quinta-feira, 14 de outubro de 2010

OS BONS COMPANHEIROS

OS BONS COMPANHEIROS (Goodfellas, 1990, Warner Bros, 146min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Martin Scorsese, Nicholas Pileggi, livro de Nicholas Pileggi. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Thelma Schoonmaker, James Kwei. Figurino: Richard Bruno. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Les Bloom. Casting: Ellen Lewis. Produção executiva: Barbara de Fina. Produção: Irwin Winkler. Elenco: Robert DeNiro, Joe Pesci, Ray Liotta, Lorraine Bracco, Paul Sorvino, Ileana Douglas, Samuel L. Jackson. Estreia: 19/9/90

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Martin Scorsese), Ator Coadjuvante (Joe Pesci), Atriz Coadjuvante (Lorraine Bracco), Roteiro Adaptado, Montagem
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Joe Pesci)

Martin Scorsese É gênio! E se ainda havia alguma dúvida a esse respeito - mesmo depois de "Taxi driver" e "Touro indomável" - ela provavelmente foi dissipada com "Os bons companheiros", adaptado do livro de Nicholas Pileggi, por sua vez baseado em fatos reais. Poucas vezes o cinema americano foi tão fascinante, vigoroso e realista quanto aqui, uma verdadeira obra-prima de Hollywood, comandada por um cineasta em estado de graça absoluta e capaz de devolver a fé em bom cinema até ao mais renitente espectador. Deixado de lado na cerimônia do Oscar que premiou o soporífero "Dança com lobos" - devido à mania insuportável do politicamente correto -, "Os bons companheiros" viu o tempo lhe fazer a justiça que merece. Hoje é considerado um dos melhores filmes de gângsters da história. Mas relegá-lo a um nicho tão pequeno é pouco. "Os bons companheiros" merece figurar entre os melhores filmes da história e ponto.

O protagonista de "Os bons companheiros" é Henry Hill, que contou sua história ao escritor Nicholas Pileggi depois de anos escondido sob o manto do Serviço de Proteção à Testemunha americano. Metade italiano metade irlandês - o que o impede de subir aos degraus mais altos da organização mafiosa em que trabalha -, Hill narra sua história desde a adolescência - quando começou a fazer pequenos trabalhos para seus "patrões" - até o momento em que aderiu ao programa da polícia que lhe possibilitou escapar de uma morte quase certa. Vivido com ferocidade por um Ray Liotta que nunca mais conseguiu repetir o mesmo sucesso, Hill é o anti-herói perfeito para Scorsese. Amoral, adúltero, violento e ambicioso, o protagonista de "Os bons companheiros" narra sua trajetória sem meias-palavras e apresenta sua turma de "colaboradores" e "amigos" com uma desenvoltura que encontra na direção do cineasta e na edição genial de Thelma Schoonmaker ecos perfeitos.

A montagem de Schoonmaker, aliás, é provavelmente a maior estrela de "Os bons companheiros". Enxuta, ágil e inteligente, ela conta a história de Henry Hill com um toque de realismo irônico que torna a experiência de assistir ao filme inesquecível. E o cuidado de Scorsese com os detalhes é admirável: nada em seu filme é gratuito, desde o figurino até as sensacionais tomadas de câmera - como um excepcional plano-sequência em que o protagonista leva sua amada Karen (Lorraine Bracco) para conhecer o restaurante onde ele é tratado como um rei: poucos são os cineastas que conseguem, em poucos minutos, dar a sensação de poder que Marty consegue aqui. E se já não bastasse a técnica perfeita, o elenco de "Os bons companheiros" é de tirar o chapéu.

Não é de admirar que Liotta - normalmente um ator bastante limitado - tenha apresentado uma atuação tão brilhante, considerando que seus colegas de elenco são quem são. Robert DeNiro dispensa apresentações e seu trabalho como Jimmy Conway, um dos mentores de Hill, mostra porque ele é um dos atores mais conceituados de sua geração. Paul Sorvino, na pele de Paul Cicero - o ícone máximo de poder visualizado pelo protagonista - exala segurança e amedronta com um simples olhar. Lorraine Bracco - que ficou com um papel que quase foi de Madonna (meu Deus!!) - concorreu ao Oscar de coadjuvante por seu trabalho impressionante como Karen, a alma-gêmea de Henry. E Joe Pesci... é uma tarefa inglória assistir às cenas de Pesci como o beligerante Tommy DeVito sem ficar estarrecido com a força que o ator imprime à sua interpretação, premiada com um Oscar - e que marcou sua carreira pra sempre.

É difícil explicar porque "Os bons companheiros" é tão bom! Dono de um roteiro esperto, com uma direção que beira a perfeição e um elenco nunca aquém do espetacular - além de uma história chocantemente verdadeira - é um filme para ser visto e revisto sempre com um olhar de admiração! Legítima obra-prima.

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