Os detratores adoram dizer que os filmes de Woody Allen são repetitivos, que seu estilo não é exatamente criativo e que seu humor judaico/neurótico/nova-iorquino/sofisticado não sai do chove-não molha. No entanto, se o diretor não estivesse no elenco de "Neblina e sombras" - seu filme de maior orçamento até hoje - era bem pouco provável que qualquer crítico do cineasta pudesse reconhecer no filme qualquer das características que marcaram sua carreira. Com exceção da inteligência - e da marca registrada de usar nomes famosos em papéis pequenos ou quase pontas - nada nessa bela homenagem ao expressionismo alemão do início do século XX aponta para o fato que seu diretor é Allen.
A primeira diferença entre "Neblina e sombras" e o resto da filmografia de Woody diz respeito à geografia. Enquanto a vasta maioria de seus filmes se passa em Nova York e arredores, aqui a história acontece em uma pequena cidade da Alemanha aterrorizada por um assassino serial que mata suas vítimas estranguladas. Para caçar o criminoso vários grupos se formam, com moradores buscando resolver a situação com as próprias mãos, uma vez que o governo parece não se importar com os trágicos acontecimentos. Kleinman (vivido pelo diretor) é um homem comum - preocupado em ser deixado em uma promoção no trabalho - que é escalado por uma dessas facções, que pedem sua ajuda, sem nunca lhe explicar sua missão. Enquanto vaga pela cidade, envolta em neblina e sombras como o título do filme sugere, ele dá de cara com Irmy (Mia Farrow), a engolidora de espadas de um circo que está se apresentando na cidade. Depois de flagrar o marido, o palhaço do circo (John Malkovich) nos braços de sua sedutora colega Marie (Madonna), Irmy encontra abrigo no bordel da cidade, onde desperta o desejo do jovem estudante Jack (John Cusack). Ao lado de Kleinman, ela tentará manter-se longe do assassino e reconstruir sua vida.

Fotografado em belíssimo preto-e-branco por Carlo Di Palma, "Neblina e sombras" também foge do estilo forjado pelo cineasta em décadas de experiência ao evitar piadas intelectualizadas demais - talvez Allen já soubesse que o projeto em si já era suficientemente arriscado comercialmente para que ele confiasse na fidelidade cega de seu público. Ao misturar um humor muito disfarçado e um suspense sem sustos, ele criou um gênero híbrido que, obviamente, não encontrou sua audiência e nem encantou a crítica. Motivos não faltam para essa frieza toda, mas não deixa de ser um exagero essa absoluta apatia em relação ao filme.
Sem dúvida nenhuma, "Neblina e sombras" não é nem de longe um Woody Allen das melhores safras: não é particularmente engraçado, nem denso ou mesmo leve. Mas é inteligente como qualquer trabalho seu - com ecos de "O processo", de Kafka e do filme "M, o vampiro de Dusseldorf", de Fritz Lang -, é extraordinariamente bem realizado - os sets foram construídos especificamente - e só o fato de reunir o elenco que reuniu é de aplaudir entusiasticamente: ao lado dos já citados, desfilam pela tela Jodie Foster, Kathy Bates, Kate Nelligan, Lily Tomlin e Donald Pleasance. Mas aparenta ser mais longo, talvez culpa da morosidade do roteiro e tem um clímax um tanto quanto fraco em relação ao que promete em seu promissor começo.
Para os fãs de Woody Allen, é obrigatório como todos os seus filmes. Para aqueles que acreditam que ele é sempre o mesmo, é necessário. Mas para quem simplesmente não gosta do diretor, não é a maneira correta de começar a gostar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário