sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

MEIA-NOITE NO JARDIM DO BEM E DO MAL

MEIA-NOITE NO JARDIM DO BEM E DO MAL (Midnight at the garden of good and evil, 1997, Warner Bros, 155min) Direção: Clint Eastwood. Roteiro: John Lee Hancock, livro de John Berendt. Fotografia: Jack N. Green. Montagem: Joel Cox. Música: Lennie Niehaus. Direção de arte/cenários: Henry Bumstead. Produção executiva: Anita Zuckerman. Produção: Clint Eastwood, Arnold Stiefel. Elenco: Kevin Spacey, John Cusack, Jude Law, Alison Eastwood, Jack Thompson, Irma P. Hall, Lady Chablis. Estreia: 21/11/97

Clint Eastwood nunca precisou provar nada pra ninguém como cineasta e muito menos depois que sagrou-se vencedor do Oscar com seu impecável "Os imperdoáveis", de 1992. Um dos raros diretores do mainstream americano a preocupar-se mais com os atores do que com efeitos visuais mirabolantes, o velho Eastwood também tem bom olho para escolher os livros que leva às telas. Foi assim com "As pontes de Madison" - baseado em um romance água-com-açúcar de Robert James Waller que acabou tornando-se um de seus melhores trabalhos - e com "Poder absoluto" - que saiu das páginas de um policial de David Baldacci mas não repetiu o mesmo êxito. E é também baseado em um livro um de seus filmes menos bem-sucedidos (tanto em termos de crítica quanto de bilheteria): o romance-reportagem "Meia-noite no jardim do bem e do mal", escrito por John Berendt não encontrou na sua versão para celuloide o mesmo sucesso que obteve nas livrarias.

É difícil encontrar, racionalmente, um motivo para o fracasso de "Meia-noite": a direção de Eastwood está no ponto, o elenco (John Cusack e Kevin Spacey na liderança) é coeso e bem escalado, a trama é interessante e a produção é de primeira linha. Mas, analisando friamente, falta alma ao filme. Falta emoção. Falta calor. E sem esses elementos, por melhor que o resto seja, o resultado não tem como ser outro a não ser a indiferença do público. Soma-se a isso o equívoco na adaptação para o cinema de um livro cuja maior qualidade era a descrição bem-humorada da idiossincrática Savannah e seus habitantes surreais e tem-se uma obra cuja promessa não chega a ser cumprida em nenhum momento apesar da união de talentos.


John Cusack, exagerando nas caras e bocas, vive John Kelso, um repórter nova-iorquino que, depois do fracasso de seu primeiro livro, é contratado para cobrir a festa de Natal oferecida pelo excêntrico milionário Jim Williams na igualmente bizarra cidade de Savannah, no sul dos EUA. Logo que chega ao local, Kelso fica intrigado com o jeito de ser dos moradores - pessoas que caminham com cachorros já mortos, um homem que convive com moscas presas a seu ombro e um vidro de veneno com o qual ameaça matar a todos - e tem a ideia de escrever não uma reportagem, mas um livro. O tema do livro acaba sendo drasticamente alterado, porém, quando Williams mata o garoto de programa Billy (Jude Law em um de seus primeiros papéis em Hollywood), com quem mantinha uma relação falsamente ignorada pela alta sociedade da cidade. Temendo que o milionário seja condenado devido à sua homossexualidade, o escritor resolve acompanhar o julgamento - o que fica mais agradável quando ele inicia um romance com Mandy (Alison Eastwood, filha de Clint).

O roteiro de John Lee Hancock não encontra, a partir daí, o equilíbrio necessário entre um drama de tribunal que poderia ser empolgante e a forma como retratar as superstições e preconceitos de uma cidade do interior do sul do país - representados, respectivamente, pela misteriosa Minerva (Irma P. Hall) e pela drag queen Lady Chablis (interpretada pela própria inspiração para a personagem, na maior revelação do elenco). Essa quebra entre dois universos e duas tramas que não se combinam a contento talvez seja a maior responsável pelo fracasso do filme em atingir seus objetivos dramáticos. Sempre que as sequências do tribunal assumem o foco - com Kevin Spacey mostrando mais uma vez porque é um dos melhores atores americanos de sua geração - o filme cresce, apesar de não deixar os clichês pra trás. Quando tenta tratar sobre os ritos religiosos e o campo espiritual, porém, o roteiro chove no molhado e dispersa a ação - fato que nem mesmo a curiosa ideia de misturar personagens reais à trama consegue superar.

No final das contas, "Meia-noite no jardim do bem e do mal" não é um filme ruim, mesmo porque Eastwood é um diretor bom demais para estragar completamente um material. Mas ao mesmo tempo não convence nem encanta tanto quanto sua trama prometia. Fica no meio do caminho, salvo pela atuação (mais uma) extraordinária de Kevin Spacey.

Um comentário:

Anônimo disse...

Demorei quase 15 anos para ver esse filme e sempre esperei um terror, no mínimo um suspense, mas descobri um bom drama, não é nada que vá mudar a história da vida de alguém, muito menos entrar para a história do cinema, mas é legal.