segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

SICÁRIO: TERRA DE NINGUÉM

SICÁRIO: TERRA DE NINGUÉM (Sicario, 2015, Black Label Media/Lionsgate, 121min) Direção: Denis Villeneuve. Roteiro: Taylor Sheridan. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Joe Walker. Música: Johann Johansson. Figurino: Renée April. Direção de arte/cenários: Patrice Vermette/Jan Pascale. Produção executiva: Erica Lee, Ellen H. Schwartz, John H. Starke. Produção: Basil Iwanyk, Thad Luckinbill, Trent Luckinbill, Molly Smith. Elenco: Emily Blunt, Benicio Del Toro, Josh Brolin, Victor Garber, Jon Bernthal, Daniel Kaluuya, Jeffrey Donovan. Estreia: 19/5/15 (Festival de Cannes)

3 indicações ao Oscar: Fotografia, Trilha Sonora Original, Edição de Som

O cineasta Denis Villeneuve surpreendeu muita gente quando, depois de ser indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro pelo devastador "Incêndios" (2011) e realizar dois filmes estrelados por Jake Gyllenhaal - o suspense "Os suspeitos" (2013) e o estranho "O homem duplicado" (2013), baseado no romance de José Saramago - decidiu dar sua contribuição à polêmica questão do tráfico de drogas entre EUA e México. Optando por uma narrativa seca e semi-documental, ele explora o roteiro do também ator Taylor Sheridan como mapa para um mundo violento e com regras próprias, sem espaço para sentimentalismos ou delicadezas. Fotografado em tons secos por Roger Deakins (que arrebatou uma indicação ao Oscar por seu trabalho) e editado com precisão cirúrgica, "Sicário: terra de ninguém" estreou no Festival de Cannes 2015 e não demorou em coletar elogios da crítica mundo afora. Mesmo com uma bilheteria tímida e o fracasso em conquistar estatuetas na temporada de premiações, Villeneuve marcou mais um gol em sua carreira ainda impecável, com um thriller impactante e relevante que prende o espectador na poltrona do início ao fim sem apelar para a violência gratuita.

O tom sério de "Sicário" já fica claro em sua sequência de abertura, onde um grupo de agentes do FBI especializados em sequestros - e liderado pela corajosa Kate Macer (Emily Blunt) - invade uma casa no estado do Arizona e descobre dezenas de corpos escondidos nas paredes, em estado de decomposição. A missão acaba em tragédia, mas Macer chama a atenção de Matt Graver (Josh Brolin), que a convida a juntar-se a seu time na caça por Manuel Diaz (Bernardo P. Sacarino), líder de um cartel de tráfico de drogas - e dono da propriedade onde ela localizou os cadáveres. Com a promessa de colocar na cadeia o responsável pelos crimes, a jovem agente aceita o desafio de unir-se à equipe de Graver, que inclui o misterioso policial federal Alejandro (Benicio Del Toro), um mexicano calado e cujos métodos pouco ortodoxos irão chocar-se com seu rígido código de conduta. Conforme vai se envolvendo mais e mais com a incansável busca de seus colegas, porém, Macer descobre que está em um terreno minado, onde as leis são mutáveis e tudo que aprendeu em sua carreira até então pode ser posto de lado em situações consideradas extremas.


Depois de dois filmes contando com protagonistas masculinos, em "Sicário" Denis Villeneuve volta a investir na força da mulher, elegendo como personagem principal alguém com cujos valores morais e éticos a plateia pode facilmente se identificar. Kate Macer é uma agente do FBI, acostumada com a violência e a criminalidade, mas ainda mantém dentro de si uma rigorosa ordem moral que a impede de compactuar com as barbaridades que testemunha conforme vai avançando na chaga social que é o tráfico de drogas na fronteira EUA/México. Ao lado do colega Reggie (Daniel Kaluuya), ela começa a perder uma espécie de inocência que ainda lhe resta ao ser obrigada a compactuar com atitudes jamais pensadas e torna-se, ao mesmo tempo, caça e caçadora, virando alvo dos criminosos a que persegue e até mesmo de alguns colegas que veem nela uma ameaça à continuidade da operação. É aí que entra em cena o silencioso Alejandro, um homem com um passado dramático a ponto de deixar público e protagonista em constante dúvida sobre suas reais motivações. Fazendo alterações fundamentais no roteiro original de Taylor Sheridan - que explicitava as intenções do personagem logo de cara - o ator Benício Del Toro transforma Alejandro em um enigma até o terço final, criando um suspense que dá ao filme uma textura a mais e justifica sua indicação ao BAFTA de ator coadjuvante (assim como diversas outras homenagens dos críticos). Juntos em cena, Del Toro e Emily Blunt - que já haviam estrelado "O lobisomem" (2010) - são fascinantes e elevam "Sicário" a um nível bem acima do tradicional thriller: o filme de Villeneuve é, também, um poderoso drama sobre escolhas e a impotência diante de algo maior que a própria lei.

Um cineasta preocupado com a complexidade dos personagens que retrata, Denis Villeneuve encontra, em "Sicário", uma excelente plataforma para demonstrar suas qualidades como diretor. Não apenas apresenta um domínio técnico invejável - com fotografia, edição e desenho de som espetaculares - como também explora com inteligência o grande talento de seus atores. Como em seus trabalhos anteriores, Villeneuve oferece ao público um filme que fica na memória mesmo após os créditos finais, graças a um roteiro forte e um cuidadoso trabalho de direção e interpretação. É uma produção que tem muito mais a dizer do que simplesmente entreter o público por duas horas: é um belo exemplo de como fazer um filme de ação inteligente e cerebral mesmo sem tornar-se chato e enfadonho. Bravo, Villeneuve!

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