quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

FEBRE DE JUVENTUDE

FEBRE DE JUVENTUDE (I wanna hold your hand, 1978, Universal Pictures, 104min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Robert Zemeckis, Bob Gale. Fotografia: Donald M. Morgan. Montagem: Frank Moriss. Figurino: Roseanna Norton. Direção de arte/cenários: Peter Jamison/John Dwyer. Produção executiva: Steven Spielberg. Produção: Tamara Asseyev, Alex Rose. Elenco: Nancy Allen, Susan Kendall Newman, Theresa Saldana, Bobby DiCicco, Marc McClure, Wendie Jo Sperber, Eddie Deezen, Will Jordan. Estreia: 21/4/78

Hoje em dia é impossível acreditar que um dia um estúdio de Hollywood pudesse pensar duas vezes diante de um projeto que reuniria os Beatles, Robert Zemeckis e Steven Spielberg. Mas em 1978 as coisas eram bem diferentes: se a banda inglesa ainda era a maior do planeta mesmo tendo se separado há quase uma década e Spielberg já estava a caminho de tornar-se o cineasta mais bem-sucedido da história - já tinha no currículo "Tubarão" (75) e "Contatos imediatos de terceiro grau" (77) - o mesmo não poderia ser dito a respeito de Zemeckis, ainda inexperiente em comandar um longa-metragem para cinema. Escolhido pelo próprio Spielberg para dirigir a comédia "Febre de juventude", apesar da relutância da Universal, o cineasta que mais tarde encheria os cofres do estúdio com a trilogia "De volta para o futuro", o misto de animação e comédia "Uma cilada para Roger Rabbit" (88) e o multi-oscarizado "Forrest Gump: o contador de histórias" (95) só foi efetivamente contratado depois da promessa formal de que seu padrinho artístico assumiria as rédeas caso as filmagens estivessem sendo um desastre. Precaução desnecessária: não apenas "Febre de juventude" apontou no jovem cineasta um senso invejável de ritmo como tornou-se, com o passar do tempo, em um filme cult, um clássico das sessões da tarde, capaz de estampar um sorriso no rosto do espectador sem fazer muita força para isso.

É difícil não simpatizar de cara com "Febre de juventude", tanto por sua trama ingênua e repleta de nostalgia quanto por seu elenco, formado por jovens atores desconhecidos que encarnam seus personagens com uma garra contagiante. A história se passa em fevereiro de 1964, mais precisamente nos dias em que os Beatles chegaram pela primeira vez aos EUA, para uma apresentação no programa de Ed Sullivan, em horário nobre na televisão. Sua presença em solo americano acende ainda mais a beatlemania já instaurada entre os adolescentes e jovens e o roteiro esperto de Zemeckis e Bob Gale - posteriormente indicado ao Oscar por "De volta para o futuro" - se concentra em um grupo específico de amigas, moradoras de Nova Jersey, que, por motivos diversos, resolvem fazer a travessia à Nova York para testemunhar esse momento histórico na cultura pop. Pam (Nancy Allen) reluta em acompanhar as amigas porque está às vésperas de casar-se, mas decide que nada melhor do que uma pequena aventura para marcar sua despedida de solteira. Grace (Theresa Saldana) quer dar um passo à frente em sua vocação como fotógrafa e conseguir uma imagem exclusiva do grupo para vender a alguma revista. Rosie (Wendie Jo Sperber) é apaixonada por Paul McCartney e sonha em conhecer seu ídolo. E Janis (Susan Kendall Newman, filha do ator Paul Newman) é uma jovem politicamente ativa que acredita que o rock está eclipsando a verdadeira música de protesto de gente como Joan Baez e Bob Dylan. Juntam-se a elas o tímido Larry (Marc McClure) - cujo pai tem um carro que pode ajudá-las na viagem - e o encrenqueiro Tony Smerko (Bobby Di Cicco), que une-se à Janis em sua cruzada contra a banda inglesa.


Sem confundir-se com os inúmeros focos narrativos que acompanham suas personagens, o roteiro de "Febre de juventude" é o divertido retrato de uma época que ainda mantinha resquícios de ingenuidade, apesar do trauma da morte de JFK, ocorrida poucos meses antes dos acontecimentos mostrados no filme. Embalado na trilha sonora recheada com os maiores sucessos dos Beatles, a produção de Zemeckis convida o espectador a uma divertida e nostálgica viagem no tempo, revelando em sequências hilariantes a verdadeira obsessão das fãs pela banda. Não faltam gritos histéricos, desmaios e uma sucessão de pequenas anedotas para emoldurar as desventuras das protagonistas, que aproveitam os dois dias para realizarem uma espécie de jornada rumo à vida adulta: nenhuma delas passa incólume pela experiência, seja em termos pessoais ou emocionais. Pam passa a questionar sua decisão de casar; Grace substitui a ambição profissional à toda prova pela lealdade; Janis aceita abdicar do radicalismo e respeitar as diferenças; e Rosie descobre o amor inesperadamente. Mesmo que muitas vezes não fuja dos estereótipos - talvez pela opção em concentrar-se na ação mais do que no aprofundamento das personagens - "Febre de juventude" apresenta seus personagens com respeito e carinho, transformando em comédia seus percalços sem apelar para o caminho fácil da ridicularização. A sensibilidade imposta por Zemeckis equilibra com perfeição o humor quase infantil de alguns momentos, oferecendo ao resultado final uma interessante camada extra de inteligência que o diferencia de outras produções do gênero.

Realizado com um orçamento mínimo e sem maiores pretensões, "Febre de juventude" não foi um sucesso de bilheteria, mas deixou claro para a Universal o talento de Robert Zemeckis como contador de histórias e de Steven Spielberg como produtor executivo - uma função que o diretor de "Caçadores da Arca Perdida" (81) iria desempenhar religiosamente a partir de então. Leve, engraçado e valorizado pela trilha sonora arrebatadora a cargo do quarteto de Liverpool, é um passatempo divertido e nostálgico, sem contraindicações e dotado de um humor ingênuo e cativante. Pode não despertar gargalhadas histéricas o tempo todo, mas é uma comédia muito acima da média que, assim como "Loucuras de verão" (73), de George Lucas, remete a um passado então recente com extremo carinho e saudade. Um belo programa.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

CIDADÃO X

CIDADÃO X (Citizen X, 1995, HBO Pictures, 105min) Direção: Chris Gerolmo. Roteiro: Chris Gerolmo, livro de Robert Cullen. Fotografia: Robert Fraisse. Montagem: William Goldenberg. Música: Randy Edelman. Figurino: Maria Hruby. Direção de arte/cenários: Jószef Romvári/Lóránt Jávor. Produção executiva: Laura Bickford, Matthew Chapman, David R. Ginsburg. Produção: Timothy Marx. Elenco: Stephen Rea, Donald Sutherland, Max Von Sydow, Jeffrey DeMunn, Imelda Staunton, Joss Ackland. Estreia: 25/02/95

Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Coadjuvante em Filmes, Séries ou Minisséries (Donald Sutherland)

O mais famoso e cruel assassino serial da história da Rússia, Andrei Chikatilo, acumulou mais de 50 mortes no período compreendido entre 1978 e 1992. Suas vítimas eram predominantemente menores de idade, meninos e meninas que violentava, assassinava e mutilava enquanto era incansavelmente caçado pela polícia, incapaz de acreditar que seu país pudesse ser o cenário de tamanhas atrocidades. Finalmente preso e condenado, Chikatilo virou manchete pelo mundo todo, e não demorou para que sua história se mostrasse material ideal para uma adaptação para o cinema. Para surpresa de muitos, porém, quem passou à frente dos grandes estúdios de Hollywood foi a televisão: produzido pela HBO - anos antes de tornar-se uma marca famosa pela qualidade de seus produtos - o telefilme "Cidadão X" estreou nos EUA exatamente um ano depois do desfecho da aterrorizante trajetória do monstro russo, e, com um elenco de grandes atores e a ousadia de não aliviar a violência da trama, acabou por mostrar-se uma bela opção de entretenimento para os fãs do gênero.


Fazendo algumas modificações na história original - principalmente em relação à dinâmica entre o principal investigador do caso e seus superiores - o roteiro de "Cidadão X" começa com a descoberta do corpo de uma adolescente em uma floresta. Insatisfeito com a forma com que sua equipe lidou com o caso, o dedicado Viktor Bukarov (Stephen Rea) pede que façam uma busca mais rigorosa no local do crime, à procura de mais indícios. Para sua surpresa, outros sete corpos são localizados enterrados nas proximidades, o que logo lhe deixa claro de que são todas vítimas de um mesmo assassino. Disposto a investigar a fundo o caso, ele conta com o apoio do Coronel Mikhail Fetisov (Donald Sutherland), que, sabendo como lidar com os meandros da política comunista e suas idiossincrasias, lhe oferece toda a ajuda possível, inclusive um encontro com um experiente psiquiatra, Alexandr Bukhanovsky (Max Von Sydow), que traça o perfil psicológico do criminoso a ser caçado, a quem passam a chamar de Cidadão X. Anos e anos se passarão, no entanto, antes que Viktor finalmente consiga por as mãos no monstruoso homicida, que se esconde sob a personalidade de um respeitável homem comum, funcionário de uma fábrica e discreto pai de família.



