terça-feira

MEU NOME É DOLEMITE


MEU NOME É DOLEMITE (Dolemite is my name, 2019, Netflix, 118min) Direção: Craig Brewer. Roteiro: Larry Alexander, Scott Karaszewski. Fotografia: Eric Steelberg. Montagem: Billy Fox. Música: Scott Bomar. Figurino: Ruth E. Carter. Direção de arte/cenários: Clay A. Griffith/Lisa K. Sessions. Produção executiva: Michael Beugg, Charisse Hewitt-Webster. Produção: John Davis, John Fox, Eddie Murphy. Elenco: Eddie Murphy, Wesley Snipes, Keegan-Michael Key, Mile Epps, Craig Robinson, Kodi Smit-McPhee, DaVine Joy Randolph, Snoop Dogg. Estreia: 07/9/2019 (Festival de Toronto)

Poucos astros de Hollywood eram tão poderosos na década de 1980 quanto Eddie Murphy. Graças a filmes como "48 horas" (1982), "Trocando as bolas" (1983), "Um tira da pesada" (1984) e "Um príncipe em Nova York" (1988), ele era o ator negro mais respeitado desde que Sidney Poitier conquistou o coração de toda uma geração, nos anos 1960. Porém, mesmo sucessos consecutivos de bilheteria não significam prestígio eterno, e, sob o peso de escolhas equivocadas e um ego inflado, sua queda foi igualmente espetacular. Relegado a um quase ostracismo e mantendo a carreira com espasmos de sucesso - com "O professor aloprado" (1996) fez as pazes, momentaneamente, com o público e com "Dreamgirls: em busca de um sonho" (2006) chegou a ser indicado ao Oscar de ator coadjuvante -, Murphy parecia destinado a repetir ad infinitum a voz do simpático burro de "Shrek" até que a sorte voltou a lhe sorrir. Produzido pela Netflix e aclamado pela crítica, "Meu nome é Dolemite" lhe rendeu uma indicação ao Golden Globe de melhor ator em comédia/musical e ressuscitou mais uma vez uma carreira tantas vezes tida como definitivamente morta. A boa notícia é que o filme, dirigido por Craig Brewer (que comandou Terrence Howard em sua indicação ao Oscar de melhor ator em "Ritmo de um sonho", de 2005) é não apenas um bem-vindo respiro em uma sucessão de trabalhos fracos, mas sim um dos melhores filmes de seu currículo.

"Meu nome é Dolemite" é uma história real, mas isso não faz dele menos divertido. Seu protagonista, Rudy Ray Moore, é um daqueles personagens inacreditáveis, cuja própria existência já é capaz de provocar gargalhadas na plateia. Tentando conquistar um lugar ao sol no showbusiness dos anos 1970, Moore se via repetidamente colecionando fracassos, seja como cantor ou humorista. Sua grande virada acontece quando, por acaso, ele vê nas palavras aparentemente sem sentido de um desabrigado que volta e meia surge na loja de discos em que trabalha, uma mina de ouro: com um personagem chamado Dolemite, que se veste como um cafetão e não economiza na linguagem pesada, ele se torna um sucesso absoluto da boemia negra de Los Angeles. Querendo ainda mais, ele grava um disco com suas piadas - e, para surpresa de muitos, o êxito é ainda maior, apesar do esquema amador de negócio. Para seu deleite, então, uma gravadora lhe oferece um contrato e novos discos são postos no mercado, expandindo o público de Moore/Dolemite. Cada vez mais ambicioso, o comediante resolve abraçar uma nova mídia e, para descrença de muitos, decide fazer um filme com seu personagem - tendo as plateias negras como público-alvo.

 

A partir daí, é impossível não traçar paralelos entre Moore e outro ilustre cineasta amador, o hoje celebrado Ed Wood - tema da obra-prima de Tim Burton e, coincidência ou não, escrito pelos mesmos Scott Alexander e Larry Karaszewski: tanto Wood quanto Moore tinham mais criatividade e energia em transformar seus sonhos em realidade do que noções básicas de como fazer um filme. Enquanto Wood contava com a experiência de um decadente Bela Lugosi, quem ajuda Moore é D'Urville Martin, um nome conhecido no universo da blaxploitation que entra no projeto de má-vontade e acaba não apenas atuando mas dirigindo o filme, escrito por Jerry Jones (Keegan-Michael Key), um dramaturgo de ambições sérias atônito com as sugestões do dono da produção - mesmo que sem muito sentido, Moore quer incluir no filme coisas como kung-fu (mesmo que ele não saiba lutar), mulheres nuas, piadas, perseguições de carro, e tudo mais que puder chamar público ("exorcismo eu deixo para um próximo"). E, assim como no filme estrelado por Johnny Depp e Martin Landau, são os bastidores das filmagens que deixam "Meu nome é Dolemite" deliciosamente trash - e surpreendentemente emocionante.

Acostumados a contar histórias sobre personalidades reais - também assinam os scripts de "O povo contra Larryy Flynt" (1996) e "O mundo de Andy" (1999), ambos dirigidos por Milos Forman -, Larry Alexander e Scott Karaszevski fazem de "Meu nome é Dolemite" um dos pontos altos de sua carreira. Equilibrado com perfeição entre o humor, o drama e um retrato acurado sobre a cultura negra nos EUA dos anos 1970, o filme não apenas lembra o público de como Eddie Murphy pode ser um bom ator quando deixa de lado sua vaidade como dá uma nova chance a outro ator cuja popularidade despencou depois de uma série de sucessos: na pele do afetado D'Urville Martin, o polêmico Wesley Snipes entrega talvez o melhor desempenho de um filme cujos atores coadjuvantes brilham sem fazer muito esforço - a ótima DaVine Joy Randolph é um exemplo claro dessa afirmação, com uma atuação que pode fazer rir e chorar na mesma cena. E se o roteiro é um achado, o mesmo pode ser dito da direção de Craig Brewer. Não é à toa que o próprio Eddie Murphy o tenha escolhido para dirigir a esperada continuação de "Um príncipe em Nova York", com estreia marcada para 2021.

segunda-feira

NA MIRA DO CHEFE


NA MIRA DO CHEFE (In Bruges, 2008, Focus Features/Film4/Blueprint Pictures, 107min) Direção e roteiro: Martin McDonagh. Fotografia: Eigil Bryld. Montagem: Jon Gregory. Música: Carter Burwell. Figurino: Jany Temine. Direção de arte/cenários: Michael Carlin/Anna Lynch-Robinson, Hendrick Moonen. Produção executiva: Jeff Abberley, Julia Blackman, Tessa Ross. Produção: Graham Broadbent; Elenco: Colin Farrell, Brendan Gleeson, Ralph Fiennes, Clémence Poésy, Ciarán Hinds, Zeljko Ivanek, Jéremie Renier. Estreia: 17/01/2008 (Festival de Sundance)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator (Comédia/Musical): Colin Farrell  

Quando "Três anúncios para um crime" tornou-se um dos maiores destaques da temporada 2017/2018, o público viu-se diante de uma produção rara, onde personagens complexos (e um tanto excêntricos) serviam à uma trama bem escrita e com atores inspirados dirigidos com segurança e sensibilidade - a ponto de dois deles, Frances McDormand e Sam Rockwell, saírem da cerimônia do Oscar com suas estatuetas. O que grande parte desse público deslumbrado não sabia é que o estilo do diretor/roteirista Martin McDonagh já não era segredo nem aos cinéfilos mais antenados e nem mesmo à própria Academia: lançado no Festival de Sundance de 2008, a comédia policial "Na mira do chefe" foi festejada pela crítica a ponto de receber uma solitária - mas importante - indicação ao Oscar de roteiro original (onde foi derrotado pelo bem mais badalado "Milk: a voz da igualdade") e um Golden Globe de melhor ator em comédia/musical para Colin Farrell. Foram lembranças merecidas, que se juntaram ao BAFTA de melhor roteiro original e várias outras láureas, de críticos norte-americanos (Detroit, Boston, Florida, Nova York), estrangeiros (Itália e Rússia) e do prestigiado National Board of Review - que incluiu o filme entre as dez melhores produções independentes do ano.

"Na mira do chefe" é, a princípio, um filme policial: seus protagonistas, Ray (Colin Farrell) e Ken (Brandon Gleeson) são dois matadores de aluguel que, seguindo ordens de seu chefe, são mandados para uma pequena cidade belga chamada Bruges. Lá, eles devem esperar por um novo contato com instruções. Enquanto Ken segue os conselhos de seu patrão e tenta se divertir com os pontos turísticos e culturais do local, Ray não consegue deixar de lado as lembranças de uma missão que acabou tragicamente. Nem mesmo o encontro com Chloe (Clémence Poésy), parte da equipe de um filme que está sento realizado na cidade, muda o clima de depressão do jovem assassino. As coisas ficam ainda piores quando, irritado com a demora de Ken cumprir suas ordens, seu superior, Harry (Ralph Fiennes), também chega a Bruges para resolver de vez a questão - e descobre que as coisas não serão assim tão fáceis.


 O que afasta "Na mira do chefe" dos filmes policiais comuns é seu senso de humor particular. Não interessa a McDonagh um ritmo alucinado, com piadas em série sendo jogadas no rosto do espectador enquanto dezenas de pessoas são feridas e mortas e explosões ocorrem a cada esquina. Sua visão de comédia é mais centrada em ironias, em acontecimentos surreais, em personagens contraditórios. É assim que seus protagonistas, apesar de assassinos de aluguel, são humanos e despertam a simpatia do público. É assim também que um astro de cinema anão se torna peça fundamental no desenlace da trama. E, finalmente, é sem seus diálogos frescos e inteligentes que se encontra o maior tesouro de seu filme: se utilizando de elementos clássicos de gêneros consagrados, McDonagh os funde de forma a criar um novo estilo, que conversa brilhantemente com a filmografia de outros cineastas contemporâneos (em um primeiro olhar, os irmãos Coen e Quentin Tarantino parecem referências óbvias). Em seu filme seguinte, "Sete psicopatas e um shih tzu"(2012), o cineasta iria ainda mais longe em suas tentativas de borrar as linhas entre gêneros - e mais uma vez ficaria restrito à parcela mais alternativa do público.

Por fim, é impossível falar em "Na mira do chefe" sem louvar seu maior acerto: a escalação de elenco. Se Brandon Gleeson surpreende com um personagem que contraria seu tipo físico - e se mostra tão frágil quanto possível em momentos cruciais -, o trabalho de Colin Farrell é precioso. Mais uma vez demonstrando que é um dos mais subestimados atores de sua geração, Farrell constrói um Ray repleto de camadas, todas plenamente críveis e tratadas com sensibilidade ímpar. O ator irlandês - que surgiu como galã e aos poucos foi demonstrando um talento raro - faz rir e emociona com um personagem que, em mãos erradas, poderia facilmente se transformar em alguém patético ou detestável. Sob o domínio de Farrell, o angustiado Ray encontra o intérprete ideal, capaz de cativar a audiência com suas expressões de cão sem dono mesmo com um histórico profissional pouco recomendável. A química entre Gleeson e Farrell é impecável - e a presença de Ralph Fiennes no terço final do filme apenas a valoriza ainda mais. "Na mira do chefe" é uma produção repleta de qualidades memoráveis. É, sem espaço para qualquer dúvida, um dos filmes que merecem ser descobertos e amados.

sábado

ME CHAME PELO SEU NOME


ME CHAME PELO SEU NOME (Call me by your name, 2017, Frenesy Film Company/RT Features, 12min) Direção: Luca Guadagnino. Roteiro: James Ivory, romance de André Aciman. Fotografia: Sayombhu Mukdeeprom. Montagem: Walter Fasano. Figurino: Giulia Piersanti. Direção de arte/cenários: Samuel Deshors/Sandro Piccarozzi. Produção executiva: Naima Abed, Margharete Baillou, Tom Dolby, Nicholas Kaiser, Sophie Mas, Francesco Melzi d'Eril, Lourenço Sant'Anna, Derek Simonds. Produção: Emilie Georges, Luca Guadagnino, James Ivory, Marco Morabito, Howard Rosenman, Peter Spears, Rodrigo Teixeira. Elenco: Timothée Chalamet, Armie Hammer, Michael Stuhlbarg, Amira Casar, Esther Garrel. Estreia: 22/01/2017 (Festival de Sundance)

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Timothée Chalamet), Roteiro Adaptado, Canção Original ("Mystery of love")

Vencedor do Oscar de Roteiro Adaptado

A Itália, com suas belas paisagens naturais, é cenário frequente para histórias de amor made in Hollywood. Desde clássicos absolutos, como "A princesa e o plebeu" (1954) e "Quando floresce o coração" até produções contemporâneas, como "Beleza roubada" (1996) e "Sob o sol da Toscana" (2003), o cinema sempre buscou o clima sensual da região para servir como um personagem a mais, capaz de, com seu ar romântico, ser o catalisador de paixões avassaladoras. "Me chame pelo seu nome" é um dos exemplos mais recentes dessa tendência já consagrada. Baseado em um livro de André Aciman publicado em 2007, o filme do italiano Luca Guadagnino conta um história arrebatadora, que ultrapassa o estigma de romance gay para se tornar uma das produções mais elogiadas e premiadas de sua temporada: de sua estreia no Festival de Sundance, em janeiro de 2017, até a cerimônia do Oscar, em fevereiro do ano seguinte - e passando pelo New York Film Festival, de onde saiu ovacionado pelo público -, "Me chame pelo seu nome" passou por diversos festivais de cinema, sempre aplaudido pela crítica e querido pelo público. Adaptado para as telas por James Ivory, o filme - que tem o brasileiro Rodrigo Teixeira entre seus produtores - deu ao veterano cineasta sua primeira estatueta da Academia, e foi generosamente indicado em outras três categorias, incluindo melhor filme e ator (o jovem Timothée Chalamet).

O caminho do livro de Aciman até sua estreia em Sundance - de onde foi comprado pela Sony Pictures antes mesmo de sua primeira exibição pública - não chegou a ser problemática como se poderia esperar de uma história de amor homossexual, não exatamente um chamariz de bilheteria (o próprio Armie Hammer, que vive um dos protagonistas sabe muito bem sobre o assunto, depois do fracasso financeiro de "J. Edgar", de 2011, no qual vivia o amante do protagonista, interpretado por Leonardo DiCaprio). Em setembro de 2015, James Ivory, um diretor respeitado e de bastante prestígio junto à crítica, anunciou que estava em vias de dirigir uma adaptação do romance - e chegou a dizer que Shia LaBeouf e Greta Scacchi estariam no elenco da produção. Oito meses depois, no entanto, as coisas tinham mudado: Ivory continuava a bordo, mas como produtor e roteirista; Luca Guadagnino assumiu o posto de diretor e LaBeouf foi substituído pelo novato Chalamet - a quem já conhecia há alguns anos e que lhe parecia a escolha certa para o papel. Hammer entrou no projeto também pelas mãos do diretor, impressionado com seu desempenho em "A rede social" (2010). Filmado praticamente em ordem cronológica em pouco mais de um mês na pequena cidade italiana de Crema, "Me chame pelo seu nome" emana, em suas imagens e clima, a sensação perfeita de um verão inesquecível - um clima que, segundo o elenco, refletia a tranquilidade das filmagens e a intimidade entre a equipe. 

 

A trama de "Me chame pelo seu nome" se passa no verão europeu de 1983, em uma pequena vila italiana, onde a família de Elio (Timothée Chalamet) passa a temporada. Seu pai (Michael Stuhlbarg) é um renomado professor de cultura greco-romana, e sua mãe, Annella (Amira Casar), uma tradutora. Elio é rodeado de pessoas cultas, inteligentes e sensíveis, mas nem mesmo ele poderia imaginar que ficaria tão impressionado com Oliver (Armie Hammer), um estudante que chega para ajudar o veterano professor em suas tarefas universitárias. Charmoso e educado, Oliver imediatamente desperta sentimentos até então desconhecidos para o adolescente - que tenta escondê-los iniciando um romance passageiro com uma amiga de sua idade. Elio, apesar de toda a sofisticação intelectual à sua volta, ainda é um adolescente inexperiente em matérias do coração, e se deixa seduzir pelo brilhantismo de Oliver, com quem não simpatiza em seus primeiros dias. Igualmente atraído por Elio, que desperta nele sentimentos contraditórios, Oliver se deixa levar pela sensualidade do cenário que o cerca, e surge um violento romance entre os dois. Um romance que, logicamente, tem data certa para acabar, já que Oliver deve ir embora em poucas semanas.

O que mais chama atenção em "Me chame pelo seu nome", além da adaptação bastante fiel de James Ivory - que, aos 89 anos, tornou-se a pessoa de mais idade a ganhar um Oscar competitivo -, é a direção fluida de Luca Guadagnino. Com filmes bastante elegantes no curriculo - como "Um sonho de amor" (2009) e "Um mergulho no passado" (2015) -, Guadagnino conduz a trama sem pressa, concentrando-se em detalhes, em sutilezas, em pequenos gestos que se tornam gigantescos no contexto em que são apresentados. A química entre Chalamet e Hammer é preciosa, especialmente quando sublinhada pelas belas canções de Surfjan Stevens - uma delas, "Mysteries of love", também chegou a ser indicada ao Oscar - e suas cenas mais quentes são dirigidas com bom gosto e delicadeza, utilizando o sexo mais como forma de comunhão entre os personagens do que como um meio de chamar a atenção do público. E se não bastasse toda a elegância promovida por Guadagnino, seus momentos finais são simplesmente devastadores: um pequeno monólogo do pai de Elio (que oferece uma atuação brilhante de Michael Sthulbarg) sobre entregar-se ao amor e a bela cena em que o adolescente relembra seu primeiro amor (sem diálogos, apenas com o talento de Chalamet em se fazer compreender sem precisar de palavras) fazem com que "Me chame pelo seu nome" fique marcado no coração do espectador. É uma pequena obra-prima, antológica desde seu nascimento.

domingo

MÃE!


