta de melhor canção - e se mostra uma das maiores promessas de Hollywood, enquanto Gosling se apresenta como um dos atores mais consistentes de sua geração, capaz de atuar, cantar e dançar com desenvoltura e carisma. Plenamente aptos a transmitir a mensagem apaixonante do diretor, eles são o corpo e alma de "La La Land", um filme inesquecível e que renova, de forma emocionante, o status de sétima arte ao cinema. É de se esperar o que mais Chazelle tem guardado na manga para seus próximos filmes: poucos cineastas conseguem ser tão brilhantes tão cedo!

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