quinta-feira

UM DIA A CASA CAI

UM DIA A CASA CAI (The money pit, 1986, Universal Pictures, 91min) Direção: Richard Benjamin. Roteiro: David Giler. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Jacqueline Cambas. Música: Michel Colombier. Figurino: Ruth Morley. Direção de arte/cenários: Patrizia von Brandenstein/George DeTitta Sr.. Produção executiva: David Giler, Steven Spielberg. Produção: Kathleen Kennedy, Art Levinson, Frank Marshall. Elenco: Tom Hanks, Shelley Long, Alexander Godunov, Maureen Stapleton, Joe Mantegna. Estreia: 26/3/86

Quando estrelou a comédia "Um dia a casa cai", em 1986, Tom Hanks já tinha pelo menos um grande sucesso de bilheteria no currículo - "Splash: uma sereia em minha vida" (84), em que vivia uma história de amor com a sereia interpretada por Daryl Hannah. Foi graças ao filme de Richard Benjamin, no entanto, que o astro teria seu primeiro contato com aquele que o dirigiria inúmeras vezes no futuro, frequentemente com grande sucesso de crítica e público: Steven Spielberg, aqui assinando como produtor executivo. E se em colaborações vindouras a dupla seria presença constante nas cerimônias de premiação com obras de impacto como "O resgate do soldado Ryan" (98) e "Ponte dos espiões" (2015), seu primeiro encontro não poderia ter sido mais despretensioso. Refilmagem de um clássico de 1948 estrelado por Cary Grant e Myrna Loy e chamado "Lar... meu tormento", "Um dia a casa cai" é uma comédia rasgada e assumidamente pastelão, feita com o único objetivo de arrancar gargalhadas da plateia e fazê-la esquecer dos problemas por uma hora e meia. Deu certo: não apenas rendeu quatro vezes o seu custo no mercado doméstico e alavancou a carreira de Hanks como também entrou direto na lista dos clássicos dos anos 80. E para isso nem precisou ser genial, mas apenas competente!

Dotado de um senso de ritmo ágil e quase anárquico, "Um dia a casa cai" é uma comédia ligeira que não exige de seu público mais do que a vontade de se divertir sem pensar muito. Com um roteiro linear que flerta escancaradamente com o absurdo, o cineasta Richard Benjamin se contenta em orquestrar com precisão uma sinfonia de destruição que é, também, uma crítica sutil à especulação imobiliária galopante dos anos Reagan, uma época que deu origem aos hoje criticados yuppies - e cujo senso moral e conservador afetou também a produção cinematográfica de Hollywood, que passou a dar mais valor a filmes que pudessem ser consumidos por toda a família. "Um dia a casa cai" serve como uma luva para tais propósitos - mas nem por isso deixa de ser engraçado e ligeiramente ácido. A persona desenvolvida por Hanks - o homem comum, de fácil identificação com a plateia e propenso a sofrer de forma estoica e séria ao caos à sua volta - serve como uma luva nas pretensões do roteiro, e sua parceria com Shelley Long (de longa cancha na comédia) é das mais felizes - mais até do que poderia ter sido com a escolha inicial do diretor, Kathleen Turner.


A trama é simples até demais: precisando urgentemente sair do apartamento onde estava morando, Walter Fielding (Tom Hanks) encontra um negócio da China quando compra uma mansão de uma senhora em vias de abandonar o país - um achado inacreditável. O que Fielding não tem a menor ideia é que o casarão (aparentemente em perfeitas condições) está caindo aos pedaços, literalmente. Enquanto lida com dezenas de operários na reforma da propriedade - nem todos exatamente sendo profissionais exemplares -, ele ainda tem que se preocupar com a ameaça representada por Max Beissart (Alexander Godunov), um maestro internacionalmente famoso que vem a ser o ex-marido de Anna (Shelley Long), sua namorada: o músico ainda tem esperanças de recomeçar o casamento, e, apesar de apaixonada por Walter, Anna precisa da segurança que o rapaz ainda não lhe proporciona. A mudança e suas subsequentes desventuras irão fortalecer o relacionamento - ou acabar de vez com ele.

Criando cenas quase nonsense, de um humor direto e simples, Richard Benjamin faz de "Um dia a casa cai" um programa irretocável para quem busca entretenimento rápido. Com sequências milimetricamente construídas com o objetivo de fazer rir sem precisar pensar muito, o filme se inscreve na tradição das comédias físicas de Chaplin e Buster Keaton - sem o lirismo do primeiro e a seriedade do segundo - e confirma Tom Hanks como um dos atores mais versáteis de sua geração dois anos antes de sua primeira indicação ao Oscar (ainda por uma comédia, a delicada "Quero ser grande"). Já demonstrando um carisma acima da média e desenvoltura para realizar qualquer tipo de humor, Hanks é, junto com a direção de arte criativa (que desmonta um cenário ao invés de construí-lo), o maior trunfo de um filme que, se não chega a ser inesquecível, é, ao menos, parte da memória afetiva de boa parte dos cinéfilos de sua época. Já está de bom tamanho para algo tão despretensioso!

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