Ao optar por revelar a identidade do assassino logo no começo do filme - em impressionante atuação de Jeffrey DeMunn - e focar na quase obsessiva investigação de Viktor e seus problemas com as autoridades policiais russas, "Cidadão X" corria o risco de ver seu suspense diluído e, portanto, o interesse diminuído por parte da plateia. Porém, com um roteiro inteligente e uma edição sóbria - que sublinha os momentos de tensão sem que pareçam óbvios ou excessivamente sanguinolentos - a trama é conduzida sem sobressaltos, se equilibrando entre o enredo policial e uma (nem tão) sutil crítica à burocracia da Rússia comunista pré-Perestroika. Stephen Rea mais uma vez brinda o espectador com uma interpretação minimalista, sem maiores arroubos de genialidade, mas consistente o bastante para servir como os olhos da plateia diante da série de horrores que testemunha. Donald Sutherland ganhou um Golden Globe por seu desempenho como o chefe de Rea, mas é Max Von Sydow que praticamente rouba a cena, mesmo aparecendo em poucas mas cruciais sequências: seu embate com o cruel Chikatilo, já no terço final do filme, é de arrepiar, assim como todas as cenas em que o vilão se prepara para dar o bote em suas presas. Mesmo sem inovar na estética ou na narrativa, Chris Gerolmo consegue manter a tensão até o minuto final, que mostra o destino do serial killer com extrema elegância e sutileza.

Apesar da linguagem televisiva - e de conseguir driblar suas limitações com criatividade e bom senso - "Cidadão X" é, antes de tudo, uma excelente história, contada de forma correta e sóbria, com um elenco acima de qualquer crítica. Pode incomodar àqueles que procuram uma obra-prima do gênero, mas aqueles que o encararem como o que ele realmente é - um telefilme acima da média, realizado com extremo cuidado e talento - podem se surpreender e ver que a HBO já estava, na metade dos anos 90, a caminho de sua excelência técnica e criativa. Uma bela opção para quem gosta do gênero.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

ALEXANDRIA

ALEXANDRIA (Agora, 2009, Mod Producciones/Himenóptero, 127min) Direção: Alejandro Amenábar. Roteiro: Alejandro Amenábar, Mateo Gil. Fotografia: Xavi Giménez. Montagem: Nacho Ruiz Capillas. Música: Dario Marianelli. Figurino: Gabriella Pescucci. Direção de arte/cenários: Guy Hendrix Dyas/Larry Dias. Produção executiva: Simón de Santiago, Jaime Ortiz de Artiñano. Produção: Álvaro Augustin, Fernando Bovaira. Elenco: Rachel Weisz, Max Minghella, Oscar Isaac, Ashraf Barhom, Michael Lonsdale, Rupert Evans. Estreia: 17/5/09 (Festival de Cannes)

Houve uma demora de cinco anos entre o lançamento de "Mar adentro" - Oscar de melhor filme estrangeiro em 2005 - e "Alexandria", realização seguinte do cineasta chileno Alejandro Amenábar. Nada de novo: entre "Os outros" (2001), seu primeiro grande sucesso internacional, e "Mar adentro", que lhe deu reconhecimento e prestígio entre a crítica, o intervalo já havia sido de consideráveis três anos - uma eternidade dentro da veloz indústria hollywoodiana, mas um período de tempo relativamente aceitável quando se trata de diretores detalhistas e dedicados a projetos menos óbvios. É o caso de "Alexandria", que custou bastante caro (cerca de 70 milhões de dólares) para uma produção sem grandes efeitos visuais ou garantia de retorno (leia-se chamarizes de bilheterias, como grandes astros ou personagens facilmente identificáveis, como super-heróis ou personalidades conhecidas da plateia) e acabou pagando um preço alto por sua ousadia. Praticamente ignorado pela crítica e um fiasco comercial, a história da filósofa e astrônoma grega Hipátia não encontrou seu público e terminou sua carreira nos cinemas com uma renda pouco superior a 700 mil dólares de arrecadação. Tal desastre não apenas arranhou seriamente a reputação de Amenábar - que só retornou aos longas com o péssimo "Regressão" (2015) - mas privou a plateia de conhecer um filme que, se não é tão bom quanto os trabalhos anteriores do cineasta, ao menos tem uma inteligência muito acima da média - e uma relevância histórica extremamente importância em uma época de tanta intolerância religiosa como a atual.

Como o próprio título nacional sugere, o filme se passa em Alexandria, cidade egípcia famosa por seu farol e por sua biblioteca, considerada a maior do mundo. É lá, no ano de 391 que a trama, criada por Amenábar e Mateo Gil, tem início: Hipátia (Rachel Weisz, esforçada) é uma brilhante filósofa que leciona na célebre biblioteca local, ensinando a seus discípulos as ainda rudimentares noções de astronomia, além de matemática e filosofia. Bonita e inteligente, ela se dedica incansavelmente ao estudos dos movimentos dos corpos celestes, enquanto rejeita delicadamente as investidas de Orestes (Oscar Isaac em começo de carreira), um de seus alunos, e de Davus (Max Minghella), seu escravo pessoal. Em um período conturbado pelos conflitos entre cristãos, judeus e pagãos, ela precisa também manter-se no fio da navalha: racional, ela não sente-se à vontade em nenhuma religião, mas sabe que isso é potencialmente perigoso para sua integridade física. Quando os cristãos tomam o poder, graças à liderança de Cirilo (Sammy Samir) e Ammonius (Ashraf Barhom), ela não consegue impedir a destruição da biblioteca nem tampouco a violência que explode nas ruas da cidade. Vinte anos mais tarde, as coisas ainda estão delicadas: seu ex-aluno, Orestes, é o prefeito, mas não concorda com as atitudes radicais dos cristãos - que querem impor suas leis e perseguir quem lhes é contrário - e, com a ajuda de um antigo colega, Synesius (Rupert Evans), tornado bispo, tenta convencê-la a converter-se ao cristianismo como forma de manter suas aulas. Hipátia se recusa e entra em rota de colisão com o poder.


Ainda que encontre em Hipátia uma protagonista interessante e que serve como fio condutor de uma trama que tenta retratar a histórica rivalidade entre judeus e cristãos, o roteiro de "Alexandria" esbarra em uma comprometedora ausência de foco narrativo que enfraquece suas redentoras qualidades. Ao abraçar simultaneamente a trajetória da filósofa e os acontecimentos trágicos e violentos à sua volta, relacionados com a intolerância, Amenábar acaba por optar pela superficialidade em ambos os terrenos. A rica história de Hipátia muitas vezes fica em segundo plano - e frequentemente suas cenas são resumidas a longas explanações sobre seus estudos de Astronomia e suas questões relativas ao Universo: essa falta de aprofundamento em sua personalidade acaba por mostrar-se crucial, impedindo uma aproximação maior do público até mesmo quando o filme força um triângulo amoroso um tanto improvável entre ela, Davus e Orestes. Tal artifício, ao invés de envolver a plateia, acaba por diluir o impacto de algumas de suas melhores sequências - aquelas que mostram, de maneira sutil e elegante (mas sempre contundentes) os perigos que cercam o fanatismo e a falta de empatia entre as religiões. Essa indecisão narrativa, somada a um ritmo claudicante, enfraquece o conjunto, restando ao espectador apenas a opção de avaliar o filme por suas partes.

Se o roteiro falha em aprofundar seus temas e se distancia tanto do épico religioso quanto do romance, cabe ao elenco escolhido por Amenábar dar conta dessas inconsistências. E nesse quesito o cineasta não pode reclamar. Bom diretor de atores, o chileno tem em Rachel Weisz seu principal apoio: em um papel escrito especificamente para ela, a atriz premiada com o Oscar por "O jardineiro fiel" (2005) pode não estar em seu melhor desempenho, mas tem força dramática o suficiente para segurar uma personagem de cuja vida pessoal pouco se sabe e transformá-la em alguém de carne e osso, verossímil mesmo quando a trama escorrega para a tragédia. Oscar Isaac, ainda antes de conhecer o gostinho da fama, faz o que pode com seu Orestes, que começa como um potencial vilão e se transforma em um dos grandes apoiadores da protagonista - a cena em que desafia Cirilo e se recusa a ajoelhar-se diante da Bíblia é intensa e emocionante. Mas o maior destaque do elenco é o jovem Max Minghella, filho do diretor Anthony Minghella, vencedor do Oscar por "O paciente inglês" (96): com o ingrato papel do escravo cristão Davus, que assume importância crucial conforme a história vai avançando, Max demonstra maturidade e sensibilidade, assumindo todas as nuances de seu personagem com coragem e determinação de veterano - até mesmo sua transformação física é crível e realista. O cuidado de Amenábar em extrair o melhor de seus atores é seu maior trunfo: "Alexandria" fica marcado na mente do público justamente por causa deles, que dão vida a um argumento muitas vezes frágil e ambicioso demais. Ainda assim, é um filme injustiçado, que merece uma segunda chance.

domingo, 18 de dezembro de 2016

OS OITO ODIADOS

OS OITO ODIADOS (The hateful eight, 2015, Double Feature Films, 187min) Direção e roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Fred Raskin. Música: Ennio Morricone. Figurino: Courtney Hoffman. Direção de arte/cenários: Yohei Taneda/Rosemary Brandenburg. Produção executiva: Georgia Kacandes, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Richard N. Gladstein, Shannon McIntosh, Stacey Sher. Elenco: Kurt Russell, Samuel L. Jackson, Jennifer Jason Leigh, Walter Goggins, Bruce Dern, Michael Madsen, Tim Roth, Demián Bichir, James Parks, Channing Tatum. Estreia: 07/12/15

3 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Jennifer Jason Leigh), Fotografia, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Melhor Trilha Sonora Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Trilha Sonora Original 

Já nem é mais novidade: a cada filme novo de Quentin Tarantino que chega às telas o mundo se divide entre aqueles que o incensam como um dos mais originais e inventivos cineastas norte-americanos já existentes e aqueles que questionam seu talento e criatividade, lançando mãos de críticas que - vá lá - até fazem certo sentido sob determinados pontos de vista. Porém, a verdade é que, independente do fato de gravitar sempre em um universo todo particular (aparentemente localizado em algum lugar entre os anos 70 e 80 e povoado de filmes de baixo orçamento e roteiros pra lá de bizarros), Tarantino é um dos poucos diretores em atividade no cinema americano ainda capazes de suscitar tanta discussão e despertar tanto interesse da mídia, do público e da crítica. E não poderia ser diferente em relação a "Os oito odiados", seu oitavo longa, que correu o sério risco de jamais ver a luz dos projetores quando teve seu roteiro vazado antes mesmo da fase de pré-produção. Furioso com o imprevisto - e coberto de razão - Tarantino quase desistiu do projeto mas, convencido pelo amigo Samuel L. Jackson (apaixonado pela história e pelos personagens), voltou atrás na decisão. Sorte dos fãs inveterados (que encontrarão no filme, em versão exagerada, tudo que o diretor sempre ofereceu em seus trabalhos anteriores) e azar dos detratores (que, se arriscarem uma sessão, podem correr o risco de uma overdose de longos diálogos, sangue aos borbotões e maneirismos técnicos que a tantos agrada e a tantos outros repele).

Revisitando um gênero caro à sua memória afetiva, o western (que já havia homenageado com propriedade no ótimo "Django livre"), Tarantino acrescenta a "Os oito odiados" um clima de mistério à Agatha Christie e um tom teatral que enfatiza como nunca sua facilidade absurda de criar diálogos inspiradíssimos e personagens antológicos em situações extremas. Situando sua trama em um período imediatamente posterior à Guerra de Secessão, o diretor joga o público direto no gélido frio do Wyoming, onde a diligência do caçador de recompensas John Ruth (Kurt Russell em um grande momento da carreira) encontra um concorrente, o famoso Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson mostrando porque é um dos maiores atores americanos de sua geração, especialmente quando dirigido por Tarantino). Warren pede que Ruth lhe dê uma carona (e aos cadáveres que ele pretende trocar por uma gorda quantia de dólares) até a cidade de Red Rock e não demora para juntar-se a ele e à sua prisioneira, Daisy Domergue (a sensacional Jennifer Jason Leigh) na difícil viagem rumo a seu destino. Domergue é uma assassina procurada que Ruth tem a intenção de entregar ao carrasco de Red Rock e todos eles se surpreendem quando, ainda no caminho em direção à cidade, eles dão de cara com Chris Mannix (Walton Goggins), que alega ser o novo xerife do local e que também pede ajuda para chegar até lá.

No meio do caminho, devido a uma nevasca, a diligência se vê obrigada a fazer uma parada inesperada na estalagem de Minnie Mink (Dana Gourrier), uma conhecida de Warren que, em viagem para visitar a mãe, deixou o local aos cuidados do mexicano Bob (Demian Bichir). Juntando-se aos demais hóspedes também presos na hospedaria - o carrasco Oswaldo Mobray (Tim Roth), o lacônico Joe Gage (Michael Madsen) e o veterano General Sandy Smithers (Bruce Dern) - os novos visitantes não demoram a perceber um clima de tensão e desconfiança no ar. O que ninguém sabe, porém, é que os comparsas de Daisy não tem a menor intenção de permitir que ela seja entregue e enforcada, e que tem um plano elaborado para resgatá-la antes de sua chegada a Red Rock. Caberá então ao perspicaz Major Warren descobrir quem do grupo reunido na hospedaria está ao lado da temida e debochada assassina.


"Os oito odiados" é Tarantino do primeiro frame - os créditos com o mesmo design dos letreiros já trai suas origens - ao último minuto - que chega somente depois de quase três horas de duração. Muitos reclamam da demora em começar a ação propriamente dita (tiros, sangue, violência), mas é difícil sentir-se incomodado ao ver em cena atores tão fantásticos - Samuel L. Jackson, Michael Madsen, Tim Roth, Bruce Dern e Jennifer Jason Leigh (os três primeiros repetindo a parceria com o diretor e Jennifer merecidamente indicada ao Oscar de coadjuvante) - desfilando seu talento pela tela. Com o auxílio luxuoso da bela fotografia de Robert Richardson (também indicada ao Oscar) e da sensacional trilha sonora do veterano Ennio Morricone (vencedor de sua primeira estatueta por seu trabalho), o filme realmente aparenta ter um problema de ritmo - só depois de uma hora e meia é que as coisas realmente começam a acontecer - mas basta olhar com atenção para perceber que nada é por acaso, nenhum diálogo é supérfluo e a longa duração serve para mergulhar o espectador na tensão indispensável ao clímax sanguinolento, de dar inveja à carnificina de "Cães de aluguel", filme de estreia de Tarantino e que o colocou, de primeira, no coração dos cinéfilos e da crítica.

Com uma violência estilizada que enfatiza seu humor nigérrimo - Jennifer Jason Leigh passa o filme inteiro sendo espancada, para horror das feministas - e o tom politicamente incorreto que sempre caracterizou a obra do diretor, "Os oito odiados" é a cara de seu criador. Seus diálogos são longos e expressivos. Sua violência é um misto de crueza e humor negro. Seu linguajar é cortante e realista, Não é uma obra-prima como "Pulp fiction, tempo de violência" ou "Bastardos inglórios", mas é mais uma declaração incontestável de um estilo cinematográfico que já está indelevelmente marcado na cultura popular norte-americana e mundial há pelo menos duas décadas, quer se goste ou não. Falem bem ou falem mal, é impossível ficar indiferente a um filme de Quentin Tarantino. E de quantos artistas se pode dizer o mesmo hoje em dia?

sábado, 17 de dezembro de 2016

MUNDO CÃO

MUNDO CÃO (Mundo cão, 2016, Zencrane Filmes/Globo Filmes, 101min) Direção: Marcos Jorge. Roteiro: Marcos Jorge, Lusa Silvestre. Fotografia: Toca Seabra. Montagem: André Finotti. Figurino: Cássio Brasil. Direção de arte/cenários: Valdy Lopes. Produção executiva: Cláudia da Natividade, Rune Tavares, Rodrigo Sarti Werthein. Produção: Iafa Britz. Elenco: Lázaro Ramos, Babu Santana, Adriana Esteves, Milhem Cortaz, Thainá Duarte, Vini Carvalho, Paulinho Serra. Estreia: 17/3/16

Dividido entre o sucesso comercial de comédias populares - normalmente de qualidade abaixo da média - e filmes com temática policial, o cinema nacional volta e meia tenta dar alguns passos em direção a outros gêneros e enfoques, nem sempre com muito êxito. Um dos exemplos positivos dessa constante busca por novos ares é "Mundo cão", um suspense urbano que tira proveito dos altos índices de intolerância e violência das cidades grandes para mergulhar o público em um pesadelo realista e perturbador. Seguindo a mesma linha do sensacional "O lobo atrás da porta", de Fernando Coimbra, o cineasta Marcos Jorge - que tem no currículo o elogiado "Estômago" (2007) - constrói sua trama dentro de uma realidade plausível e facilmente reconhecível pela plateia, transformando a segurança do lar e da família em um ambiente de medo e angústia. Pode não atingir o mesmo nível de desconforto, mas surpreende pela brutalidade psicológica e pela coragem de eleger como protagonista um cidadão comum e desprovido de qualquer tipo de heroísmo. É a vida real transposta para a tela, ainda que envernizada pela força da ficção e da linguagem cinematográfica.

O cenário é a São Paulo de 2007, antes da extinção da lei que permitia o sacrifício de animais abandonados. O protagonista é Santana (Babu Santana), que trabalha no Departamento de Combate às Zoonoses, recolhendo cães perigosos pelas ruas da cidade ao lado do colega, Ramiro (Paulinho Serra). Bom marido, pai dedicado e homem religioso, Santana nem imagina que toda a sua estrutura doméstica pode vir abaixo quando é chamado à uma escola por conta de um animal raivoso que está assustando as crianças. Trabalhando conforme a lei, os dois colegas levam o cachorro para o Centro, onde esperam o prazo de três dias antes que profissionais especializados o sacrifiquem. Quando o dono do animal aparece é que a coisa complica: Nenê (Lázaro Ramos) é um ex-presidiário, agressivo e explosivo, cuja renda vem parcialmente de rinhas entre cães - e, inconsolável com a perda de um de seus maiores campeões, resolve vingar sua morte. Quem acaba sendo escolhido como alvo para tal retaliação é justamente Santana, que parte em defesa própria no meio de uma discussão e deflagra uma guerra interna com resultados imprevisíveis.


A batalha que se segue - com a vingança de Nenê e a posterior revanche de Santana - é digna dos mais empolgantes filmes de suspense americanos. O roteiro não para de levar o espectador a caminhos os mais diversos, nunca deixando antever os próximos passos de seus personagens. Como um reflexo da irracionalidade animal, suas atitudes partem sempre em direção a consequências mais e mais violentas e incontroláveis, que atingem a todos que os cercam. É assim que Santana, pacífico pai de família, abandona a civilidade quando o que considerava sua maior fortaleza - seu lar em um subúrbio tranquilo - é maculado pela intensidade do ódio. Ao perceber que nem sua mulher, Dilza (Adriana Esteves, ótima), nem seus dois filhos - a adolescente Isaura (Thainá Duarte) e o menino João (Vini Carvalho) - estão a salvo da impetuosidade cruel de Nenê, ele deixa de lado todo e qualquer resquício de humanidade para tornar-se alguém capaz de defender o que lhe resta de dignidade e paz. Esse paradoxo é o grande trunfo do filme de Marcos Jorge: a violência como forma de recuperar a paz.

Com uma direção seca e pontual, que destaca as atuações viscerais de Babu Santana e Lázaro Ramos - o primeiro a quilômetros de distância do Tim Maia que lhe revelou ao grande público e o segundo com um registro de vilão construído em detalhes - "Mundo cão" é um artigo raro dentro da produção de cinema brasileiro. Apostando em um gênero ainda pouco explorado mas repleto de possibilidades, Marcos Jorge oferece ao público uma história forte, sustentada por atores competentes e uma tensão constante, que vai sendo ampliada conforme se percebe todos os seus desdobramentos. Ainda que em algum momento perto do desfecho o ritmo caia um pouco - até como forma de preparar o clímax, irônico e cruel - a edição se equilibra entre a agilidade necessária a um filme com ambições comerciais e a suavidade de uma obra que procura dialogar com discussões mais sérias do que simplesmente jogar nas telas uma sucessão de tragédias. Se sai bem na maior parte do tempo, envolvendo a plateia em sua rede desde as primeiras cenas, e só não é ainda melhor por estender-se demais no terceiro ato. Um pecado menor em um filme que está bem acima da média da produção comercial brasileira.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

A VISITA

A VISITA (The visit, 2015, Blinding Edge Pictures/Blumhouse Produtions, 94min) Direção e roteiro: M. Night Shyamalan. Fotografia: Maryse Alberti. Montagem: Luke Ciarrocchi. Figurino: Amy Westcott. Direção de arte/cenários: Naaman Marshall/Dennis Madigan, Christine Wick. Produção executiva: Ashwin Rajan, Steven Schneider. Produção: Marc Bienstock, Jason Blum, M. Night Shyamalan. Elenco: Olivia DeJonge, Ed Oxenbuld, Deanna Dunagan, Peter McRobbie, Kathryn Hahn. Estreia: 30/8/15 (Dublin)

Nada como um reboot na própria carreira para recuperar o prestígio perdido. Que o diga M. Night Shyamalan, que depois de tornar-se diretor de um dos maiores sucessos da história do cinema, "O sexto sentido" (99) - e de ter sido indicado ao Oscar por ele - entrou em uma curva descendente das mais violentas de que se tem notícia em Hollywood, culminando em produções massacradas impiedosamente por crítica e público, como "O último mestre do ar"  (2010) e "Depois da Terra" (2013). Sabendo que a única forma de retomar as rédeas da carreira seria voltando a assumir o controle artístico total de sua obra, Shyamalan respirou fundo, bancou sozinho o orçamento de meros cinco milhões de dólares e, com liberdade irrestrita, voltou às boas graças com a imprensa e a plateia. "A visita" pode não chegar aos pés de seu filme mais famoso - tanto em qualidade quanto em bilheteria - mas prova, sem sombra de dúvida, que seu talento em provocar tensão e arrepios ainda se mantém intacto, assim como sua incrível capacidade de arrancar performances memoráveis de seus atores juvenis.

Se em "O sexto sentido" o diretor revelou Haley Joel Osment, que chegou a ser indicado ao Oscar de coadjuvante para depois desaparecer do radar de Hollywood como mais uma criança-prodígio que não soube superar a adolescência, em "A visita" ele multiplica a equação por dois, ainda que sem a mesma potência. A ótima Olivia DeJonge e o carismático Ed Oxenbuld vivem os irmãos Becca e Tyler, os protagonistas de uma trama bizarra e assustadora justamente por estar seriamente calcada na verossimilhança, assim como os demais filmes de Shyamalan, capaz de transformar um filme de super-herói em um drama psicológico dos mais atraentes, como fez em "Corpo fechado" (2000). Becca e Tyler são dois pré-adolescentes criados pela mãe (Kathryn Hahn), depois que seu pai os abandonou por outra mulher. Ainda não totalmente recuperados da perda, eles recebem o convite dos avós maternos para que passem uma semana em sua fazenda enquanto sua mãe viaja com o novo namorado. O convite não seria nada demais se não fosse por um detalhe importantíssimo: eles não conhecem os avós, que cortaram relações com a filha por não concordarem com seu namoro, anos antes. A tentativa de reaproximação é vista com bons olhos por Becca - que resolve filmar tudo para transformar em um documentário - e o encontro finalmente acontece. Mas então coisas estranhas começam a acontecer.


A princípio carinhosos e atenciosos, os avós (Deanna Dunagan e Peter MacRobbie) passam a demonstrar um comportamento no mínimo assustador depois que a noite cai e os netos são obrigados a permanecerem em seu quarto: ela anda nua pela casa, arranha paredes e solta ruídos apavorantes. Ele mantém algo escondido em um quarto de ferramentas. E aos poucos outras atitudes disparam o sinal de alerta em Tyler, muito mais disposto a acreditar que há algo sinistro acontecendo. Ele resolve, então, deixar uma câmera escondida na sala de estar - e a partir daí, outras revelações irão transformar uma inocente semana em família em um pesadelo de que só a mente criativa de M. Night Shyamalan é capaz, com direito a sustos, momentos de pura tensão e respiros de um humor quase inocente, que impede a trama de descambar para o terror explícito. Conduzido com mão firme pelo diretor, que abdica de trilha sonora original e aposta no já quase clichê found footage (câmera na mão, como um documentário), "A visita" acaba por conquistar o público exatamente por não ter ambições de revolucionar o gênero, e sim de enfatizar suas maiores qualidades e inclusive abraçar seus lugares-comuns. Seu ritmo é cadenciado, sem pressa de revelar antecipadamente todos os seus trunfos, e seu elenco de atores desconhecidos do grande público só deixa tudo ainda mais desconfortável.

Mesmo longe da genialidade de seus melhores trabalhos, "A visita" é um poderoso lembrete de M. Night Shyamalan à indústria que o elevou às alturas e depois praticamente o abandonou à própria sorte - em parte também por uma dose de presunção que o levou a cometer erros frequentes de avaliação sobre sua arte. Com orçamento enxuto, elenco sem astros e uma história envolvente, o cineasta mais celebrado do início dos anos 2000 recuperou parte do sucesso perdido. Que seja apenas o começo de uma nova e empolgante fase, em que o talento se sobreponha à ambição.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

O ÚLTIMO JANTAR

O ÚLTIMO JANTAR (The last supper, 1995, Columbia Pictures, 92min) Direção: Stacy Title. Roteiro: Dan Rosen. Fotografia: Paul Cameron. Montagem: Luis Colina. Música: Mark Mothersbaugh. Figurino: Leesa Evans. Direção de arte/cenários: Linda Burton/Dea Jensen. Produção executiva: David Cooper. Produção: Matt Cooper, Larry Weinberg. Elenco: Cameron Diaz, Ron Eldard, Annabeth Gish, Jonathan Penner, Courtney B. Vance,  Bill Paxton, Ron Perlman, Nora Dunn, Charles Durning, Jason Alexander. Estreia: 08/9/95 (Festival de Toronto)

Poucos gêneros são tão subestimados no cinema quanto a comédia de humor negro: frequentemente incompreendidas pela plateia (mesmo quando incensadas pela crítica), elas acabam sendo relegadas a segundo plano, como um meio-termo entre o pastelão que lota os cinemas e as comédias mais sofisticadas que costumam ganhar um ou outro prêmio da Academia. É justamente nesse nicho de mercado que se situa "O último jantar", pequena pérola lançada no Festival de Toronto de 1995, passou praticamente em branco pelas telas e ainda não teve a sorte de ser descoberta pelo grande público. Em tempos sombrios como o que vivemos, não deixa de ser confortante perceber que ainda existe gente capaz de pensar com clareza e sobriedade sobre os perigos do radicalismo social e político. Tratando o assunto com leveza e imparcialidade, o roteiro de Dan Rosen leva o espectador a questionar as próprias certezas - e de quebra, dá seu tiro de misericórdia com um toque de ironia espetacular, que abala qualquer alicerce politicamente correto.

Dirigido por Stacy Title - que depois deu seguimento à carreira com filmes de terror - "O último jantar" é uma comédia de sutilezas, que aposta basicamente em uma única situação para levar seu humor até as últimas consequências. Quem comanda a trama é um grupo de estudantes universitários de tendências políticas liberais e que dividem uma casa em uma pequena cidade do estado de Iowa que está com os nervos à flor da pele graças ao desaparecimento de uma criança. Inteligentes, articulados e bem informados, os cinco amigos tem o costume de receber para jantar, todos os domingos, pessoas com quem possam discutir assuntos polêmicos e relevantes - e assim manter o pensamento crítico e a mente aberta. Em uma noite particularmente chuvosa, porém, a rotina é quebrada involuntariamente quando o convidado é o desconhecido Zach (Bill Paxton), que deu carona a um deles, Pete (Ron Eldard), em seu caminhão. Durante a refeição, Zach não apenas se mostra totalmente contrário a tudo que eles pensam como também se torna agressivo e violento, o que resulta em um trágico assassinato. A princípio apavorados com a situação, aos poucos os amigos resolvem enterrar o corpo no quintal e esquecer o assunto. Tudo estaria relativamente em paz se o acontecimento não lhes desse uma bizarra ideia: e se, ao invés de apenas conversar com aqueles que tem pensamentos contrários aos seus eles os envenenassem?


A partir daí, o filme de Title vira uma sinistra brincadeira, onde os protagonistas escolhem suas prováveis vítimas entre as criaturas mais conservadoras e desprezíveis da região para tentar, sempre em vão, demovê-las de suas ideias pequenas e salvá-las de uma morte que elas nem sabem que está à espreita. Um padre (Charles Durning) que culpa os homossexuais pela AIDS, um machista radical (Mark Harmon) que prega a supremacia masculina e um feroz ativista contra o meio-ambiente (Jason Alexander) são alguns dos desavisados que caem nas mãos dos cada vez mais justiceiros companheiros de cruzada, que, subitamente, passam a entrar em conflito interno. Considerando que estão indo longe demais, Jude (Cameron Diaz, antes de ser catapultada para a fama) tenta fazer os amigos pararem com as execuções, mas encontra resistência principalmente em Luke (Courtney B, Vance), que considera seus atos como pura justiça. A situação só piora de vez quando, devido ao atraso de seu voo, uma celebridade controversa e extremamente perigosa (Ron Perlman) senta-se à mesa do grupo - e subverte completamente o roteiro da noite.

Ao elaborar um filme que, além de divertir, desperta questionamentos de extrema importância - afinal, o que diferencia os fascistas dos ditos "liberais"? - "O último jantar" dá um passo à frente em comparação com as comédias normalmente acéfalas que normalmente chegam ao mercado. Mesmo que não se aprofunde nos debates que provoque (o que não é sua intenção, diga-se de passagem), o roteiro faz o próprio espectador por em xeque suas convicções e certezas absolutas. Com um humor certeiro e nunca apelativo, o filme encontra na direção eficiente e simples de Stacy Title a comandante ideal - a cineasta jamais tenta sobrepujar sua história com malabarismos desnecessários de câmera ou artifícios de edição. Sua condução da trama é simples e clássica, contrastando inteligentemente com os tons surreais do roteiro. Com um elenco coeso - o resto do grupo de protagonistas é formado pelo casal Paulie (Annabeth Gish) e Marc (Jonathan Penner) - e um tema contundente, "O último jantar" deveria ser obrigatório.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

TRIÂNGULO AMOROSO

TRIÂNGULO AMOROSO (3,2010, X-Filme Creative Pool, 119min) Direção e roteiro: Tom Tykwer. Fotografia: Frank Griebe. Montagem: Mathilde Bonnefoy. Música: Reinhold Heil, Johnny Klimek, Gabriel Isaac Mounsey, Tom Tykwer. Figurino: Polly Matthies. Direção de arte/cenários: Uli Hanish/Kai Koch. Produção executiva: Uwe Schott. Produção: Stefan Arndt, Barbara Buhl, Gebhard Henke, Jorn Klamroth. Elenco: Sophie Rois, Sebastian Schipper, David Striesow, Angela Winkler, Annedore Kleist. Estreia: 10/9/10 (Bienal de Veneza)

Bem antes de unir-se aos irmãos Wachowski no ambicioso "A viagem" (2012) e na cultuada telessérie "Sense8", o alemão Tom Tykwer já dava o que falar para os fãs de cinema europeu. Em 1999, lançou o ultrapop "Corra Lola, corra", que fez seu nome percorrer festivais e consagrar-se principalmente junto à plateia mais jovem. Depois de assinar também a adaptação do best-seller "Perfume: a história de um assassino" (2006) e o thriller político "Trama internacional" (2009), estrelado por Clive Owen e Naomi Watts - nenhum deles recebidos com o esperado estardalhaço - o cineasta resolveu polemizar um pouco e voltou à sua terra natal para realizar "Triângulo amoroso", uma história de amor nada convencional que lhe permitiu utilizar seu modo particular de fazer cinema sem a interferência de estúdios americanos. Um tanto ousado mas jamais vulgar ou imoral, seu filme retrata com inteligência e sofisticação a eterna busca pela realização amorosa e sexual sem nenhum ranço reducionista ou falsamente libertário: algo de que somente o cinema europeu é capaz.

A apresentadora de TV Hanna (Sophie Rois) e o engenheiro Simon (Sebastian Schipper) vivem juntos há cerca de vinte anos e levam uma vida confortável e pacífica. Justamente quando ele está com a mãe doente e descobre ter câncer em um dos testículos, ela conhece e sente-se irremediavelmente atraída por Adam (David Stresow), um médico mais jovem que não demora em dar sinais de que também está interessado nela. Os dois tornam-se amantes e algum tempo depois, Simon conhece o rapaz no vestiário do clube que ambos frequentam. Para sua surpresa - até então um heterossexual convicto - surge uma forte desejo entre eles, e um flerte inconsequente evolui para um caso mais sério. Sem que saibam disso, portanto, o casal mantém o mesmo amante, sem que isso atrapalhe seu relacionamento, maduro e estável. Quando eles finalmente decidem se casar, porém, uma gravidez inesperada os obriga a encarar uma realidade que eles preferiam manter escondida.


Com um elenco de atores que destoam radicalmente dos conceitos de beleza do cinema comercial e uma estrutura narrativa ágil e criativa - telas paralelas constantemente empurrando a trama, sem espaço para momentos de maior reflexão - "Triângulo amoroso" é um delicioso antídoto ao asséptico cinemão americano. Mesmo que suas cenas de sexo não mostrem mais do que o convencional, sua temática é tratada com maturidade e naturalidade, jamais buscando julgar seus personagens ou apontar certo ou errado. De forma sutil e inteligente, o roteiro, escrito pelo próprio diretor, vai apresentando seus personagens como gente de carne e osso, capazes de fraquezas quase imperdoáveis mas simpáticos o bastante para que sejam compreendidos pela plateia. Com uma espécie de lema "chumbo trocado não dói", Tykwer expõe com ironia as dificuldades dos cidadãos do novo milênio em impor seus desejos, diante da cerca do conservadorismo da sociedade. Até mesmo Hanna e Simon são vítimas de tais regras de comportamento, já que, mesmo aparentemente modernos e abertos a novas experiências, são incapazes de explicitá-las. Como um pivô involuntário, cabe a Adam tentar romper, mesmo que devagar, as barreiras que ele mesmo já derrubou em sua vida - ele tem um filho e tem uma relação bastante amistosa com a mãe da criança. É ele, com seu jeito mais leve de lidar com a vastidão de possibilidades da sexualidade, que irá ser o catalisador das mudanças na vida do casal - pelo menos aquelas que eles estiverem dispostos a aceitar. O final dessa confusão toda é surpreendente.

Com um visual elegante e características próprias de contar sua história, "Triângulo amoroso" insere-se em uma quase tradição do cinema europeu de retratar relacionamentos alternativos e/ou à frente do seu tempo. Assim como François Truffaut fez em "Jules e Jim: uma mulher para dois" (62), Tom Tykwer sacode a mesmice dos contos de fada oferecidos pelo cinema ao mostrar, sem meias palavras, uma forma nova de interrelação, de acordo mais com as necessidades pessoais do que com as normas impostas pela sociedade. Seu pulo do gato foi justamente incluir na equação a bissexualidade, um tema ainda pouco discutido a sério nas telonas. Seu filme pode não ser a última palavra no assunto, mas é uma necessária lufada de ar fresco na discussão. E além de tudo, é uma obra que acredita na força da imagem e da edição - elementos cruciais para o bom cinema, utilizados com maestria e inteligência. Um filme subestimado, que tem tudo para tornar-se cult com o passar do tempo.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

SPOTLIGHT: SEGREDOS REVELADOS

SPOTLIGHT: SEGREDOS REVELADOS (Spotlight, 2015, Participant Media/First Look Media/Anonymous Content, 128min) Direção: Tom McCarthy. Roteiro: Tom McCarthy, Josh Singer. Fotografia: Masanobu Takayanagi. Montagem: Tom McArdle. Música: Howard Shore. Figurino: Wendy Chuck. Direção de arte/cenários: Stephen H. Carter/Vanessa Knoll, Shane Vieau. Produção executiva: Michael Bederman, Bard Dorros, Jonathan King, Peter Lawson, Xavier Marchand, Pierre Omidyar, Tom Ortenberg, Josh Singer, Jeff Skoll. Produção: Blye Pagon Faust, Steve Golin, Nicole Rocklin, Michael Sugar. Elenco: Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachel McAdams, Liev Schreiber, John Slattery, Stanley Tucci, Billy Crudup, Brian D'Arcy James. Estreia: 03/9/15 (Festival de Veneza)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Tom McCarthy), Ator Coadjuvante (Mark Ruffalo), Atriz Coadjuvante (Rachel McAdams), Roteiro Original, Montagem
Vencedor de 2 Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original

O jornalismo é uma das carreiras mais retratadas por Hollywood, e já inspirou clássicos absolutos, como "A montanha dos sete abutres" (51), de Billy Wilder, "Rede de intrigas" (76), de Sidney Lumet, e "Todos os homens do presidente" (76), de Alan J. Pakula. Não por acaso, esses três exemplos da relação entre o cinema e a imprensa foram algumas das inspirações do diretor Tom McCarthy na realização de seu "Spotlight: segredos revelados", um dos mais contundentes e sérios ataques já realizados pela sétima arte contra a instituição da Igreja católica. Uma das mais premiadas produções da temporada 2015 - incluindo o cobiçado Oscar de melhor filme - a obra de McCarthy (também um ator e com o delicado "O visitante", de 2008, no currículo) é um soco no estômago do espectador, contando uma história que vai ao âmago de um dos maiores escândalos religiosos do século XX, mas em momento algum apela para o sensacionalismo. Narrado em um acertado tom semi-documental que evita qualquer tipo de espetacularização da dor, é o sóbrio e seco retrato de uma investigação jornalística responsável e relevante, que ganhou o Pulitzer em 2003 e revelou, sem medo de represálias, um esquema de acobertamento de centenas de crimes de abuso sexual infantil cometidos por padres durante décadas - e que mostrou-se de dimensão internacional quando atingiu também diversos outros países, incluindo o Brasil.

Talvez o principal acerto do roteiro, escrito por Josh Singer e o próprio diretor, tenha sido o de ater-se fielmente aos fatos, resistindo à tentação de eleger um protagonista com ares de herói para buscar a adesão da plateia. Confiando na força de sua história, McCarthy se propõe unicamente a explorar os meandros da investigação liderada pelo veterano Walter Robinson (Michael Keaton em grande fase na carreira): apoiado e incentivado pelo novo editor, Mark Baron (Liev Schreiber), ele reúne seu grupo de repórteres para aprofundar o caso de uma série de estupros cometidos por padres e tratados com condescendência por bispos e cardeais na região de Boston. Dedicados e inteligentes, os jornalistas partem, então, em busca da verdade, mesmo que isso possa abalar uma instituição respeitada e secular. Sasha Pfeiffer (Rachel McAdams), por exemplo, frequenta a missa ao lado da avó e compreende as implicações da publicação da matéria. O eficiente Mike Rezendes (Mark Ruffalo) é incansável em sua batalha pelas informações do advogado Mitchell Garabedian (Stanley Tucci). E Matt Carroll (Brian D'Arcy James), pai de família, sente-se ameaçado pela presença de possíveis abusadores próximo a seus filhos pequenos.