MÃE! (mother!, 2017, Paramount Pictures, 127min) Direção e roteiro: Darren Aronofsky. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Andrew Wesiblum. Figurino: Danny Glicker. Direção de arte/cenários: Phillip Messina/Larry Dias, Martine Kazemirchuck. Produção executiva: Mark Heyman, Josh Stern, Jeff Waxman. Produção: Scott Franklin, Ari Handel. Elenco: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Domhnall Gleeson, Brian Gleeson, Kristen Wiig. Estreia: 05/9/2017 (Festival de Veneza)

Darren Aronofsky tem no currículo filmes muito particulares, como o cultuado "Pi" (1998), o elogiado "Réquiem para um sonho" (2000) e o oscarizado "Cisne negro" (2010). Mesmo assim, com todas essas produções polêmicas na bagagem - sem falar no ambicioso "Fonte da vida", que desconcertou crítica e público em 2006 -, o cineasta nova-iorquino nunca foi alvo de tanta controvérsia quanto a despertada por "Mãe!", seu sétimo longa-metragem. Cercado de segredos até sua estreia no Festival de Veneza 2017, o filme já chegou ao mundo dividindo ferozmente as opiniões: tanto aplaudido quanto vaiado na Itália, seu trabalho seguiu caminho sendo apedrejado (por muitos) e incensado (por bem menos). Não deixa de ser esperado: alegórico ao extremo e violento em demasia, o filme apostou alto na inteligência e sensibilidade de um público mal-acostumado e alimentado por blockbusters vazios e descobriu, da pior maneira, que seu pesadelo febril estava longe de despertar a curiosidade da plateia. Com uma renda tímida de pouco mais de 17 milhões de dólares (contra um custo estimado de 30), "Mãe!" acabou por mostrar-se uma grande dor de cabeça para a Paramount, que herdou o projeto da Fox e de outros estúdios e viu que nem mesmo a presença de Jennifer Lawrence e Javier Bardem como protagonistas puderam salvar o filme do fracasso comercial. Aliás, para surpresa de todos - até mesmo daqueles que reconheciam o elenco como única qualidade do filme -, "Mãe!" chegou a ser indicado ao Framboesa de Ouro (o oposto do Oscar) nas categorias de pior ator e pior atriz.

Mas, afinal, por que tanto ódio por um filme? Se o próprio Aronofsky já tinha experimentado um pouco da fúria dos católicos por sua versão pouco religiosa do dilúvio em "Noé" (2014), foi com "Mãe!" que ele realmente mergulhou fundo em um tema tão inflamável quanto religião. Não que "Mãe!" seja um filme óbvio sobre Deus e seus profetas, mas assim que os símbolos do roteiro são decifrados, fica bastante claro que o cineasta não está disposto a poupar nem os personagens nem tampouco os espectadores. Sob uma direção claustrofóbica e em um tom onírico de causar inveja a David Lynch, Aronofsky conduz o público por um caminho repleto de fanatismo, violência e desespero, sublinhados pela fotografia imersiva de Matthew Libatique, que acompanha a protagonista em seu espiral de angústia, através de um cenário que é quase um personagem a mais. É compreensível que boa parte da audiência sinta-se desconfortável com a ousadia narrativa do diretor, mas é chocante o quanto uma parcela da crítica foi capaz de rechaçar o filme com tanta truculência - mesmo antes de sua estreia.

 


Envolto em aura de mistério desde sua fase de pré-produção, "Mãe!" viu os mais diversos boatos a seu respeito surgirem na indústria. Havia quem jurasse que se tratava de um remake do clássico "O bebê de Rosemary", dirigido por Roman Polanski em 1968 - uma informação completamente equivocada, como mais tarde se veria. Com o título provisório de "Day 6", o filme era a culminância de uma longa gestação - que incluiu ensaios por três meses antes das filmagens e uma reunião de Aronofsky com Jennifer Lawrence, que resultou não apenas em uma parceria profissional, mas também em um romance entre o diretor e sua estrela. Lawrence, uma das atrizes mais respeitadas e premiadas de sua geração, embarcou em um projeto potencialmente perigoso - o que conta muitos pontos a seu favor - e saiu dele com uma costela quebrada e uma experiência devastadora emocionalmente. Não à toa, tirou um ano de férias após o final dos trabalhos - e viu o massacre em cima do filme, que se tornou, também, seu maior fracasso de bilheteria de estreia, com apenas 7,5 milhões de dólares arrecadados no primeiro fim-de-semana em cartaz. Para efeito de comparação, um de seus filmes mais bem-sucedidos, o primeiro "Jogos vorazes" (2012) saiu de sua estreia com mais de 150 milhões.

É difícil resumir "Mãe!" sem privar o público da sensação de estar descobrindo aos poucos tudo que está acontecendo na tela. Sem estragar nada, pode-se dizer que a trama gira em torno de um casal cujos nomes nunca são mencionados - vividos por Lawrence e Javier Bardem - que, durante o processo de restauração de sua bela casa isolada, vê seu relacionamento ameaçado pela chegada de outro par - Ed Harris e Michelle Pfeiffer, ótimos - e, posteriormente, por convidados barulhentos e hostis. O dono da casa é um aclamado e egocêntrico poeta que não se importa com o estrago feito por seus fãs, enquanto sua esposa tenta impedir os estragos que estão destruindo seu lar e seu relacionamento. Pronto. Sabendo-se que Bardem interpreta uma versão particular de Deus e Lawrence dá voz à Natureza, o resto vai se revelando de forma aterradora. É só prestar atenção que tudo está lá: Adão e Eva, Caim e Abel, o dilúvio, a criação do Novo Testamento, guerras religiosas, o nascimento de Cristo... Aronofsky merece ser aplaudido por sua coragem em criar algo tão fora do comum e tão radicalmente controverso. Logicamente não é um filme para qualquer público, mas só o fato de assumir isso sem medo já é motivo mais que suficiente para considerá-lo uma das obras mais importantes do cinema norte-americano recente.

quinta-feira

UM LUGAR SILENCIOSO


UM LUGAR SILENCIOSO (A quiet place, 2018, Paramount Pictures, 90min) Direção: John Krasinski. Roteiro: John Krasinski, Bryan Woods, Scott Beck, história de Bryan Woods, Scott Beck. Fotografia: Charlotte Bruus Christensen. Montagem: Christopher Tellefsen. Música: Marco Beltrami. Figurino: Kasia Walicka-Maimone. Direção de arte/cenários: Jeffrey Beecroft/Heather Loeffler. Produção executiva: Scott Beck, Celia Costas, Aaron Janus, John Krasinski, Allyson Seeger, Bryan Woods. Produção: Michael Bay, Andrew Form, Brad Fuller. Elenco: Emily Blunt, John Krasinski, Millicent Simmonds, Noah Jupe, Cade Woodward, Leon Russom. Estreia: 09/3/2018 (South by Southwest Film Festival)

Indicado ao Oscar de Edição de Som

Depois de penar por um bom tempo resumido a produções direcionadas a um público menos exigente e formado em grande parte por adolescentes que se satisfaziam em assistir a assassinos mascarados chacinando suas vítimas sem a menor sutileza, o cinema de terror em Hollywood parece ter encontrado um caminho para atingir os espectadores mais maduros. Cineastas como Jordan Peele - de "Corra" (2017) e "Nós" (2019) - e Ari Aster - de "Hereditário" (2018) e "Midsommar" (2019) - se tornaram os principais nomes de uma espécie de renascimento do gênero, que passou a atingir então as críticas positivas que raramente conquistava - Peele chegou até mesmo a levar um Oscar de roteiro original por "Corra!", que também foi indicado aos prêmios de filme, ator e direção. Respeitados como há muito não conseguiam ser, os novos filmes de terror norte-americanos não deixaram de ser, no entanto, bastante bem-sucedidos. Um exemplo claro desse novo painel é "Um lugar silencioso", uma produção barata (custou cerca de 17 milhões de dólares, o que não paga sequer o cachê de uma grande estrela) que rendeu surpreendentes 340 milhões ao redor do mundo - e imediatamente tornou-se um dos filmes mais populares da temporada, com direito a duas sequências ainda inéditas. Tudo graças à união certeira de um bom roteiro, atuações acima da média, uma tensão palpável e uma direção inspirada do também ator (e corroteirista) John Krasinski.

Sim, Krasinski é mais conhecido do público como o adorável Jim Halpert da versão ianque da série "The office", e como o agente Jack Ryan da adaptação televisiva dos livros de John LeCarré, mas "Um lugar silencioso" não é seu primeiro trabalho na direção. Seus dois primeiros filmes, a comédia dramática "A família Hollar" (2016) e ""Brief interviews with hideous men" (2009), ficaram inéditos no Brasil e tampouco fizeram barulho nos EUA. Seu contato com o material que se tornaria "Um lugar silencioso" começou com um convite feito pelos produtores para que ele assumisse o papel principal do filme, depois que o roteiro de Scott Beck e Bryan Woods livrou-se da possibilidade de ser incorporado a um capítulo da série "Cloverfield": animado com a trama, Krasinski mudou de ideia e acabou não apenas aceitando trabalhar como ator, mas também como diretor e corroteirista. Além disso, escalou para o papel da protagonista feminina, sua mulher, a excelente Emily Blunt, também encantada com o roteiro - e, ao contrário de simples nepotismo, foi uma escolha mais do que acertada: Blunt entrega uma atuação visceral, premiada com uma estatueta do SAG Awards.


A trama de "Um lugar silencioso" é daquelas fáceis de resumir em uma única frase: família tenta sobreviver ao ataque de monstros violentos que encontram suas vítimas através do sons que elas fazem. Porém, por trás desse enredo aparentemente simples, o filme é uma pérola do gênero. Calcada basicamente na química do elenco, do desenho de som inteligente (única indicação ao Oscar do filme) e da direção firme de Krasinski, que mantém o ritmo até os minutos finais, a produção envolve o espectador desde seu começo, dando a ele a chance de ir descobrindo aos poucos todos os detalhes da situação em que estão os Abbott. Vagando por uma cidade fantasma e impedidos de fazer qualquer tipo de ruído, eles são apresentados sem passado: o que interessa ao roteiro é como eles estão e como farão para manter-se salvos de uma situação para a qual não tinham nenhuma experiência. Imersivo ao máximo - o primeiro (e rápido) diálogo falado acontece aos 38 minutos -, o filme mergulha o público em uma viagem de tensão e suspense como poucas produções recentes de terror. Evitando a violência gráfica ou o excesso de clichês, a trama é conduzida com sutileza ímpar, que não deixa de infligir medo na plateia - especialmente quando demonstra, desde seu princípio, que ninguém está completamente a salvo.

