quarta-feira, 10 de novembro de 2010

NEBLINA E SOMBRAS

NEBLINA E SOMBRAS (Shadows and fog, 1991, Orion Pictures, 85min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/George DeTitta Jr., Amy Marshall. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, John Malkovich, Madonna, Donald Pleasance, Lily Tomlin, Jodie Foster, Kathy Bates, John Cusack, John C. Reilly, Philip Bosco, Kurtwood Smith, Kate Nelligan, Fred Gwyne, William H. Macy, Wallace Shawn. Estreia: 05/12/91

Os detratores adoram dizer que os filmes de Woody Allen são repetitivos, que seu estilo não é exatamente criativo e que seu humor judaico/neurótico/nova-iorquino/sofisticado não sai do chove-não molha. No entanto, se o diretor não estivesse no elenco de "Neblina e sombras" - seu filme de maior orçamento até hoje - era bem pouco provável que qualquer crítico do cineasta pudesse reconhecer no filme qualquer das características que marcaram sua carreira. Com exceção da inteligência - e da marca registrada de usar nomes famosos em papéis pequenos ou quase pontas - nada nessa bela homenagem ao expressionismo alemão do início do século XX aponta para o fato que seu diretor é Allen.

A primeira diferença entre "Neblina e sombras" e o resto da filmografia de Woody diz respeito à geografia. Enquanto a vasta maioria de seus filmes se passa em Nova York e arredores, aqui a história acontece em uma pequena cidade da Alemanha aterrorizada por um assassino serial que mata suas vítimas estranguladas. Para caçar o criminoso vários grupos se formam, com moradores buscando resolver a situação com as próprias mãos, uma vez que o governo parece não se importar com os trágicos acontecimentos. Kleinman (vivido pelo diretor) é um homem comum - preocupado em ser deixado em uma promoção no trabalho - que é escalado por uma dessas facções, que pedem sua ajuda, sem nunca lhe explicar sua missão. Enquanto vaga pela cidade, envolta em neblina e sombras como o título do filme sugere, ele dá de cara com Irmy (Mia Farrow), a engolidora de espadas de um circo que está se apresentando na cidade. Depois de flagrar o marido, o palhaço do circo (John Malkovich) nos braços de sua sedutora colega Marie (Madonna), Irmy encontra abrigo no bordel da cidade, onde desperta o desejo do jovem estudante Jack (John Cusack). Ao lado de Kleinman, ela tentará manter-se longe do assassino e reconstruir sua vida.

 

Fotografado em belíssimo preto-e-branco por Carlo Di Palma, "Neblina e sombras" também foge do estilo forjado pelo cineasta em décadas de experiência ao evitar piadas intelectualizadas demais - talvez Allen já soubesse que o projeto em si já era suficientemente arriscado comercialmente para que ele confiasse na fidelidade cega de seu público. Ao misturar um humor muito disfarçado e um suspense sem sustos, ele criou um gênero híbrido que, obviamente, não encontrou sua audiência e nem encantou a crítica. Motivos não faltam para essa frieza toda, mas não deixa de ser um exagero essa absoluta apatia em relação ao filme.

Sem dúvida nenhuma, "Neblina e sombras" não é nem de longe um Woody Allen das melhores safras: não é particularmente engraçado, nem denso ou mesmo leve. Mas é inteligente como qualquer trabalho seu - com ecos de "O processo", de Kafka e do filme "M, o vampiro de Dusseldorf", de Fritz Lang -, é extraordinariamente bem realizado - os sets foram construídos especificamente - e só o fato de reunir o elenco que reuniu é de aplaudir entusiasticamente: ao lado dos já citados, desfilam pela tela Jodie Foster, Kathy Bates, Kate Nelligan, Lily Tomlin e Donald Pleasance. Mas aparenta ser mais longo, talvez culpa da morosidade do roteiro e tem um clímax um tanto quanto fraco em relação ao que promete em seu promissor começo.

Para os fãs de Woody Allen, é obrigatório como todos os seus filmes. Para aqueles que acreditam que ele é sempre o mesmo, é necessário. Mas para quem simplesmente não gosta do diretor, não é a maneira correta de começar a gostar.

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