sexta-feira, 26 de novembro de 2010

DRÁCULA DE BRAM STOKER

DRÁCULA DE BRAM STOKER (Bram Stoker's Dracula, 1992; American Zoetrope/Columbia Pictures, 128min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: James V. Hart, romance de Bram Stoker. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Anne Goursaud, Glen Scantlebury, Nicholas C. Smith. Música: Wojciceh Kilar. Figurino: Eiko Ishioka. Direção de arte/cenários: Thomas Sanders/Garrett Lewis. Casting: Victoria Thomas. Produção executiva: Michael Apted, Robert O'Connor. Produção: Fred Fuchs, Francis Ford Coppola, Charles Mulvehill. Elenco: Gary Oldman, Winona Ryder, Anthony Hopkins, Keanu Reeves, Tom Waits, Richard E. Grant, Cary Elwes, Bill Campbell, Sadie Frost, Monica Bellucci. Estreia: 13/11/92

4 indicações ao Oscar: Figurino, Direção de Arte/cenários, Maquiagem, Efeitos Sonoros
Vencedor de 3 Oscar: Figurino, Maquiagem, Efeitos Sonoros

Quem tem coragem de dizer que todos os filmes de vampiro são iguais - ou acha que a série "Crepúsculo" tem qualquer qualidade além de ser uma vitrine para a "beleza" de seus astros - provavelmente não assistiu a "Drácula de Bram Stoker", mais uma obra-prima de Francis Ford Coppola. Só mesmo um cineasta de seu porte, que encontrou humanidade nos mafiosos de "O poderoso chefão", que quase foi à falência com o esteticamente ousado "O fundo do coração" e deu uma nova visão à guerra do Vietnã em "Apocalypse now", poderia orquestrar, sem soar repetitivo, essa ambiciosa adaptação quase operística da história do mais famoso vampiro da literatura, escrita pelo irlandês Bram Stoker no século XIII.

O toque de mestre do diretor já dá as caras no prólogo, inédito no livro e que conta as origens do sanguessuga - inspirado em uma personalidade real. O conde Vlad Dracul (o espetacular inglês Gary Oldman) torna-se conhecido como sanguinário devido a sua luta para defender a Igreja católica durante as Cruzadas. Ao retornar para casa, ele descobre que sua amada Elisabeta (Winona Ryder, linda mas quase inexpressiva) havia cometido suicídio, ao acreditar-lhe morto. Revoltado com a Igreja, que se recusa a sepultar suicidas, ele se entrega às trevas. Essas cenas, faladas em romeno e filmadas com criatividade e elegância, dão o tom barroco e épico pretendido pelo cineasta. O que vem pela frente é a mais perfeita tradução do universo gótico e assustador da obra.

Séculos depois da sequência de abertura, o Conde vive isolado em seu castelo na Transilvânia e recebe a visita do agente imobiliário Jonathan Harker (Keanu Reeves, o único elo fraco do filme), que chega disposto a fechar negócio com o idoso e misterioso milionário, depois que seu colega anterior, Reinfield (o cantor Tom Waits em participação especial extremamente eficiente) saiu de cena devido a um grave desequilíbrio mental. As coisas parecem estar indo bem até que o Conde reconhece em uma imagem de Mina, a noiva de Harker, a reencarnação de sua amada. Trancando o jovem em seu castelo, ele embarca para a Inglaterra com a intenção de reconquistar sua felicidade. Em Londres, ele parte em busca de Mina, mesmo que para isso tenha que sacrificar a melhor amiga desta, a desinibida Lucy (Sadie Frost) e enfrentar o conhecido médico Abraham Van Helsing (Anthony Hopkins), estudioso de ocultismo e caçador de vampiros nas horas vagas.

 A atmosfera lúgubre criada por Coppola e seu diretor de fotografia Michael Ballhaus encanta até o mais renitente dos espectadores. Ao utilizar-se de técnicas rudimentares de cinema para contar sua história - contrariando a nascente tendência de CGI - o cineasta parece querer convidar a plateia a entrar em um universo carregado de simbolismos onde a escuridão revela mais que a claridade, onde o vermelho do sangue grita a cada frame, onde cada transição de cena é meticulosamente cuidada. O visual carregado - justamente como se fosse uma ópera - é impecável: a direção de arte e o figurino (premiado com um justíssimo Oscar) não ficam nunca aquém do fantástico. Mais do que pretender assustar, o que Coppola quer é pegar o espectador pela mão e apresentá-lo a uma história de amor que não deixa o tempo, a religião ou a morte lhe diminuir. Ao contrário de outras versões cinematográficas, onde o protagonista era retratado ora como monstro ora como galã, aqui o Conde Drácula tem uma personalidade bem mais complexa: sim, ele é um monstro sanguinário e impiedoso, mas é também um homem traído pela sua fé e acima de tudo, um amante caloroso e dedicado que atravessa séculos em busca de sua amada.



Na pele do exímio Gary Oldman, Drácula é um herói trágico. Oldman não erra o tom de sua personagem em momento algum, equilibrando magistralmente o sarcasmo, o romance e a violência que lhe são características sem deixar que uma anule a outra. Sob a pesada maquiagem (também premiada com um Oscar), Oldman se transforma em ancião, em lobo e em vampiro sem nunca perder a essência, e aproveita cada cena para demonstrar seu grande talento. Destaque absoluto do elenco, ele precisa, no entanto, contracenar com um apático Keanu Reeves e uma Winona Ryder que, apesar de esforçada, não atinge o potencial dramático de sua personagem, ao contrário de uma desconhecida Sadie Frost que pinta e borda com sua fogosa Lucy, dona de algumas das mais belas cenas do filme. Anthony Hopkins, como Van Helsing, também encontra o tom exato de sua atuação, entre o trágico e o cômico, e até mesmo Tom Waits revela-se um ator eficaz, transmitindo a sensação de perigo que a chegada do Conde anuncia.

Belamente concebido - a trilha sonora forte de Wojciech Kilar ajuda a estabelecer também o clima quase surreal da visão de Coppola - e encenado como uma angustiante peça de teatro - e é genial a inserção do cinematógrafo na cena do primeiro encontro entre Drácula e Mina - "Drácula de Bram Stoker" é a visão definitiva de uma das mais duradouras histórias de amor e perda da literatura mundial. É também mais uma poderosa prova do talento visionário de Francis Ford Coppola, em seu, até agora, último trabalho digno de figurar no rol de suas obras-primas.

2 comentários:

renatocinema disse...

Fui na estréia assistir esse filme nos cinemas. Apaixonante. Ver esse filme na tela grande é emocionante, empolgante e mágico.

Lileeloo disse...

Melhores filmes sobre vampiro: Nosferatu e Drácula de Bram Stoker - li o livro depois, só senti falta de um certo cientificismo que está presente no livro, também no filme, mas seu comentário sempre muito pertinente.