Krasinski demonstra que, mesmo sem experiência em filmes de terror, compreende perfeitamente as engrenagens do gênero, entregando cenas que deixam o público em um silêncio tão completo quanto o dos personagens da tela. Elementos simples, como um prego na escada e um brinquedo eletrônico, colaboram para sublinhar o tom nervoso e arrebatador da produção que tem ao menos uma cena já antológica, em que Evelyn (vivida com intensidade por Blunt) é obrigada a dar à luz, sozinha, sem emitir um único gemido: é muito provável que a plateia, completamente seduzida pela proposta do filme, esteja também em silêncio absoluto - fato que, em exibições-teste, assustou os exibidores que não entendiam que também os espectadores, hipnotizados pela história, deixavam a pipoca e o refrigerante de lado para não fazer o barulho que poderia acabar com a vida dos personagens. Nada mais apropriado para um filme de terror que, sem apelar para a violência explícita, encontrou de cara seu lugar no coração dos fãs do gênero - e que já tem duas continuações confirmadas (uma delas, já pronta, teve o lançamento adiado por causa da pandemia de Coronavírus). É esperar para ver se os próximos capítulos serão tão gratificantes.

SEGUNDA CHANCE


SEGUNDA CHANCE (En chance til, 2014, Zentropa Entertainments, 102min) Direção: Susanne Bier. Roteiro: Susanne Bier, Anders Thomas Hansen. Fotografia: Michael Snyman. Montagem: Pernille Bech Christensen. Música: Johann Soderqvist. Figurino: Signe Sejlund. Direção de arte/cenários: Giles Balabaud, Louise Lonborg, Jacob Stig Olsson. Produção: Sisse Graum Jorgensen. Elenco: Nikolaj Coster-Waldau, Nikolaj Lie Kaas, Ulrich Thomsen, Thomas Bo Larsen, Roland Moller, Maria Bonnevie, Peter Haber, Ewa Froling. Estreia: 09/9/2014 (Festival de Toronto)

Comparada com as misérias com que tem contato em sua rotina como policial, o correto Andreas (Nikolaj Coster-Waldau) leva uma vida invejável: casado e pai de um recém-nascido, ele ainda encontra tempo para impedir seu parceiro de trabalho, Simon (Ulrich Thomsen), de seguir de vez o caminho da autodestruição, o qual vem seguindo desde o divórcio. A existência relativamente pacata de Andreas sofre um baque quando duas situações aparentemente distintas surgem à sua frente. Primeiro, ele e Simon encontram, durante uma batida policial no apartamento de um jovem casal viciado em drogas, um bebê em péssimas condições de higiene e correndo o risco iminente de ser esquecido pelos pais. Depois, ele  começa a perceber em sua esposa, Anna (Maria Bonnevie), sintomas de uma grave depressão pós-parto que o obriga a assumir com mais constância seu papel de pai. Os dois bebês, se tornarão, então, os catalisadores de uma tragédia inevitável.

Fosse fruto de um estúdio hollywoodiano, a trama descrita acima certamente apostaria no melodrama mais explícito, buscando as lágrimas do espectador e evitando qualquer tipo de discussão mais profunda. Felizmente não é o caso: "Segunda chance" é uma produção dinamarquesa, e assinada por Susanne Bier - vencedora do Oscar de melhor filme estrangeiro por "Em um mundo melhor", de 2010 - evita o sentimentalismo barato ao imprimir, em cada cena e em cada interpretação de seu elenco, um tom de urgência e angústia que mergulha a plateia em uma ciranda de dor e choque que apenas os grandes filmes conseguem apresentar com sobriedade. Dotado de um ritmo que reflete o turbilhão emocional de seus personagens, "Segunda chance" ainda tem a vantagem de contar com um elenco brilhante, no qual se destacam Nikolaj Coster-Waldau (da aclamada "Game of thrones") e Maria Bonnevie: como um casal que vê sua estabilidade emocional ruir de uma hora para outra, os dois atores entregam performances fortes, que colaboram com a sensação quase incômoda da produção. É preciso também louvar também o desempenho da jovem May Anderson, modelo sem experiência como atriz que, nas mãos hábeis de Bier, se transforma em uma intérprete poderosa, que em nada fica devendo a seus colegas com mais tempo de carreira.

 

 

Sem medo de soar pessimista, Susanne Bier (que também escreveu o roteiro, em quatro mãos com Anders Thomas Hansen) aponta sua câmera para um lado sórdido da Dinamarca, com seus problemas sociais invadindo sem cerimônia o mundo aparentemente mais seguro das classes menos vulneráveis. Sua trama empurra o público para uma discussão sobre ética e sobre como as noções de certo e errado podem estar sujeitas a interpretações pessoais e/ou por conveniência. O roteiro não poupa seus personagens e os mostra sob uma ótica complexa o suficiente para impedir qualquer tipo de maniqueísmo - algo que a cineasta sabe fazer com maestria, haja visto seu filme premiado com o Oscar. Apesar de contar sua história sob o ponto de vista de um homem, é inegável que há um toque feminino em sua condução: as mulheres, em seu filme, podem até parecer frágeis, mas são elas, de uma forma ou outra, que servem como catalisadoras do turbilhão que as envolve - e a seus maridos. Andreas pode ser o protagonista absoluto do filme, mas ele, assim como todos a seu redor, está preso em uma armadilha cujas consequências poderão ser avassaladoras. A balança moral proposta pelo filme chega ao máximo da ironia quando o policial toma atitudes que se poderiam esperar dos marginais que prende, mas não de um homem da lei: ao nivelar-se àqueles com quem batia de frente, Andreas descobre, da pior maneira possível, que nem sempre o discurso corresponde à realidade.

"Segunda chance" não é um filme para quem se contenta com dramas inócuos e sentimentaloides. É uma obra dura, seca e que atinge o espectador em suas crenças mais profundas, e deixa, ao final da sessão, uma sensação de desconforto e tristeza. Mas justamente por ousar fugir do lugar-comum, se apresenta como uma produção obrigatória, daquelas que permanecem na memória do público muito tempo depois de seu término. É (mais) uma pequena obra-prima de Susanne Bier.

segunda-feira

O DORMINHOCO


O DORMINHOCO (Sleeper, 1973, United Artists, 89min) Direção: Woody Allen. Roteiro: Woody Allen, Marshall Brickman. Fotografia: David M. Walsh. Montagem: O. Nicholas Brown, Ron Kalish, Ralph Rosenblum. Figurino: Joel Schumacher. Direção de arte/cenários: Dale Hennesy/Gary Moreno. Produção executiva: Charles H. Joffe. Produção: Jack Grossberg. Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, John Beck. Estreia: 17/12/73

Até a estreia de "O dorminhoco", no final de 1973, o cinema de Woody Allen ainda era uma espécie de extensão de seu trabalho como comediante - mais como uma plataforma para desenvolver piadas verbais e físicas do que para exatamente contar uma história. Foi a partir de sua ambiciosa ideia de realizar um filme de ficção científica com início, meio e fim, que ele tornou-se, de fato, um homem de cinema, capaz de explorar sem medo todos os recursos da linguagem. Grande sucesso de crítica e de bilheteria (custou cerca de 2 milhões de dólares e rendeu quase dez vezes isso), "O dorminhoco" é a prova de que Allen também sabe ser popular, a despeito de sua imagem de humorista sofisticado. Com sequências hilariantes e diálogos impagáveis, seu quarto longa-metragem - se for descontado "O que há, tigresa", de 1966, no qual ele utilizava um filme já feito para dublar e editar à sua maneira - é o pontapé inicial de uma fase que culminaria em seus Oscar de filme, direção e roteiro original de "Noivo neurótico, noiva nervosa" (1977).

Se a maioria de suas comédias brinca com o surreal, "O dorminhoco" pode, facilmente, ser considerada a mais alucinada delas. Seu personagem, Miles Monroe, é um músico amador e dono de uma loja de comida natural que, hospitalizado para uma pequena cirurgia, se torna parte de uma experiência criogênica. Depois de duzentos anos dormindo, ele é acordado em 2173 e dá de cara com um mundo completamente diferente daquele que conhecia. Dominada pelo totalitarismo de um tirânico líder, a população sofre sob um regime violento e pouco afeito a qualquer tipo de questionamento. Para sua surpresa, Miles é considerado peça-chave na revolução que está sendo concebida por um grupo de rebeldes: sem nenhum registro junto a um governo que apagou toda e qualquer lembrança do passado, ele tem as características ideais para infiltrá-los em um novo projeto de poder. A princípio relutante em envolver-se em tal aventura, Miles muda de ideia quando passa a ser perseguido pelas forças políticas locais - e quando se apaixona pela alienada Luna (Diane Keaton), manter-se vivo se torna objetivo prioritário.

 

Logo que teve a ideia para o roteiro de "O dorminhoco", Woody Allen buscou respaldo junto ao escritor Isaac Asimov, célebre por seus livros de ficção científica: depois de um breve encontro em que o autor de "Eu, robô" confirmou a relativa plausibilidade, o cineasta deu asas à imaginação e acabou com a concepção de um ambicioso filme de três horas de duração, em que a primeira parte mostraria a vida do protagonista em 1973. Com a negativa da United Artists, restou a Allen concentrar seu foco no que teria sido a segunda metade de seu projeto, ou seja, o embate de Miles Monroe com um admirável mundo novo onde as regras são completamente opostas as conhecidas por ele - basta saber que, ao contrário do que se acreditava no final do século XX, comida gordurosa e cigarros são considerados benéficos à saúde - e seus desajeitados métodos para conquistar o amor de Luna (uma Diane Keaton no auge da beleza). Inspirado no humor de dois de seus ídolos, Groucho Marx e Bob Hope, o cineasta consegue fazer rir sem deixar de lado a inteligência que é sua característica mais marcante. Seja quando põe Miles disfarçado de robô ou quando ele pega um nariz como refém (sim, isso mesmo, um nariz), Allen sempre encontra um caminho único para buscar a gargalhada da plateia. É de se imaginar como seria o resultado do filme se ele realmente tivesse levado a cabo a ideia de realizá-lo sem diálogos.
 
Com 35 horas de material filmado e apenas 90 minutos em sua versão final, "O dorminhoco" é um passo adiante na carreira já promissora de Allen no começo da década de 1970, com uma cenografia cuidadosamente planejada (o diretor queria filmar em Brasília por causa de seu visual futurista, o que se mostrou proibitivo pelos altos custos) e um roteiro estruturado de forma mais madura que seus trabalhos anteriores. Finalizado dois dias antes de sua estreia, "O dorminhoco" ainda diverte mesmo depois de quatro décadas, com seu humor iconoclasta e debochado revelando um período brilhante de seu criador - que em seguida lançaria seu engraçadíssimo "A última noite de Boris Grushenko", uma homenagem impagável à literatura russa e que teria, em seu enredo principal, ecos das aventuras de Miles e Luna. Imperdível

sexta-feira

LADY BIRD: A HORA DE VOAR


LADY BIRD: A HORA DE VOAR (Ladybird, 2017, A24, 94min) Direção e roteiro: Greta Gerwig. Fotografia: Sam Levy. Montagem: Nick Houy. Música: Jon Brion. Figurino: April Napier. Direção de arte/cenários: Chris Jones/Traci Spadorcia. Produção executiva: Lila Yacoub. Produção: Eli Bush, Evelyn O'Neil, Scott Rudin. Elenco: Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Tracy Letts, Lucas Hedges, Timothée Chalamet, Lois Smith, Beanie Feldstein, Odeya Rush. Estreia: 01/9/2017 (Festival de Telluride)

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Greta Gerwig), Atriz (Saoirse Ronan), Atriz Coadjuvante (Laurie Metcalf), Roteiro Original

Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme (Comédia/Musical), Atriz Comédia/Musical (Saoirse Ronan) 

Filmes que retratam o fim da adolescência e entrada na vida adulta são comuns, e frequentemente deslizam no sentimentalismo ou no humor grosseiro. Raramente surge uma produção que consegue unir sensibilidade, bom humor e inteligência. Talvez por isso "Lady Bird: a hora de voar" tenha se tornado um dos maiores sucessos de sua temporada. Realizado com um orçamento minúsculo (aproximadamente 10 milhões de dólares, o que não paga nem o cachê de nomes como Julia Roberts e Angelina Jolie), o filme de estreia da atriz Greta Gerwig como cineasta rendeu quase cinco vezes isso no mercado doméstico e chegou perto de 80 milhões em arrecadação internacional. Tal êxito - refletido também no aplauso unânime da crítica e das cerimônias de premiação, incluindo presença no Oscar e no Golden Globe - tem inúmeras explicações, mas talvez a maior delas seja justamente sua falta de pretensão: sem lances rocambolescos ou truques dramáticos lacrimosos, "Lady Bird" se desenrola diante do espectador como uma deliciosa crônica de amadurecimento pessoal, com uma protagonista adorável mas falível interpretada pela cada vez melhor Saiorse Ronan.

Revelada no elogiado "Desejo e reparação", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante ainda na adolescência, Ronan conquistou a confiança da diretora logo de cara, ao fazer uma leitura do roteiro durante o Festival de Toronto de 2015. Ao deixar de lado o sotaque irlandês e assumir o visual de uma adolescente (mesmo que já tivesse passado dos vinte anos durante as filmagens), a jovem atriz dá continuidade a uma carreira que, apesar de ainda curta, já é uma das mais consistentes de Hollywood. Graças à direção segura de Gerwig, Ronan veste a personagem com naturalidade admirável e não teme soar desagradável de vez em quando - especialmente em sua relação com a mãe, Marion (Laurie Metcalf), e em suas tentativas de tornar-se popular mesmo sacrificando sua amizade com Julie (a ótima Beanie Feldstein, do igualmente ótimo "Fora de série"). Enquanto aguarda as respostas das universidades a que almeja, Lady Bird (cujo nome verdadeiro é Christine) ainda lida com os problemas inerentes à sua idade, como, por exemplo, sua busca por amor. Nessa busca, ela esbarra em Danny (Lucas Hedges), seu colega do grupo de teatro, e no personalíssimo Kyle (Timothée Chalamet).

 

A primeira versão do roteiro de Gerwig tinha, segundo a própria diretora, mais de 350 páginas - ou, se transformado em filme, algo em torno de seis horas de duração. Logicamente seu texto foi retrabalhado até chegar a aceitáveis 94 minutos. Nesse meio tempo, outro cineasta esteve envolvido nos bastidores da produção: namorado da atriz, a quem dirigiu em seu aplaudido "Frances Ha" (2012), Noah Baumbach chegou a se oferecer para comandar o filme - uma sugestão delicadamente rejeitada... e bem sucedida. Muito provavelmente Baumbach, a despeito de seu grande talento, não teria o mesmo carinho com que Gerwig trata suas criações. Mesmo quando mostra um lado pouco louvável dos personagens, o roteiro o faz com tanta verdade, tanto frescor, que é difícil não se deixar cativar. Lady Bird é uma adolescente cheia de falhas, mas também é repleta de qualidades - e é nessa dualidade, nessa complexidade que reside a genialidade do desempenho de Saoirse Ronan. Ela não cria uma personagem imaculada para conquistar a plateia, e sim um ser humano o mais perto possível do real, que envolve o público tanto por seus erros quanto por seus acertos.

"Lady Bird" estreou no Festival de Telluride, em setembro de 2017 e, a partir daí, tornou-se figurinha fácil em festivais de cinema e integrante fixo das listas de melhores filmes do ano. Levou pra casa os Golden Globes de melhor filme e melhor atriz (ambos na subcategoria musical ou comédia) e chegou à cerimônia do Oscar com cinco indicações importantíssimas, inclusive melhor filme e direção. Pode não ter sido feliz em converter as indicações em estatuetas, mas foi realizado o desejo de Gerwig em realizar um filme sobre a entrada na vida adulta de uma personagem feminina como contraponto aos bem-sucedidos "Boyhood: da infância à juventude" (2014) e "Moonlight: sob a luz do luar" (2016). Do primeiro traz o sabor de crônica do dia-a-dia, e do segundo, um tom de poesia e certa melancolia. De ambos, apresenta um produto final que mostra a força do cinema independente - e a coragem de nadar contra a maré e evitar o drama fácil. "Lady Bird: a hora de voar" é uma pérola. Um clássico instantâneo e atemporal.

quarta-feira

JUVENTUDE


JUVENTUDE (Youth, 2015, Indigo Film/Barbary Film/Pathé, 124min) Direção e roteiro: Paolo Sorrentino. Fotografia: Luca Bigazzi. Montagem: Cristiano Travagiogli. Música: David Lang. Figurino: Carlo Poggioli. Direção de arte/cenários: Ludovica Ferrario/Noel Godfrey. Produção executiva: Viola Prestieri. Produção: Carlotta Calori, Francesca Cima, Nicola Giuliano. Elenco: Michael Caine, Harvey Keitel, Rachel Weisz, Paul Dano, Jane Fonda. Estreia: 20/5/2015 (Festival de Cannes)
 

Indicado ao Oscar de Melhor Canção Original ("Simple Song #3)

 O músico Fred Ballinger (Michael Caine), um veterano maestro consagrado por uma série de composições chamada "Simple songs", está passando uma temporada em um sofisticado spa localizado nos alpes suíços, acompanhado da filha e empresária, Lena (Rachel Weisz) - que está passando por uma séria crise em seu casamento. Aposentado, Ballinger é procurado por um emissário da realeza britânica para que faça uma apresentação no aniversário do Príncipe Philip - uma missão que não o interessa nem um pouco. A seu lado, dividindo lembranças de seus dias de mocidade, está o cineasta Mick Boyle (Harvey Keitel), que aproveita o descanso para, junto com uma equipe de roteiristas, criar seu novo projeto, que ele julga ser seu último grande filme. Amigos há décadas, os dois guardam na lembrança não apenas de dias livres das doenças da velhice, mas também da mulher que enfeitiçou a ambos - e tem, em comum, laços de parentesco: o filho de Mick é genro de Ballinger, o responsável pelo sofrimento de Lena, uma mulher torturada pela memória do casamento turbulento dos pais. Cercados pela beleza estonteante do lugar onde descansam, Ballinger e Boyle ainda convivem com excêntricos hóspedes do spa, como o jovem ator Jimmy Tree (Paul Dano), que está pesquisando para um novo papel, e um jogador de futebol aposentado lutando contra o declínio de sua forma física.

