quinta-feira, 13 de abril de 2017

PONTE DOS ESPIÕES

PONTE DOS ESPIÕES (Bridge of spies, 2015, DreamWorks/Fox 2000 Pictures/Relliance Entertainnment, 142min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Matt Charman, Ethan Coen, Joel Coen. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Michel Kahn. Música: Thomas Newman. Figurino: Kasia Walicka Maimone. Direção de arte/cenários: Adam Stockhausen/Rena DeAngelo, Bernhard Heinrich. Produção executiva: Jonathan King, Daniel Lupi, Jeff Skoll, Adam Somner. Produção: Kristie Macosko Krieger, Marc Platt, Steven Spielberg. Elenco: Tom Hanks, Mark Rylance, Amy Ryan, Alan Alda, Austin Stowell, Jesse Plemmons. Estreia: 04/10/15 (Festival de Nova York)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Mark Rylance), Roteiro Original, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Mark Rylance) 

Exatos dez anos separaram "Munique" e "Ponte dos espiões", e nesse meio-tempo, seu diretor Steven Spielberg retomou as rédeas de um de seus personagens mais famosos - em "Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal" (2008) -, realizou o sonho de dirigir uma aventura baseada em um clássico dos quadrinhos - "As aventuras de Tintim" (2011) - e viu dois filmes seus indicados ao Oscar principal - "Cavalo de guerra" (2011) e "Lincoln" (2012). Nenhum desses filmes, porém, por mais qualidades que possam vir a ter, chegou perto de refletir o enorme talento do cineasta mais popular do mundo, um homem capaz de entreter as massas com produções descompromissadas e entregar às plateias mais exigentes obras de extrema competência técnica e narrativa. Foi assim com "Munique" - um de seus melhores trabalhos - e é assim também com "Ponte dos espiões". Daí a comparação: ambos são filmes que equilibram um senso de ritmo e tensão constante com personagens complexos e histórias reais. Não à toa, nenhum deles foi campeão de bilheteria nos EUA: mesmo com o nome do cineasta e o rosto de Tom Hanks no cartaz, "Ponte dos espiões" mal passou dos 70 milhões de dólares de arrecadação doméstica, o que de forma alguma traduz a excelência de sua realização. Sério - mas dotado de um sutil senso de humor - e impecavelmente produzido, é um dos melhores filmes da carreira de Spielberg e um ponto alto de sua colaboração com Hanks, que já contava com os sensacionais "O resgate do soldado Ryan" (1998) e "Prenda-me se for capaz" (2002) e o apenas razoável "O terminal" (2004).

Uma história real quase inacreditável, "Ponte dos espiões" surgiu quase por acaso: lendo uma biografia de JFK, o roteirista Matt Charman ficou intrigado com o fato do então presidente americano ter buscado a ajuda de um advogado tributarista, James Donovan, para negociar a libertação de mais de 1000 prisioneiros após o malfadado episódio da Baía de Porcos, em Cuba. Buscando saber mais a respeito de Donovan, Charman deparou-se com um episódio pouco conhecido - mas muito empolgante do ponto de vista narrativo - da história da Guerra Fria, que envolvia o advogado e uma troca de prisioneiros entre EUA, União Soviética e Alemanha Oriental. Empolgado com a possibilidade de contar tal história no cinema, apresentou um projeto na DreamWorks e teve mais sorte do que Peter Ustinov e Gregory Peck, que tentaram uma adaptação em 1965 pela MGM e fracassaram (em parte porque ainda era muito cedo para tratar do assunto): o projeto parou nas mãos de ninguém menos que Steven Spielberg, que não demorou em assumir o controle da situação. Com o roteiro de Charman pronto, o cineasta chamou os irmãos Joel e Ethan Coen - diretores premiados com o Oscar por "Onde os fracos não tem vez" (2007) - para dar mais consistência ao protagonista e inserir um pouco do senso de ironia característico da dupla. Com Janusz Kaminski na fotografia e Michael Kahn na edição, apenas sua colaboração com o veterano compositor John Williams não seria possível (por problemas de saúde do músico) se repetir: Thomas Newman foi chamado e tornou-se parte de uma equipe primorosa e homogênea, que criou um filme no mínimo fascinante!


A trama começa em 1957, com a prisão de Rudolf Abel (Mark Rylance) pelo FBI: acusado de ser um espião soviético, o discreto e introvertido pintor é capturado depois de uma longa caçada. Para que não possa ser acusado de imparcialidade, o governo americano chama o advogado James B. Donovan (Tom Hanks) - que trabalhou nos julgamentos de guerra em Nuremberg - para defendê-lo. A princípio hesitante em aceitar o caso (por saber o quão delicado seria defender um "inimigo do país"), Donovan acaba por aceitar a missão e, mais do que isso, dedicar-se com fervor a ela, para desgosto de seus empregadores - que não tem grande interesse em absolvê-lo. Mesmo contra todas as probabilidades, Abel escapa da pena de morte graças à intervenção de seu advogado, que, profeticamente, imagina um cenário em que os EUA poderiam precisar do espião para trocar por algum soldado americano. Suas palavras se tornam realidade quando o piloto Francis Gary Powers (Austin Stowell) tem seu avião abatido durante um voo em busca de informações fotográficas e ele se vê preso pelos russos - e, na Alemanha Ocidental, o estudante Fredric Pryor (Will Rogers) é detido mesmo depois de identificar-se como apenas um estudante. Escalado para servir como negociador de uma troca entre Abel e Powers, o idealista advogado decide que, uma vez que não está oficialmente representando o governo, só irá levar a situação adiante se puder levar embora os dois prisioneiros americanos.

Com uma medida exata de suspense, humor negro (a burocracia a qual Donovan é submetido é quase kafkiana) e drama, "Ponte dos espiões" acerta em todos os alvos - ainda que seu patriotismo fique um tanto deslocado no final, uma característica de que o cinema de Spielberg não consegue abrir mão. Tom Hanks mais uma vez prova que é um ator de muitas nuances e lidera o elenco com força e generosidade, e Mark Rylance brilha em cada cena - seu Oscar de ator coadjuvante, inesperado contra o favorito Sylvester Stallone, por "Creed: nascido para lutar", foi absolutamente merecido. A fotografia sóbria e elegante de Janusz Kaminski é absolutamente eficaz, acompanhando com belas imagens a transposição visual da trama, cuidadosamente retratada em uma reconstituição de época de encher os olhos. Spielberg ainda dá espaço para seu característico ufanismo - forçando uma comparação entre a rígida Alemanha e seu democrático país através do olhar patriota de James Donovan - mas seu respeito pela história e pelo público impede que o filme resvale para o piegas. Um dos cineastas mais conscientes do poder das imagens para uma narrativa, Spielberg dá uma aula em cada cena, entregando um resultado final ao qual se é impossível ficar incólume. Cinema com letra maiúscula, "Ponte dos espiões" é mais uma obra-prima de uma carreira repleta delas. Que não demore mais dez anos para surgir outra!

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