Desviando a câmera sempre que o drama ameaça ultrapassar os limites do bom-gosto e da discrição, Tom McCarthy aproxima o espectador através mais do cérebro do que do coração - ainda que não evite que a emoção tome conta em alguns momentos realmente tocantes. A edição precisa de Tom McArdle serve como sinalizador de tal sutileza: apesar dos diálogos fortes, "Spotlight" prefere o foco mais humanista da questão, apontando seu olhar para os braços marcados pelas seringas que uma das vítimas apresenta sem alarde, ou para a tensão constante de outra, que transfere para a comida uma vida inteira de depressão e angústia. A câmera quase voyeur chega a surpreender personagem e público quando testemunha um dos acusados, um aparentemente inofensivo senhor religioso, assumindo seus crimes e afirmando, tranquilamente, que também já foi estuprado. O roteiro de "Spotlight" tenta não sublinhar o que já é suficientemente brutal, e essa honestidade é um de seus maiores acertos: não há aquela trilha sonora crescente quando uma revelação é feita, não há lágrimas rolando diante de lembranças doloridas, não há heroísmo individual. Tudo bem que algumas cenas parecem feitas para apresentação no Oscar (como um discurso de Rezendes pertinho do final), mas são pecados insignificantes diante da grandeza de "Spotlight" como cinema.

Criticado por alguns justamente por seu estilo quase minimalista de contar uma história tão bombástica, Tom McCarthy fez uma sucessão de escolhas brilhantes para seu filme. É discreto, é honesto e é sério, o que falta para muitos filmes que se pretendem relevantes. Tem um elenco coeso e homogêneo (vencedor do prêmio máximo do Sindicato de Atores). E jamais tenta chamar mais a atenção do que a história que conta: ao eleger sua trama como principal elemento em uma época em que grandes orçamentos e personagens já consagrados formam o menu básico da programação, o diretor/ator/roteirista já merece ser aplaudido, e sua indicação ao Oscar ao lado de Alejandro Gonzalez Iñarrítu (por seu belo mas exibicionista "O regresso") demonstra que, mesmo quando cai na armadilha do previsível, a Academia sabe reconhecer quando alguém tenta ser verdadeiro e original. Uma pena que, diante das estatuetas técnicas de "Mad Max: Estrada da Fúria", "Spotlight" tenha ficado com apenas dois prêmios (filme e roteiro). Merecia mais.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

SICÁRIO: TERRA DE NINGUÉM

SICÁRIO: TERRA DE NINGUÉM (Sicario, 2015, Black Label Media/Lionsgate, 121min) Direção: Denis Villeneuve. Roteiro: Taylor Sheridan. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Joe Walker. Música: Johann Johansson. Figurino: Renée April. Direção de arte/cenários: Patrice Vermette/Jan Pascale. Produção executiva: Erica Lee, Ellen H. Schwartz, John H. Starke. Produção: Basil Iwanyk, Thad Luckinbill, Trent Luckinbill, Molly Smith. Elenco: Emily Blunt, Benicio Del Toro, Josh Brolin, Victor Garber, Jon Bernthal, Daniel Kaluuya, Jeffrey Donovan. Estreia: 19/5/15 (Festival de Cannes)

3 indicações ao Oscar: Fotografia, Trilha Sonora Original, Edição de Som

O cineasta Denis Villeneuve surpreendeu muita gente quando, depois de ser indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro pelo devastador "Incêndios" (2011) e realizar dois filmes estrelados por Jake Gyllenhaal - o suspense "Os suspeitos" (2013) e o estranho "O homem duplicado" (2013), baseado no romance de José Saramago - decidiu dar sua contribuição à polêmica questão do tráfico de drogas entre EUA e México. Optando por uma narrativa seca e semi-documental, ele explora o roteiro do também ator Taylor Sheridan como mapa para um mundo violento e com regras próprias, sem espaço para sentimentalismos ou delicadezas. Fotografado em tons secos por Roger Deakins (que arrebatou uma indicação ao Oscar por seu trabalho) e editado com precisão cirúrgica, "Sicário: terra de ninguém" estreou no Festival de Cannes 2015 e não demorou em coletar elogios da crítica mundo afora. Mesmo com uma bilheteria tímida e o fracasso em conquistar estatuetas na temporada de premiações, Villeneuve marcou mais um gol em sua carreira ainda impecável, com um thriller impactante e relevante que prende o espectador na poltrona do início ao fim sem apelar para a violência gratuita.

O tom sério de "Sicário" já fica claro em sua sequência de abertura, onde um grupo de agentes do FBI especializados em sequestros - e liderado pela corajosa Kate Macer (Emily Blunt) - invade uma casa no estado do Arizona e descobre dezenas de corpos escondidos nas paredes, em estado de decomposição. A missão acaba em tragédia, mas Macer chama a atenção de Matt Graver (Josh Brolin), que a convida a juntar-se a seu time na caça por Manuel Diaz (Bernardo P. Sacarino), líder de um cartel de tráfico de drogas - e dono da propriedade onde ela localizou os cadáveres. Com a promessa de colocar na cadeia o responsável pelos crimes, a jovem agente aceita o desafio de unir-se à equipe de Graver, que inclui o misterioso policial federal Alejandro (Benicio Del Toro), um mexicano calado e cujos métodos pouco ortodoxos irão chocar-se com seu rígido código de conduta. Conforme vai se envolvendo mais e mais com a incansável busca de seus colegas, porém, Macer descobre que está em um terreno minado, onde as leis são mutáveis e tudo que aprendeu em sua carreira até então pode ser posto de lado em situações consideradas extremas.


Depois de dois filmes contando com protagonistas masculinos, em "Sicário" Denis Villeneuve volta a investir na força da mulher, elegendo como personagem principal alguém com cujos valores morais e éticos a plateia pode facilmente se identificar. Kate Macer é uma agente do FBI, acostumada com a violência e a criminalidade, mas ainda mantém dentro de si uma rigorosa ordem moral que a impede de compactuar com as barbaridades que testemunha conforme vai avançando na chaga social que é o tráfico de drogas na fronteira EUA/México. Ao lado do colega Reggie (Daniel Kaluuya), ela começa a perder uma espécie de inocência que ainda lhe resta ao ser obrigada a compactuar com atitudes jamais pensadas e torna-se, ao mesmo tempo, caça e caçadora, virando alvo dos criminosos a que persegue e até mesmo de alguns colegas que veem nela uma ameaça à continuidade da operação. É aí que entra em cena o silencioso Alejandro, um homem com um passado dramático a ponto de deixar público e protagonista em constante dúvida sobre suas reais motivações. Fazendo alterações fundamentais no roteiro original de Taylor Sheridan - que explicitava as intenções do personagem logo de cara - o ator Benício Del Toro transforma Alejandro em um enigma até o terço final, criando um suspense que dá ao filme uma textura a mais e justifica sua indicação ao BAFTA de ator coadjuvante (assim como diversas outras homenagens dos críticos). Juntos em cena, Del Toro e Emily Blunt - que já haviam estrelado "O lobisomem" (2010) - são fascinantes e elevam "Sicário" a um nível bem acima do tradicional thriller: o filme de Villeneuve é, também, um poderoso drama sobre escolhas e a impotência diante de algo maior que a própria lei.

Um cineasta preocupado com a complexidade dos personagens que retrata, Denis Villeneuve encontra, em "Sicário", uma excelente plataforma para demonstrar suas qualidades como diretor. Não apenas apresenta um domínio técnico invejável - com fotografia, edição e desenho de som espetaculares - como também explora com inteligência o grande talento de seus atores. Como em seus trabalhos anteriores, Villeneuve oferece ao público um filme que fica na memória mesmo após os créditos finais, graças a um roteiro forte e um cuidadoso trabalho de direção e interpretação. É uma produção que tem muito mais a dizer do que simplesmente entreter o público por duas horas: é um belo exemplo de como fazer um filme de ação inteligente e cerebral mesmo sem tornar-se chato e enfadonho. Bravo, Villeneuve!

domingo, 11 de dezembro de 2016

RUTH & ALEX

RUTH & ALEX (5 flights up, 2014, Lascaux Films/Latitude Productions, 88min) Direção: Richard Loncraine. Roteiro: Charlie Peters, romance de Jill Ciment. Fotografia: Jonathan Freeman. Música: David Newman. Figurino: Arjun Bhasin. Direção de arte/cenários: Brian Morris/Alexandra Mazur. Produção executiva: Gary Ellis, Bob Gass, Judy Burch Gass, Sam Hoffman, Richard Toussaint. Produção: Curtis Burch, Morgan Freeman, Lori McCreary, Tracy Mercer, Charlie Peters. Elenco: Morgan Freeman, Diane Keaton, Cynthia Nixon, Carrie Preston, Claire van der Boom, Korey Jackson. Estreia: 05/9/14 (Festival de Toronto)

Alguns atores tem um carisma e uma personalidade tão fortes que basta sua presença em cena para justificar o interesse por um filme. Morgan Freeman é um desses atores. Diane Keaton idem. Capazes de dar dignidade a filmes como "O apanhador de sonhos" (no caso dele) e "O casamento do ano" (coestrelado por ela), eles podem não salvar filmes ruins do desastre, mas ao menos são capazes de garantir um mínimo de qualidade dramática a qualquer um deles. Se não fosse por sua presença, por exemplo, o razoável  "Ruth & Alex" seria apenas mais um drama simpático destinado a preencher a programação da tv a cabo. Sem uma trama forte onde se sustentar e apostando todas as suas fichas no talento da dupla de protagonistas, o cineasta Richard Loncraine - cujo trabalho de maior destaque até então era a adaptação de "Ricardo III", de Shakespeare, estrelado por Ian McKellen em 1995 - entrega uma sessão da tarde inofensiva, mas por isso mesmo facilmente esquecível.

Toda a trama do filme gira em torno do casal de protagonistas e sua tentativa de encontrar um comprador para o apartamento do Brooklin em que moram há quarenta anos. Mesmo apaixonados pela vizinhança e dividindo memórias afetivas com o lugar, eles sabem que morar em um prédio sem elevador e em um bairro cuja segurança não vive dias de glória não será uma opção viável em poucos anos. Com a ajuda da sobrinha de Ruth, Lily (Cynthia Nixon, da série "Sex and the city"), eles abrem a casa para a visitação de interessados no imóvel, enquanto também procuram outro lugar para onde transferirem sua vida. Nesse meio-tempo, travam contato com uma série de coadjuvantes nem sempre interessantes e sofrem com a possibilidade de perderem também a pequena Dorothy, sua cachorrinha de estimação, que sofre de um problema na coluna.


Adaptado de um romance escrito por Jill Ciment, "Ruth & Alex" fala de inúmeras questões relevantes à sociedade atual, mas não chega a aprofundar-se em nenhuma delas. Pelo roteiro de Charlie Peters desfilam diálogos sobre a forma como a juventude percebe a terceira idade, sobre as mudanças na concepção de arte, sobre o preconceito contra imigrantes (em uma subtrama inteligente sobre um rapaz caçado como terrorista na vizinhança do prédio dos protagonistas), sobre especulação imobiliária e até sobre racismo (quando flashbacks iluminam o início da história de amor do casal central, em pleno começo dos anos 70). O problema é que, por não querer pesar a mão, Peters deixa tudo tão leve que impede o espectador de realmente se importar com os personagens e seus dramas. É difícil se emocionar com as angústias de pessoas cuja maior angústia é sair de um apartamento de quase um milhão de dólares para comprar outro no mesmo valor - e para isso nem mesmo a competência de Freeman e Keaton é remédio. Para sorte do público, porém, eles estão luminosos até quando o roteiro fraquinho não lhes dá muito material para isso.

Um dos produtores do filme, Morgan Freeman surpreende ao viver um personagem radicalmente diferente dos homens poderosos e/ou misteriosos a que se acostumou a interpretar em sua longa carreira: na pele de Alex Carver, ele demonstra um lado doce e carinhoso que se revela em suas amenas discussões com a apaixonada esposa e com os diálogos que trava com a pequena filha de uma das interessadas em seu apartamento - que encontra também em outras ocasiões no decorrer da narrativa. Diane Keaton, por sua vez, esbanja a simpatia de sempre, com seu sorriso aberto e estilo despojado que lhe renderam fama - e o Oscar de melhor atriz, por "Noivo neurótico, noiva nervosa" (77). São os dois, exclusivamente, os motivos para dar uma espiada em "Ruth & Alex". Não muda a vida de ninguém, mas é um entretenimento agradável e rápido para uma tarde de chuva.

sábado, 10 de dezembro de 2016

ROCK'N'ROLLA: A GRANDE ROUBADA

ROCK'N'ROLLA: A GRANDE ROUBADA (RocknRolla, 2008, Warner Bros/Dark Castle Entertainment, 114min) Direção e roteiro: Guy Ritchie. Fotografia: David Higgs. Montagem: James Herbert. Música: Steve Isles. Figurino: Suzie Harman. Direção de arte/cenários: Richard Bridgland/Debbie Moles. Produção executiva: Navid McIlhargey, Steve Richards. Produção: Steve Clark-Hall, Susan Downey, Guy Ritchie, Joel Silver. Elenco: Gerard Butler, Tom Wilkinson, Thandie Newton, Idris Elba, Tom Hardy, Mark Strong, Karel Roden, Tobby Kebbell, Ludacris, Jimi Mistry. Estreia: 04/9/98 (Festival de Toronto)

Um grupo de marginais pés-de-chinelo. Um mafioso que manda e desmanda no mercado imobiliário de Londres. Um roqueiro viciado em drogas que odeia o padrasto. Uma contadora sexy disposta a qualquer coisa para subir na vida. Um empresário russo com planos de construir um estádio na capital inglesa. Um capanga leal e dedicado. E uma dupla de empresários musicais tentando evitar o fechamento de suas casas noturnas. Com esses personagens falastrões, excêntricos e propensos a equilibrar o cérebro e as armas, o cineasta Guy Ritchie voltou às graças da crítica, depois do fracasso sucessivo de "Destino insólito", de 2002 (estrelado pela então esposa Madonna) e "Revólver", de 2005, que tentou arrancar uma atuação decente de Jason Statham. "Rock'n'Rolla: A grande roubada" não apenas lhe devolveu o prestígio perdido como lhe deu cacife suficiente para comandar uma nova versão de "Sherlock Holmes" (2009), com um orçamento milionário e grandes astros - Robert Downey Jr. e Jude Law - no elenco. Voltando a explorar o submundo criminoso londrino que lhe deu fama em seu filme de estreia, "Jogos, trapaças e dois canos fumegantes" (99), Ritchie atinge um equilíbrio admirável entre diversos gêneros (ação, policial, comédia) e confirma um estilo marcante de fazer cinema, influenciado pelo tom quase histérico de Quentin Tarantino mas dono de identidade própria.

Como é normal em sua filmografia, a trama de "Rock'n'Rolla" é complexa e com uma profusão de personagens que exige da plateia atenção absoluta: o centro do enredo é Lenny Cole (Tom Wilkinson), que fez fortuna intermediando negociações, muitas vezes de forma ilegal. Protetor de um grupo de bandidos intitulado Quadrilha Selvagem - liderada pelo carismático One Two (Gérard Butler) - e padrasto do roqueiro Johnny Quid (Toby Kebbell), Cole resolve ajudar o russo Uri Omovich (Karel Roden) a construir um estádio de futebol, utilizando, para isso, a influência de um vereador (Jimi Mistry) também chegado a uma propina. A partir daí, dois fatos independentes acabam por unir todos os personagens: o desaparecimento de um valioso quadro - emprestado por Uri à Cole e furtado por seu enteado - e o roubo dos sete milhões de euros destinados ao pagamento da construção do estádio. O roubo do dinheiro é responsabilidade de One Two e seus dois colegas mais fiéis - Mumbles (Idris Elba) e Bob (Tom Hardy) - e tem a cumplicidade da ambiciosa Stella (Thandie Newton), contadora e amante de Uri que acaba se deixando seduzir por One Two. Em volta de todas essas questões, existe também a dúvida dos integrantes da Quadrilha Selvagem a respeito de um informante que vem jogando seus integrantes na cadeia.


Recheando seu roteiro com diálogos espirituosos e situações surreais, Guy Ritchie oferece a seu público um desfile de sequências primorosas, editadas com inteligência e dotadas de um senso de humor admirável. A química entre Gérard Butler e Thandie Newton é explosiva, e a cena em que eles combinam seu segundo golpe em Uri é uma pérola de criatividade e tensão sexual. Tom Wilkinson mais uma vez demonstra porque é escolha certeira quando se trata de interpretar personagens arrogantes, e Tom Hardy rouba a cena na pele de um gângster homossexual apaixonado pelo melhor amigo e disposto a seduzir um advogado para descobrir quem lhe mandou para a cadeia - seu desempenho é tão incrível que foi a partir dele que Hardy cavou seu caminho em direção à glória do cinemão, sendo dirigido por Christopher Nolan em "A origem" (2010) e "Batman: O Cavaleiro das Trevas ressurge" (12). Dono de um humor singular, Ritchie não hesita em colocar na boca de seus personagens falas quase constrangedoras, mas que soam verossímeis e imprescindíveis ao desenvolvimento da complexa trama, que corre diante dos olhos do espectador com um ritmo alucinante e com um visual caprichado, que mostra sua evolução como cineasta. Brincando com os clichês do gênero ao mesmo tempo em que os reverencia, ele consegue resultado superior a outro de seus bem-sucedidos produtos, "Snatch: porcos e diamantes" (2001), estrelado por Brad Pitt e Benicio Del Toro.

"Rock'n'Rolla" é entretenimento de primeira, mas é bom que se avise que talvez sua trama exale testosterona demais para que seja apreciado pelo público feminino com o mesmo ardor do masculino. As piadas a um passo do preconceito, a grosseria incurável dos personagens e o excesso de palavrões podem afastar aos mais sensíveis, mas no fundo o filme de Guy Ritchie é uma grande brincadeira com os elementos do cinema policial - em especial dos anos 70. Extremamente à vontade como galã bagaceiro, Gérard Butler está em um de seus melhores desempenhos e sublinha com ironia e deboche todas as nuances da trama - que apesar da promessa da última cena, ainda não rendeu uma continuação. Infelizmente.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

O PRIMEIRO QUE DISSE

O PRIMEIRO QUE DISSE (Mine vaganti, 2010, Fandango/Rai Cinema, 110min) Direção: Ferzan Ozpetek. Roteiro: Ferzan Ozpetek, Ivan Cotroneo. Fotografia: Maurizio Calvesi. Montagem: Patrizio Marone. Música: Pasquale Catalano. Figurino: Alessandro Lai. Direção de arte/cenários: Andrea Crisanti/Lily Pungitore. Produção: Domenico Procacci. Elenco: Riccardo Scamarcio, Nicole Gramaudo, Alessandro Preziosi, Ennio Fantastichini, Lunetta Savino. Estreia: 13/02/10 (Festival de Berlim)

Quem já assistiu ao belo "Um amor quase perfeito" (2001) - em que a médica interpretada por Margherita Buy descobre a vida dupla do marido depois que ele morre atropelado - e ao melancólico "A janela da frente" (2003) - que mostra Giovanna Mezzogiorno e seu charmoso vizinho Raul Bova investigando o passado de um desmemoriado senhor de idade encontrado vagando pelas ruas de Roma - sabem que o cineasta Ferzan Ozpetek sempre encontra um jeito de retratar de forma poética e respeitosa a homossexualidade, além de colocá-la frequentemente como ponto de suma importância em seus roteiros. Às vezes mais discretamente e em outras explicitamente, o assunto é peça fundamental de suas narrativas, e em "O primeiro que disse" é o ponto de partida para uma história que fala de hipocrisia, preconceito e da necessidade de se lutar pelos próprios sonhos. Um tanto melancólico mas com pitadas saudáveis de humor, seu filme é um libelo a favor da liberdade individual - ainda que para conquistá-la seja obrigatório romper padrões e expectativas alheias.