A trama de "Juventude" - primeiro trabalho do cineasta italiano Paolo Sorrentino depois do Oscar de melhor filme estrangeiro por "A grande beleza", de 2013 - é aparentemente superficial, mas que o espectador não se iluda: por trás da simplicidade do roteiro, escrito pelo próprio diretor, há uma poesia e uma melancolia que impõem ao filme um ritmo próprio, contemplativo mas nunca pedante ou aborrecido. Pelo contrário, "Juventude" tem, ao lado de momentos dramáticos de cortar o coração, um insuspeito senso de humor que quebra a seriedade de seu desenvolvimento. Um diretor acostumado à estranheza - afinal foi ele quem vestiu Sean Penn de roqueiro oitentista decadente em "Aqui é o meu lugar" (2013), e o colocou atrás do nazista responsável pelas humilhações sofridas por seu pai em um campo de concentração -, Sorrentino não faz a menor questão de fazer de seu filme um produto de fácil assimilação, mas engana-se quem pensa que isso faz dele algo inatingível. Da forma como é apresentado, "Juventude" é um filme que demora a fazer sentido, tarda a ressoar no coração da plateia: não à toa, o próprio Michael Caine não resistiu às lágrimas ao assisti-lo pela primeira vez. Sua mensagem - uma lição sobre aproveitar as coisas boas da vida enquanto há tempo para isso - é apresentada de maneira tão delicada que passa quase despercebida. Coisa de mestre!

Plasticamente deslumbrante - cortesia das belas paisagens dos alpes suíços e da fotografia caprichada de Luca Bigazzi - e dirigido com precisão, "Juventude" é, também, um desfile de boas atuações, com um elenco de sonhos, que mistura veteranos consagrados com jovens talentos. Enquanto Michael Caine e Harvey Keitel deitam e rolam com personagens que lhes caem como uma luva (Fred Ballinger foi escrito especialmente para Caine), novas gerações de atores são representadas por Paul Dano - quase silencioso, mas eficaz como sempre - e Rachel Weisz - dona de ao menos uma cena emocionalmente brilhante, quando declara ao pai suas lembranças de infância. Não bastasse esse quarteto brilhante, Sorrentino ainda reserva ao espectador outro presente: uma pequena participação especial de Jane Fonda como uma atriz veterana que enterra de vez os planos de sucesso de Mick Boyle. Fonda chegou a ser indicada ao Golden Globe de atriz coadjuvante, sendo uma espécie de representante de seus colegas, todos eles absolutamente merecedores de indicações e prêmios. Atores capazes de transmitir muito sem que precisem de longos diálogos, Caine, Keitel, Dano e Weisz encontraram na direção minimalista de Sorrentino um caminho rico e eficiente para trabalhos de destaque em suas carreiras já vitoriosas.

E se não bastasse um elenco impecável, um visual arrebatador e um roteiro com diálogos inspirados, "Juventude" ainda oferece ao público pequenos prazeres escondidos aqui e ali, em graus distintos de dificuldade para serem decodificados. Se o jogador de futebol aposentado, com sobrepeso e problemas de vício pode ser facilmente reconhecido como uma representação do ídolo argentino Diogo Maradona, o cineasta interpretado por Harvey Keitel é, segundo o diretor, um mistura entre Roger Corman, Sidney Lumet e William Friedkin. Até mesmo o fio condutor da trama - a recusa de Ballinger em tocar em um evento para o Príncipe Philp - tem ligações com a realidade: o músico Riccardo Muti também não se acertou com a realeza britânica quando convidado para um espetáculo privado e o fato inspirou Sorrentino a ponto de o diretor escrever sobre ele em um diário e, posteriormente, transformar tal incidente em um dos pontos altos de sua (ainda) curta filmografia. Com tantos pontos positivos, "Juventude" é uma pequena obra-prima, mas que fique bem claro: não é um filme para públicos menos pacientes, que vibram com blockbusters de orçamentos inchados. É, isso sim, um biscoito fino, a ser degustado com o coração e a alma.

quinta-feira

INFILTRADO NA KLAN


INFILTRADO NA KLAN (BlackKkKlansman, 2018, Focus Features/Legendary Entertainment/Perfect World Pictures, 135min) Direção: Spike Lee. Roteiro: Spike Lee, Charlie Wachtel, David Rabinowitz, Kevin Willmot, livro de Ron Stallworth. Fotografia: Chayse Irvin. Montagem: Barry Alexander Brown. Música: Terence Blanchard. Figurino: Marci Rodgers. Direção de arte/cenários: Curt Beech/Cathy T. Marshall. Produção executiva: Marcei A. Brown, Matthew A. Cherry, Edward H. Hamm Jr., Win Rosenfeld, Jeanette Volturno. Produção: Jason Blum, Spike Lee, Raymond Mansfield, Sean McKittrick, Jordan Peele, Shaun Redick. Elenco: John David Washington, Adam Driver, Laura Harrier, Topher Grace, Ryan Eggold, Jasper Paakkonen, Michael Buscemi, Alec Baldwin. Estreia: 14/5/2018 (Festival de Cannes)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Spike Lee), Ator Coadjuvante (Adam Driver), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original

Vencedor do Oscar de Roteiro Adaptado

Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes

 A sequência inicial de "Infiltrado na Klan" já deixa antever o que virá pelas próximas duas horas: diante de uma montagem de cenas dos filmes "O nascimento de uma nação" (1915) - considerado um dos filmes mais racistas da história do cinema - e "... E o vento levou" (1939) - cujo duvidoso retrato da escravidão vem sendo questionada seriamente nos últimos anos -, o supremacista branco Kennebrew Beauregard (vivido por Alec Baldwin) faz um febril discurso a respeito de como os afro-americanos estão tomando os EUA e impondo seu modo de vida através da violência. Seu ponto de vista assustador - que seria cômico se não fosse trágico - dá início ao melhor filme de Spike Lee em muito, muito tempo, uma afirmação comprovada pela generosa bilheteria e pelo reconhecimento da Academia de Hollywood, que lhe premiou com o Oscar de roteiro adaptado e o indicou em outras cinco categorias, incluindo as duas mais importantes: melhor filme e diretor. Ovacionado desde sua estreia, no Festival de Cannes de 2018 (de onde saiu com o Grande Prêmio do Júri), "Infiltrado na Klan" se torna ainda mais relevante por ter sido lançado menos de um ano depois das manifestações racistas de Charlottesville, na Virgínia, cujas imagens são mostradas no final do filme e que causaram a morte da jovem Heather Heyer. Mais importante do que nunca, a produção é o filme certo na hora certa. Mais importante ainda, foi dirigido no tom exato entre o drama social e a ironia, opção que muito provavelmente o Spike Lee do final dos anos 1980 e começo dos 1990 não teria feito.

Conhecido no final do século passado por sua virulência e tendência para o marketing agressivo, Spike Lee chamava a atenção tanto por seus discursos veementes quanto por seus trabalhos cinematográficos - dentre os quais destacam-se "Faça a coisa certa" (1989) e "Malcolm X" (1992), ambos louvados pela crítica e exemplos nítidos da ira do cineasta à época. Em "Infiltrado na Klan", o cineasta parece ter encontrado o meio-termo entre sua militância e as regras do cinema comercial - do qual aproximou-se nos anos 2000, com o sucesso financeiro de "O plano perfeito", que rendeu surpreendentes 186 milhões de dólares em 2006. Mesmo com um material explosivo em mãos, Lee prefere o caminho menos óbvio para contar sua história, talvez por ter consciência do quão surreal ela pode parecer aos olhos do espectador, mesmo sendo verdadeira. Baseado no livro em que Ronn Stallworth conta sua inusitada (e perigosa) aventura, o roteiro (escrito por Lee, Charlie Watchel, David Rabinowitz e Kevin Willmot), ganhou merecidamente o Oscar da categoria, ao fazer magistralmente a transposição das páginas para a tela: nunca antes Lee esteve tão certeiro em utilizar-se das ferramentas do cinema em seu favor.

Mais do que apenas contar uma história em imagens, o cineasta brinca com referências culturais - como a blackexploitation do cinema norte-americano - e não hesita em inserir, em momentos-chave, um tom menos ágil e mais contundente - é o caso do discurso do ativista negro Stokely Carmichael (Corey Hawkins), no começo do filme, e de um trágico relato de crime de ódio, feito por Jerome Turner (uma participação não creditada do veterano Harry Belafonte), perto do final. Ao contrário de quebrar o ritmo, tais acréscimos tornam a narrativa ainda mais rica e lembram o espectador que, apesar da leveza com que a trama vem sendo conduzida, o assunto é mais sério e urgente do que se pode imaginar. É admirável como Lee é capaz de equilibrar tão bem cenas cômicas (mas nunca de um humor histérico) e sequências de pura tensão (será que o protagonista conseguirá evitar o atentado a bomba planejado pela KKK contra a sua namorada ativista? Será que seu colega de missão será reconhecido em plena cerimônia do grupo?) As respostas a essas e outras questões que vão surgindo durante o filme são apresentadas de forma orgânica e com uma fluência empolgante, que envolve a plateia sem muito esforço. Para isso conta, também, a escalação certeira de um elenco acima de qualquer crítica.

Na pele de Ronn Stallworth, um  jovem policial negro do Colorado que consegue se infiltrar na sede local da KKK através de telefonemas e da ajuda de seu colega, Flip Zimmermann, está John David Washington, uma das grandes promessas da nova geração: filho do também ator Denzel Washington (que já colaborou diversas vezes com Spike Lee), John David tem um carisma que imediatamente põe o espectador a seu lado. Adam Driver, que interpreta Zimmermann, um judeu que assume a identidade de Stallworth quando é preciso uma presença física junto aos líderes da Klan, recebeu uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante que confirmou uma fase excelente na carreira - além de sua atuação em filmes da nova série "Star Wars" ele voltou a concorrer à estatueta dourada (dessa vez na categoria principal) por "História de um casamento". E é preciso aplaudir o trabalho de Topher Grace, em um corajoso retrato de David Duke, um dos maiores líderes do grupo racista. Tudo é tão bem desenvolvido que até dá para perdoar a criação de um interesse romântico para Ronn, a militante Patrice Dumas, vivida por Laura Harrier, outra revelação do cineasta: ao contrário de outros filmes, a presença de Patrice não é apenas oferecer cenas idílicas, e sim servir como a voz da consciência de Ronn. Um toque que faz toda a diferença e torna "Infiltrado na Klan" um filme obrigatório não apenas para o público interessado no tema, mas principalmente para os fãs de cinema de qualidade. Uma pena que, podendo escolher essa pequena obra-prima como vencedor do Oscar de melhor filme, a Academia optou pelo raso e artificial "Green Book: O guia", que apresenta uma versão quase hipócrita do racismo. Se houvesse mais coragem por parte dos eleitores, o filme de Lee - que conta com o também cineasta Jordan Peele ("Corra!") entre os produtores - teria saído da cerimônia carregado de estatuetas douradas.

JÁ ESTOU COM SAUDADES


 JÁ ESTOU COM SAUDADES (Miss you already, 2015, 5 Films/New Sparta Films/The Salt Company International, 112min) Direção: Catherine Hardwicke. Roteiro: Morwenna Banks. Fotografia: Elliot Davis. Montagem: Phillip J. Bartell. Música: Harry Gregson-Williams. Figurino: Claire Finlay. Direção de arte/cenários: Amanda McArthur/Celia de La Hey. Produção executiva: Morwenna Banks, Jerome Booth, Sheryl Crown, Catherine Hardwicke, Nicki Hattingh, Jamie Holt, Samantha Horley, Lisa Lambert, Cyril Megret, James Norne, Celina Rattray, Anne Sheehan, Barnaby Southcombe, Trudie Styler, Paul Andrew Williams. Produção: Christopher Simon. Elenco: Toni Collette, Drew Barrymore, Dominic Cooper, Paddy Considine, Jacqueline Bisset. Estreia: 12/9/15 (Festival de Toronto)
 

Filmes a respeito da amizade entre mulheres já constituem, de certa maneira, quase um novo gênero cinematográfico - principalmente quando a relação descamba para a tragédia como forma de incrementar o roteiro. É dessa safra que saíram "Amigas para sempre" (1988) - estrelado por Bette Midler e Barbara Hershey -, o sensível "Tomates verdes fritos" (1991) - que contava não apenas uma, mas duas histórias de cumplicidade entre mulheres -, o já clássico "Thelma & Louise" (1991), que rendeu indicações ao Oscar para Susan Sarandon e Geena Davis - e o moderno "Somente elas" (1995), que estendeu sua sororidade à trilha sonora composta apenas por intérpretes femininas e colocou na estrada uma cantora lésbica (Whoopi Goldberg), uma silenciosa soropositiva (Mary-Louise Parker) e uma maluquete grávida do namorado violento (Drew Barrymore). Barrymore, aliás, é uma das duas estrelas de mais uma produção semelhante: pouco visto e pouco comentado, "Já estou com saudades" pouco acrescenta à lista de filmes afins, mas é simpático o bastante para sustentar uma sessão descompromissada - e muito disso se deve às presenças de suas atrizes centrais, Toni Collette e a mesma Drew Barrymore de "Somente elas". Talentosas e carismáticas, elas carregam o filme nas costas e conseguem até mesmo deixar suportáveis toda a previsibilidade do roteiro.

Barrymore, aliás, só acabou no elenco do filme depois de duas desistências. Primeiro foi Jennifer Aniston quem pulou fora, devido ao adiamento das filmagens; depois, foi a vez de Rachel Weisz abandonar o projeto e abrir vaga para a ex-atriz mirim. Talvez tenha sido para o bem: com sua personalidade vibrante, Barrymore é o contraponto perfeito para o talento à flor da pele de Collette, e o encontro de duas energias tão díspares é que faz com que a trama funcione, deixando pouco espaço para os coadjuvantes - um time que inclui até mesmo a veterana (e ainda belíssima) Jacqueline Bisset. Com ares de adaptação de romances água-com-açúcar, "Já estou com saudades" é, surpreendentemente, um roteiro original (ou quase isso: é a adaptação de uma peça radiofônica escrita pela mesma Morwenna Banks, autora de roteiros para séries de televisão britânicas), e acompanha a trajetória de duas amigas de infância que tem suas vidas transformadas por situações que fogem de seu controle - e põe a relação em xeque. Como era de se esperar, o roteiro não se aprofunda em questões psicológicas e tampouco vai além do já visto em outras produções afins. Mas há como resistir a suas protagonistas e a uma trilha sonora que dá destaque à atemporal "Losing my religion", do R.E.M.? 

Milly (Toni Collette) tem uma vida de sonhos, com um emprego que a satisfaz e uma rotina doméstica das mais felizes, que inclui o marido, Kit (Dominic Cooper), e dois filhos adoráveis. Jess (Drew Barrymore) já é menos completa - apesar do carinho do namorado, Jago (Paddy Considine), seu trabalho não é dos melhores, vive em um trailer desconfortável e sofre com as tentativas sem sucesso de engravidar. As duas são amigas íntimas desde que eram crianças, e apesar de suas diferenças (ou talvez por causa delas) se completam e não conseguem ficar separadas por muito tempo. A relativa paz da relação é abalada quando ambas se descobrem diante de situações catalisadoras: Jess finalmente fica grávida, e Milly é diagnosticada com câncer - o que altera substancialmente sua personalidade e a põe em rota de colisão com a amiga e o próprio marido. Para ajudar Milly em sua recuperação, Jess deixa sua vida de lado - mas será que a ligação entre as duas sobreviverá a uma prova tão dura?

A diretora Catherine Hardwick tem em seu currículo o excelente "Aos treze" (2003), que marcou a estreia de Evan Rachel Wood no cinema, mas é mais lembrada pelo tenebroso "Crepúsculo" (2008), o primeiro capítulo de uma das sagas mais constrangedoras do cinema americano das últimas décadas. Para sorte dos espectadores, "Já estou com saudades", apesar de não ser exatamente criativo e seguir à risca uma série de clichês, está menos para o romance vampiresco adolescente e mais para o drama familiar que deu à Holly Hunter uma indicação ao Oscar de coadjuvante. A cineasta acerta em deixar que suas atrizes comandem o show, mas peca ao não evitar o melodrama sentimental que domina a segunda metade do filme. Ainda bem que, apesar de suas personagens não sejam complexas como deveriam, Toni Collette e Drew Barrymore sustentam a produção sem muito esforço - e podem levar o público mais sensível às lágrimas. Não é um filme inesquecível, nem um ponto alto da carreira de ninguém envolvido, mas consegue cativar pelas quase duas horas de sessão. Tem tudo para virar um frequentador habitual das sessões da tarde na televisão aberta - e isso é bem mais do que muitos congêneres conseguem.

terça-feira

O HOMEM DO ANO


O HOMEM DO ANO (O homem do ano, 2003, Conspiração Filmes/Warner Bros, 105min) Direção: José Henrique Fonseca. Roteiro: Rubem Fonseca, livro "O matador", de Patrícia Melo. Fotografia: Breno Silveira. Montagem: Sérgio Mekler. Música: Dado Villa-lobos. Figurino: Cláudia Kopke. Direção de arte/cenários: Kiti Duarte/Toni Vanzolini. Produção executiva: Beto Bruno. Produção: José Henrique Fonseca, Leonardo Monteiro de Barros, Flávio R. Tambelini. Elenco: Murilo Benício, Cláudia Abreu, Natália Lage, Paulo César Pereio, José Wilker, Agildo Ribeiro, Jorge Dória, Lázaro Ramos, Wagner Moura, Amir Haddad, Mariana Ximenes, André Gonçalves, Perfeito Fortuna, Moska, Marilu Bueno. Estreia: 11/4/2003 (Festival de Cognac)

Não fosse o talento indiscutível dos envolvidos,"O homem do ano" poderia facilmente ser confundido com uma reunião de família: o roteiro é do celebrado escritor Rubem Fonseca, que é pai do diretor, José Henrique Fonseca, que por sua vez, é casado com Cláudia Abreu, dona de um dos principais papéis femininos. Basta assistir-se ao filme, porém, para constatar que este feliz encontro artístico apenas valoriza o resultado final, uma trama policial recheada de ironia que envolve o espectador em uma teia de situações quase surreais pelas quais passa o protagonista, um homem comum alçado à condição de herói do dia para a noite. Interpretado por Murilo Benício - perfeito em sua composição quase calada e por vezes atônita -, o lacônico Maiquel é criação da escritora Patrícia Melo em seu livro "O matador", e em sua encarnação cinematográfica é, sem favor, um dos personagens mais interessantes do cinema brasileiro do começo dos anos 2000.

