quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

CRIMES OCULTOS

CRIMES OCULTOS (Child 44, 2015, Worldview Entertainment/Scott Free Productions, 137min) Direção: Daniel Espinosa. Roteiro: Richard Price, romance de Tom Rob Smith. Fotografia: Oliver Wood. Montagem: Pietro Scalia, Dylan Tichenor. Música: Jon Ekstrand. Figurino: Jenny Beavan. Direção de arte/cenários: Jan Roelfs/Mykyta Brazhnyk, Sophie Hervieu. Produção executiva: Maria Cestone, Molly Conners, Elishia Holmes, Sarah E. Johnson, Adam Merims, Hoyt David Morgan, Kevin Plank, Douglas Urbanski. Produção: Michael Schaefer, Ridley Scott, Greg Shapiro. Elenco: Tom Hardy, Gary Oldman, Noomi Rapace, Paddy Considine, Joel Kinnaman, Jason Clarke, Vincent Cassel. Estreia: 15/4/15

Em 1990, uma produção para a televisão americana, "Cidadão X", estrelada por Stephen Rea e Donald Sutherland, contava a história real da caçada da polícia russa ao mais famoso serial killer do país, Andrei Chikatilo, que matou dezenas de crianças e escondeu seus corpos pelas florestas de sua região por mais de duas décadas. Em 2008, o escritor Tom Rob Smith lançou "Criança 44", um romance policial que, inspirado no caso, expandia sua trama ao adicionar a ela um drama ético e uma história de amor ameaçada pelas paranoias do regime soviético. Adaptado para as telas pelas mãos do sueco Daniel Espinosa - e rebatizado como "Crimes ocultos" - o filme acabou banido das salas de exibição na Rússia, que não viu com bons olhos a crítica aos costumes políticos da era Stalin. Fracasso de bilheteria e pouco reconhecido pela crítica especializada, "Crimes ocultos" é um policial acima da média, mas que infelizmente não chega a empolgar tanto como poderia, a julgar pela reunião de grandes talentos que apresenta.

A começar por Tom Hardy, uma das mais valiosas aquisições de Hollywood nos últimos anos, que demonstra imensa versatilidade passeando por gêneros diversos, como a comédia romântica ("Guerra é guerra"), drama familiar ("Guerreiro") e filmes de ação ("Batman: O Cavaleiro das Trevas ressurge" e "Mad Max: estrada da fúria") e já chegou até a uma indicação ao Oscar de coadjuvante (por "O regresso", que deu a estatueta a Leonardo DiCaprio). Hardy está estupendo na pele de Leo Demidov, um dedicado membro da polícia militar russa que, para salvar a pele da esposa, Raisa (Noomi Rapace, da versão original da trilogia "Millenium"), acusada de traição, acaba por cair em desgraça junto à corporação. Relegado a uma cidadezinha do interior do país, ele se vê compelido a mergulhar de cabeça na investigação de uma série de mortes de crianças - que o General Mikhail Nesterov (Gary Oldman) insiste em considerar acidentes de trem. Ao lado de Raisa, ele tenta capturar o assassino e se redimir junto a um amigo que perdeu o filho pelas mãos do criminoso. Nesse meio-tempo, precisa também desviar-se da perseguição feita por um antigo colega,Vasili (Joel Kinnaman), e lidar com as dúvidas acerca da lealdade da esposa.


Ousado ao bifurcar sua narrativa em dois caminhos complementares, o roteiro de "Crimes ocultos" acerta em fugir da óbvia e convencional busca ao criminoso - revelado antes da metade do filme - e tentar acrescentar camadas políticas à trama policial. Mais do que simplesmente investigar e caçar o serial killer que impulsiona a história, Leo serve como o guia do espectador pelas entranhas de um sistema político rígido e incapaz de reconhecer suas rachaduras sociais. A perseguição de Vasili ao protagonista - com direito inclusive à assédio à sua esposa - e as tentativas ferozes de Nesterov em assumir a possibilidade de que possam estar acontecendo violentos homicídios em seu país - "Não há assassinatos no Paraíso!" - são o retrato inclemente de uma mentalidade construída a ferro e fogo e mantida com controle absoluto por um governo totalitário e violento. Nem sempre as duas partes funcionam à perfeição quando unidas - em vários momentos tem-se a impressão de que o filme não sabe exatamente seu foco - mas a caprichada reconstituição de época e o empenho de seus atores compensam qualquer derrapada. Tom Hardy não tem muita química com Noomi Rapace (que mantém o mesmo tom antipático por toda a duração do filme), mas é um ator tão carismático e competente que engole tudo à sua volta, conseguindo eclipsar inclusive o normalmente ótimo Gary Oldman. Equilibrando fragilidade e agressividade, Hardy constrói um personagem repleto de nuances, apoiado pela direção competente de Daniel Espinosa e pela capacidade do roteiro de manter a elegância e a discrição mesmo com um tema tão sangrento.

Ao contrário de "Cidadão X", que lidava diretamente com a questão dos assassinatos e da busca por seu perpetrador, "Crimes ocultos" vai mais além no retrato de uma Rússia despreparada para lidar com crimes tão chocantes.


Nenhum comentário: