terça-feira, 4 de abril de 2017

LABIRINTO DE MENTIRAS

LABIRINTO DE MENTIRAS (Im labyrinth des schweigens, 2014, Claussen Wobke Putz Filmproduktion/Naked Eye Filmproduktion, 124min) Direção: Giulio Ricciarelli. Roteiro: Elisabeth Bartel, Giulio Ricciarelli, ideia de Elisabeth Bartel, colaboração de Amelie Sybergberg. Fotografia: Martin Langer, Roman Osin. Montagem: Andrea Mertens. Música: Sebastian Pille, Niki Reiser. Figurino: Aenne Plaumann. Direção de arte/cenários: Manfred Doring/Janina Jaensch. Produção: Jakob Claussen, Sabine Lamby, Uli Putz. Elenco: Alexander Fehling, André Szymanski, Friederike Becht, Johannes Krish. Estreia: 06/9/14 (Festival de Berlim)

Uma cicatriz ainda longe de cicatrizar na história do mundo em geral e na carne da população alemã em particular, o nazismo e a forma como ele encontrou espaço para proliferar na sociedade germânica dos anos da II Guerra Mundial ainda é tema de muita discussão, polêmica e histórias (já contadas ou ainda inéditas). Uma prova disso é "Labirinto de mentiras", o candidato do país à corrida do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2014. Baseado em fatos reais e dotado de uma sobriedade que evita qualquer tipo de sentimentalismo ou apelo sádico, o filme do italiano Giulio Ricciarelli pode até não apresentar nenhuma novidade ao gênero, mas é uma produção caprichada, que trata do tema com seriedade e respeito, além de discutir, de forma discreta, o colaboracionismo (ou indulgência) do povo alemão diante do maior crime contra a humanidade da História. Sem imagens cruéis ou catarses emocionais grandiosas, é uma obra sutil e inteligente, com um roteiro que acerta em centrar seu foco em um protagonista quase ingênuo que, com o passar do tempo, se vê diante de uma realidade tão aterradora que o faz repensar toda a sua existência. Um herói com quem o público pode facilmente se identificar, Johann Radmann é também os olhos e os ouvidos da plateia - e seu choque com o que descobre é impossível de não ser compreendido.

Advogado recém-formado e trabalhando na Promotoria de Frankfurt em tediosos casos relacionados ao trânsito, Radmann conta as horas para ter a chance de mostrar sua competência em algo menos banal. Levando uma vida pacata e centrada na ética e no que considera correto, ele vê uma oportunidade surgir através do jornalista Thomas Gnielka (André Szymanski), que cobra das autoridades alguma atitude contra um aparentemente idôneo professor de crianças que é reconhecido por um ex-prisioneiro de Auschwitz como um dos guardas responsáveis pelas barbaridades cometidas durante a II Guerra. O ano é 1958 e o conflito parece fazer parte de um passado muito distante, mas Radmann resolve investigar mais a fundo - e, com a ajuda de seu superior, Fritz Bauer (Gert Voss), responsabilizar criminalmente não apenas este acusado, mas uma série de outros colaboradores nazistas que vivem vidas normais desde a morte de Hitler. O que o rapaz nem de longe desconfia é que as informações a respeito do que realmente acontecia nos campos de concentração são bem diferentes daquelas a que boa parte da população tinha notícia: conforme vai avançando em direção à verdade, Radmann vai se tornando amargo e desiludido, em especial quando percebe que muita gente gostaria de enterrar o passado - e esquecer as atrocidades cometidas em nome do patriotismo.


Alexander Fehling - que interpretou o interesse romântico de Claire Danes na quinta temporada da série "Homeland"- sai-se muito bem na pele de Johann Radmann, equilibrando com precisão todas as nuances do personagem. De jovem idealista e dotado de rígidas regras de conduta - que o faz emprestar dinheiro para uma ré para que a lei não seja minimamente alterada - até um homem confrontado com uma verdade inconveniente e desconfortável, o ator transita com segurança, sem buscar o caminho mais fácil: seu personagem é um exemplo de retidão moral, mas também tem atitudes bastante humanas e quase equivocadas, o que o aproxima do espectador. Suas reações enquanto vai tomando consciência de que todos à sua volta podem ser culpados, de alguma maneira, pelo que aconteceu na guerra, reflete o estado de espírito de alguém traído e enganado pela própria pátria - a quem ele ama mas talvez não goste mais. É um caminho penoso que o afasta de amigos, colegas e até da mulher por quem é apaixonado, mas do qual ele não pode mais sair sem feridas profundas. E o roteiro de "Labirinto de mentiras" não tem medo de empurrá-lo cada vez mais em direção às trevas do conhecimento.

Giulio Riciarelli acerta em não se deixar cair na armadilha de ilustrar sua história com descrições detalhadas dos horrores do nazismo: sua tática em explorar a tragédia através de olhares emocionados e/ou chocados é exemplar, evitando o dramalhão fácil. O crescimento emocional de seu protagonista é crível e compreensível diante dos fatos - e o elenco coadjuvante confirma o talento do cineasta em dirigir seus atores sem buscar neles qualquer tipo de excesso. Marcado pela sutileza e pela elegância mesmo se tratando de uma produção com todas as possibilidades de desviar-se para o panfletário oco, "Labirinto de mentiras" é um grande filme, uma das produções mais interessantes a respeito do tema - a despeito de sua despretensão narrativa, que contrasta com a importância de seu desfecho para a história da Alemanha e do mundo pós-guerra. Imperdível!

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