"O homem do ano" se passa no Rio de Janeiro longe dos cartões-postais e apresenta, ao invés de corpos dourados de sol e um clima bossa-nova, um universo claustrofóbico, no qual a violência é tão comum quanto um jogo de sinuca e quaisquer mal-entendidos pode resultar em tragédia. É mais ou menos o que acontece com Maiquel, um jovem introspectivo que tem sua vida virada de cabeça para baixo por um motivo mais que banal: depois de perder uma aposta e ser obrigado a pintar o cabelo de loiro, ele entra em conflito com Suel (Wagner Moura em um papel pequeno mas marcante), um dos clientes do bar que frequenta e, antes que possa mudar de ideia, acaba matando o rapaz diante da namorada dele, Érica (Natália Lage, ótima em um papel bastante complexo). Ao contrário do que imaginava, no entanto, ele não é preso, e sim transformado em um benfeitor pela comunidade, que sofria nas mãos da vítima, um bandido pé-de-chinelo que amedrontava a vizinhança. Se não bastasse as homenagens que começa a receber dos vizinhos, Maiquel é procurado por um grupo de homens endinheirados que lhe propõem um alto pagamento em troca de seu trabalho em eliminar toda e qualquer ameaça à segurança de seus bens. 

 A princípio hesitante em aceitar essa nova incumbência, Maiquel acaba por tornar-se o homem de confiança dos empresários, com todo o respeito que a função possibilita. E se não fosse o bastante, Érica reaparece em sua vida, exigindo que ele a proteja depois da morte de seu amante - um problema que atrapalha os planos de Maiquel de ter uma vida relativamente normal com Cledir (Cláudia Abreu), com quem se casa e começa uma família. Dividido entre as duas mulheres, Maiquel se torna a pedra no caminho de bandidos profissionais, que iniciam uma série de represálias para impedi-lo de continuar sua carreira de matador. Eleito homem do ano pelo grupo que lhe paga - e bem-visto pela comunidade onde mora -, o outrora pacífico rapaz se vê cada vez mais afundado em uma vida regida pela violência e pela paranoia, em que nem mesmo seu suíno de estimação parece estar a salvo. De modo inacreditável, Maiquel, mesmo que pareça dono do seu destino, se sente impotente em acabar com sua nova rotina, preso entre duas mulheres e um trabalho que lhe dá prestígio e dinheiro - mas não a paz de espírito que ele almeja.

A ironia que permeia "O homem do ano" é, sem dúvida, um dos pontos altos do roteiro do veterano Rubem Fonseca, que mantém o estilo direto e seco de Patrícia Melo sem abrir mão de suas particularidades como autor. Seu texto é abrilhantado pelo elenco - Murilo Benício e Natália Lage à frente. e veteranos como Jorge Dória, José Wilker e Agildo Ribeiro como coadjuvantes de luxo - e pela direção inteligente de José Henrique, que conduz a trama com perfeito equilíbrio entre a tensão e o humor quase sombrio. Comparado por alguns críticos ao excepcional "Cidade de Deus" (2002), "O homem do ano" tem como similar apenas a ambientação e o tom realista - ainda que em seu filme Fonseca não se aprofunde em questões sociais ou na violência gráfica. A sutileza do cineasta em evitar, sempre que possível, a sanguinolência explícita, empurra o filme para características dramáticas das mais interessantes - e embora nem sempre tente analisá-las sob um viés psicológico, se aproveita delas para criar uma obra com características únicas, que se sustenta sozinha mesmo dentro um gênero com suas próprias regras. Pelo conjunto de qualidades que apresenta, "O homem do ano" é uma produção que não teve a atenção merecida quando chegou às telas. Nunca é tarde, porém, para reparar uma injustiça!

sexta-feira

A GRANDE JOGADA

 


A GRANDE JOGADA (Molly's game, 2017, STX Entertainment/The Mark Gordon Company, 140min) Direção: Aaron Sorkin. Roteiro: Aaron Sorkin, livro de Molly Bloom. Fotografia: Charlotte Brus Christensen. Montagem: Alan Baumgarten, Elliot Graham, Josh Schaeffer. Música: Daniel Pemberton. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: David Wasco/Patricia Larman, Sandy Reynolds-Wasco. Produção executiva: Oren Aviv, Felice Bee, Stuart M. Besser, Adam Fogelson, Leopoldo Goult, Robert Simonds, Donald Tang, Wang Zhongjun, Wang Zhonglei. Produção: Mark Gordon, Matt Jackson, Amy Pascal. Elenco: Jessica Chastain, Idris Elba, Kevin Costner, Michael Cera, Jeremy Strong, Chris O'Dowd, Graham Greene. Estreia: 08/9/2017 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de roteiro adaptado

Conhecido como um premiado dramaturgo e roteirista (vencedor do Oscar por "A rede social" e sempre lembrado por associações de críticos por seus trabalhos no cinema e na televisão), Aaron Sorkin até que demorou para estrear na direção. De seu primeiro script (a adaptação de sua própria peça teatral "Questão de honra", estrelado por Tom Cruise e Jack Nicholson em 1992) até "A grande jogada", seu primeiro filme como cineasta, se passaram 25 anos - e nesse meio-tempo ele acrescentou outras láureas a seu currículo, graças a produções como "O homem que mudou o jogo" (2011) e "Steve Jobs" (2015). Com tal histórico, não é de surpreender que Sorkin tenha escolhido a dedo o material para seu primeiro longa-metragem. "A grande jogada" é tudo que se pode esperar de um filme comandado pelo roteirista/diretor: inteligente, ágil e com personagens complexos, defendidos por um elenco coeso, no qual se destaca a sensacional Jessica Chastain.

Chastain, uma atriz superlativa que valoriza cada filme, por mais medíocre que seja, encontrou em Molly Bloom, a protagonista de "A grande jogada", um papel que toda grande intérprete sonha: cheia de camadas e dona de uma história interessante o bastante para prescindir de qualquer muleta (leia-se romances desnecessários, doenças redentoras, e tudo mais que os roteiristas criam para oferecer momentos dramáticos que justifiquem indicações ao Oscar e afins). Por esse motivo, é inacreditável que a Academia tenha ignorado seu impecável trabalho e a deixado de fora inclusive do páreo na categoria. Sem deixar de lado a beleza e o glamour de sua atriz central, Sorkin oferece à Chastain possibilidades ilimitadas - e a atriz tira todas de letra, dona absoluta do filme e de sua personagem. Molly Bloom - o mesmo nome da personagem criada por James Joyce em "Ulisses" - é uma mulher que não pede desculpas e tenta (nem sempre com sucesso) manipular o próprio destino. Logo, está fadada a enfrentar as consequências de desafiar um mundo feito por e para os homens. Sim, "A grande jogada" é, de uma certa forma, um filme feminista.


Não, não há nada de panfletário em "A grande jogada". O que faz dele um filme feminista é o fato de ter como protagonista uma mulher corajosa e que não baixa a cabeça diante dos homens que tentam mandar no jogo. Se seu advogado - vivido pelo ótimo Idris Elba - é quem vai tentar salvar sua pele, ele o faz de acordo com suas diretrizes, que incluem manter a ética profissional mesmo quando corre o risco de parar na cadeira. Molly Bloom não pede desculpas pelo que é - e essa força, que nem mesmo sua derrocada consegue apagar completamente. Atleta frustrada (com uma carreira de esquiadora interrompida por um acidente) e com sérios problemas de relacionamento com o pai (Kevin Costner) - um homem exigente e pouco dado a carinhos -, Molly descobre, quase acidentalmente, o submundo do pôquer, e, depois de um tempo como coadjuvante de uma série de jogos, decide tornar-se a coordenadora de grupos milionários de celebridades e empresários. Competente e discreta, ela se torna uma conhecida e respeitada gerente de jogos - até que se envolve, sem querer, com a perigosa máfia russa, o que a coloca na mira do FBI.

Contado através de flashbacks, através das conversas de Molly com seu advogado, Charlie Jaffey (Idris Elba), "A grande jogada" usa e abusa de artifícios visuais para seduzir o público, e para isso, conta com a edição inteligente e diálogos afiados, com certa dose de ironia e personagens bastante interessantes. Do início, com Molly explicando sua trajetória de aspirante a atleta olímpica a gerente de noitadas milionárias de pôquer, até o final, quando ela se vê obrigada a pagar por seus erros de estratégia, o filme de Sorkin apresenta ao espectador jogadores dos mais variados níveis de vício - inclusive um ator de cinema (interpretado por Michael Cera) que, segundo consta, era Tobey Maguire, que levava seu amigo Leonardo DiCaprio para noites de jogatina que enriqueciam - e muito - a renda da protagonista. E se o tom da produção vai ficando cada vez mais sombrio conforme Molly vai se encrencado com a máfia russa sem saber, melhor ainda o filme vai se tornando, demonstrando o domíno do roteirista transformado em cineasta. Se em seu primeiro filme ele já demonstra tal segurança, é de se imaginar como será sua próxima incursão na cadeira de diretor. "A grande jogada" é um filme de enormes qualidades, um entretenimento adulto de alto gabarito que merece ser descoberto e aplaudido.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...