Tommaso Cantone (Riccardo Scamarcio) é o filho caçula de uma tradicional família proprietária de uma bem-sucedida fábrica de massas no interior da Itália. Vivendo há anos em Roma, ele sente-se livre para ir contra todos os planos dos pais, fazendo o curso de Letras, tentando a carreira de escritor e vivendo um romance com Marco (Carmine Recano). Em uma visita à casa paterna, ele decide contar a verdade sobre sua vida na capital e, assim, fugir da responsabilidade de comandar uma empresa com a qual não tem a menor afinidade. Para sua surpresa, porém, seu irmão mais velho, Antonio (Alessandro Preziosi) sai do armário antes dele, confessando seu amor por um antigo empregado da fábrica. Com o irmão expulso de casa pelo pai - que tem um enfarte logo em seguida - Tommaso se vê impedido de dar seguimento a seus planos e é obrigado a continuar morando na cidade e sendo a ligação entre a família e a empresa. Suas tentativas de esconder sua vida alternativa sofrem um duro golpe, no entanto, quando Marco resolve visitá-lo em busca de notícias - e chega acompanhado de um grupo de amigos nada discretos.


Assim como em "Um amor quase perfeito", Ozepetek cria, em seu filme, uma galeria de personagens coadjuvantes que emolduram a trama principal com graça e inteligência. Enquanto no primeiro filme eram os amigos de Michele (Stefano Accorsi) - um grupo de homossexuais que se tratavam como uma família alternativa - que roubavam a cena, em "O primeiro que disse" essa missão cabe aos familiares de Tommaso, um conjunto de personalidades que varia do patético (como a tia solteirona que alega ter ladrões invadindo constantemente seu quarto) ao hipócrita (o pai preconceituoso e cioso dos valores familiares mas que tem uma amante à vista de todos). Sob o olhar prescrutador da matriarca da família (Ilaria Occhini) - cujo passado tem um drama que a faz perceber o mundo com um ponto de vista mais benevolente e carinhoso - todo o clã vive sua rotina tentando encontrar maneiras de lidar com seus próprios problemas, retratados com sensibilidade e humor. Evitando a todo custo pesar a mão seja na questão da sexualidade ou na dos preconceitos arraigados do interior da Itália - onde meninas são obrigadas desde crianças a se comportarem como pequenas damas e a fofoca é quase um esporte nacional - o cineasta (um turco que vive na Itália desde os anos 70) trata seus personagens como um pai compreensivo, nem sempre concordando com eles, mas respeitando seus pontos de vista por piores que possam ser. Essa generosidade é uma das maiores qualidades de seu texto, que, além disso, injeta um bem-vindo senso de humor na hora mais do que apropriada.

Justamente quando "O primeiro que disse" está se levando a sério demais e as dúvidas de Tommaso a respeito de suas decisões estão a ponto de tornar o filme um dramalhão, Ozpetek surge com a brilhante ideia de jogar um bocado de sol na trama. A chegada de Marco e seus amigos - três gays espalhafatosos tentando disfarçar sua sexualidade para não chocar a conservadora família Cantone - dá um choque de humor na trama e a direciona para sua reta final, quando decisões terão de ser tomadas e/ou repensadas. Sem deixar seu roteiro cair na mesmice ou no didatismo, o cineasta encerra sua trama com uma bela e onírica sequência que mais faz pensar do que determina desfechos. Pode não ser uma opção que agrade a todos, mas ao menos é corajosa e coerente com a proposta de sacudir o status quo. "O primeiro que disse" é um filme que não apenas entretém: como toda a filmografia de Ferzan Ozpetek, é uma obra aberta a discussões que em momento algum perde sua qualidade de entretenimento. Louvável!

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

O PRESENTE

O PRESENTE (The gift, 2015, Blumhouse Productions, 108min) Direção e roteiro: Joel Edgerton. Fotografia: Eduard Grau. Montagem: Luke Doolan. Música: Danny Bensi, Saunder Jurriaans, Figurino: Terry Anderson. Direção de arte/cenários: Richard Sherman/Matthew Flood Ferguson. Produção executiva: Jeanette Brill, Luc Etienne, Couper Samuelson, Donald Tang. Produção: Jason Blum, Joel Edgerton, Rebecca Yeldham. Elenco: Jason Bateman, Rebecca Hall, Joel Edgerton, Allison Tolman, Tim Griffin, Busy Phillips. Estreia: 30/7/15

Mais conhecido como o irmão de Tom Hardy - professor e lutador nas horas vagas - em "Guerreiro" (2011), o rival de Leonardo DiCaprio em "O grande Gatsby" (2013) e Ramsés na versão de Ridley Scott da história de Moisés em "Êxodo: Deuses e Reis" (2015), o australiano Joel Edgerton surpreendeu em sua estreia atrás das câmeras. Nadando contra a corrente de atores tornado diretores em superproduções mirando o Oscar, ele preferiu contar uma história simples e minimalista em um gênero considerado pouco nobre pela crítica: o suspense. Longe da pressão de um grande estúdio e sem pretensão de criar uma obra-prima, ele lançou "O presente", uma gratíssima surpresa aos fãs de thrillers psicológicos que substituem o sangue pela tensão. Sem apelar para sustos constantes (conta-se uns dois, em momentos apropriados), o ator/diretor/roteirista/produtor demonstra total domínio das ferramentas do gênero, oferecendo muito mais à plateia do que se poderia imaginar vindo de um estreante.

Ciente das dificuldades e armadilhas de atuar como diretor e ator no mesmo filme, Edgerton fez a opção correta em deixar o protagonista nas mãos de Jason Bateman, surpreeendente em um papel dramático. Bateman vive Simon Callum, um bem-sucedido executivo que chega à Califórnia junto com a esposa, Robyn (Rebecca Hall), com a intenção de conquistar uma sonhada promoção e para construir uma família - algo que vem sendo extremamente difícil para o casal. Assim que chegam em sua nova cidade (onde Simon morou até a juventude, quando mudou-se para a universidade em Chicago) eles encontram com Gordon Mosely (Edgerton, em um papel que não lhe exigiu mais de duas semanas de filmagens). Amigo de infância de Simon, Gordon é um homem estranho, reservado e aparentemente solitário, mas que se mostra disponível e generoso na adaptação do amigo e da esposa na nova realidade. Sua presença constante começa a parecer ameaçadora quando ele descobre ser alvo de uma espécie de deboche e desprezo por parte de Simon, e aos poucos Robyn passa a desconfiar de que algo mais grave se esconde por trás de sua gentileza. Investigando por conta própria, ela descobre um passado que explicará muitas das atitudes do novo amigo - e do marido.


Com uma trama envolvente, que vai sendo revelada aos poucos, conforme Robyn vai chegando à verdade sobre quem é o real vilão da história - e as cartas se embaralham constantemente em suas mãos - o roteiro de "O presente" vai conduzindo o espectador por um exercício de constante aflição, uma vez que, desde as primeiras cenas, existe uma atmosfera sombria que contrasta com a delicadeza de Gordon e a felicidade conjugal de Simon e Robyn. Um diretor inteligente e sensível, Edgerton jamais se deixa optar pelo caminho mais fácil, obrigando o público a compreender junto com os personagens todos os desdobramentos do enredo, que vão muito além de um joguinho de gato e rato. Com os dois pés fincados na realidade, o filme torna-se mais assustador na medida em que todas as ações cometidas por seus protagonistas sofrem reações cada vez mais perigosas - e sempre bastante
verossímeis. Edgerton constrói um Gordon Mosely desconfortável, sinistramente tranquilo e generoso, com requintes de um grande ator físico: de lentes de contato castanhas que disfarçam seus olhos azuis e o cabelo tingido de um tom mais escuro que seu louro natural, ele impressiona pela sinceridade que imprime no personagem, enquanto Jason Bateman, conhecido por seu trabalho em comédias, funciona à perfeição como um homem aparentemente comum que vê seus esqueletos saírem do armário justamente quando deveriam ficar escondidos. Rebecca Hall às vezes exagera na atuação, mas está tão bem amparada pelos colegas que seus escorregões são facilmente perdoáveis.

Dirigido por destreza, com sua câmera invadindo discretamente a bela casa do casal Callum com um voyeur, "O presente" satisfaz justamente por não prometer mais do que pode cumprir. Joel Edgerton entrega, em sua estreia, exatamente o que se poderia esperar de um suspense de carpintaria dramática simples mas eficiente: uma boa dose de tensão, personagens bem construídos, alguns sustos nos momentos certos e um desfecho angustiante, que reflete a extensão que os traumas do passado deixam em seres mais sensíveis. Só por fugir do batido clímax de confronto armado entre os dois protagonistas já merece aplausos entusiasmados, mas é muito mais do que isso. "O presente" é um pequeno grande filme que aponta para voos maiores na carreira de Edgerton como diretor. Bravo!

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

PERDIDO EM MARTE

PERDIDO EM MARTE (The martian, 2015, 20th Century Fox, 144min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Drew Goddard, romance de Andy Weir. Fotografia: Dariusz Wolski. Montagem: Pietro Scalia. Música: Harry Gregson-Williams. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Celia Bobak, Zoltán Horváth. Produção executiva: Drew Goddard. Produção: Mark Huffman, Simon Kinberg, Michael Schaefer, Ridley Scott, Aditya Sood. Elenco: Matt Damon, Jessica Chastain, Kristen Wiig, Jeff Daniels, Michael Peña, Sean Bean, Kate Mara, Chiwetel Ejiofor, