terça-feira

DESCOMPENSADA

DESCOMPENSADA (Trainwreck, 2015, Apatow Productions, 125min) Direção: Judd Apatow. Roteiro: Amy Schumer. Fotografia: Jody Lee Lipes. Montagem: William Kerr, Paul Zucker. Música: Jon Brion. Figurino: Jessica Albertson, Leesa Evans. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Debra Schutt. Produção executiva: David Householter. Produção: Judd Apatow, Barry Mendel. Elenco: Amy Schumer, Bill Hader, Tilda Swinton, Ezra Miller, Brie Larson, Lebron James, Marisa Tomei, Daniel Radcliffe. Estreia: 17/7/15

Os fãs de comédias românticas conhecem exatamente as engrenagens que as movem, e a julgar pela longevidade do gênero - um dos mais populares do cinema - não se importam muito com os clichês que as cercam. Por isso não deixa de ser saudável que um filme como "Descompensada" tenha feito tanto sucesso de bilheteria, alcançando uma marca superior a 100 milhões de dólares somente no mercado doméstico: mesmo subvertendo muitas das regras básicas ditadas pela indústria quando se trata de histórias de amor tradicionais, o filme escrito e estrelado por Amy Schumer é, no fundo, mais um exemplar do estilo, mas distorce seus elementos de forma tão debochada e contemporânea que soa como uma lufada de ar fresco em um universo bastante engessado. A começar pela presença de Schumer, cujo visual "gente como a gente" já a distancia das princesas bem vestidas e de corpo escultural que protagonizam tais histórias, o divertido filme dirigido por Judd Apatow - considerado o mestre das comédias adultas realizadas em Hollywood desde o sucesso de "O virgem de 40 anos", lançado em 2005 - foge dos estereótipos e aposta na reversão de papéis para conquistar o público. O resultado? Até mesmo a plateia masculina, normalmente avessa a comédias românticas, acaba se deixando seduzir pelo humor cáustico e no limite do chulo oferecido pelo roteiro.

Longe de ser a donzela desprotegida, frágil e romântica que se poderia esperar, a protagonista de "Descompensada" - sintomaticamente batizada de Amy, como a roteirista e atriz principal - é uma jornalista adepta de baladas, bebedeiras e sexo casual que não passa os dias esperando o príncipe encantado e nem acredita muito nessa história toda de "e foram felizes para sempre". Ao contrário da irmã caçula, Kim (Brie Larson, Oscar de melhor atriz por "O quarto de Jack"), Amy levou muito a sério o discurso de seu pai para justificar as traições à sua mãe e não vê muitas vantagens na monogamia e na fidelidade. Tudo começa a mudar quando ela é escalada por sua arrogante chefe, Dianna (Tilda Swinton, surpreendente), para uma série de entrevistas com um jovem médico chamado Aaron Conners (Bill Hader), conhecido como cirurgião de celebridades esportivas. Logo de cara Amy vai pra cama com o entrevistado, mas, ao contrário do que poderia esperar, a relação aos poucos vai se tornando mais séria, para seu desespero e surpresa. O problema é que Amy não sabe comportar-se em uma relação duradoura, e quando Aaron assume estar apaixonado tudo que ela consegue fazer é trocar os pés pelas mãos.


Fazendo piada a respeito de qualquer assunto sem medo de soar politicamente incorreto, o roteiro de "Descompensada" é uma sucessão de bobagens extremamente divertidas, que mesclam o típico humor "vergonha alheia" com momentos bastante inteligentes, com diálogos repletos de referências culturais, com direito até a participações especiais de Daniel Radcliffe e Marisa Tomei - em um filme dentro do filme - e Matthew Broderick e Martin Short como eles mesmos (uma prova do poder de fogo de Appatow em Hollywood). O que mais chama a atenção no filme, no entanto, é sua coragem em ter uma protagonista tão fora dos padrões de beleza e comportamento ditados por Hollywood através dos anos. Com um linguajar de corar cantores de funk e atitudes de fazer muitas moderninhas de plantão se roer de inveja, Amy dificilmente pode ser considerada uma heroína convencional, mas o carisma de Schumer (em um papel que é a sua cara) é o bastante para que a plateia fique do seu lado mesmo quando ela comete uma série de erros que podem comprometer sua felicidade. Suas cenas com a irmã e o enteado dela (um moleque nerd que mais a apavora do que qualquer outra coisa) são hilariantes, e sua química com Bill Hader é inegavelmente perfeita. Hader - que já havia demonstrado ser um ótimo parceiro de cena quando interpretou o irmão gay de Kristen Wiig em "Irmãos Desastre" (2014) - se confirma como um ator versátil e dono de uma simpatia contagiante, a perfeita definição de cara normal, com quem o espectador pode facilmente se conectar. Juntos, eles formam o mais improvável dos casais - e por isso mesmo parecem tão reais.

As fãs de histórias de amor mais convencionais talvez se incomodem com o tanto de subversão de "Descompensada", que não hesita em quebrar todos os paradigmas da comédia romântica. Porém, aquelas que se despirem de preconceitos e estiverem dispostas a rir de si mesmas podem ter uma bela surpresa: poucas vezes um filme do gênero conseguiu ser tão abusado, ousado e sem papas na língua. Amy Schumer não tem medo de servir de material para suas próprias piadas e, ao contrário do que normalmente acontece, os coadjuvantes são tratados com inteligência e sensibilidade - desde o pai irascível da protagonista até seus colegas de trabalho (em especial a chefe vivida por Tilda Swinton e o estagiário interpretado por Ezra Miller, seu filho no drama "Precisamos falar sobre o Kevin", de 2011): são personagens secundários, sim, mas com importância o bastante para determinar alguns rumos da narrativa e fazer rir ao mesmo tempo - a cena em que Amy vai pra casa do colega adolescente e descobre que ele tem preferências sexuais um tanto exóticas é, sem dúvida, candidata à antológica.

Ainda é cedo para dizer se Amy Schumer - atriz com a mesma verme cômica de Tina Fey, Amy Pohler e Kristen Wiig - irá firmar-se no universo do humor hollywoodiano ou se é apenas fogo de palha. Indicada ao Golden Globe ela já foi - assim como seu filme. Aprovada pelo público idem. Resta ficar de olho e descobrir se fará as escolhas certas para manter-se no jogo ou se irá ser relegada a um injusto esquecimento. Até lá, é deliciar-se com as desventuras amorosas e sexuais de seu encantador alter-ego.

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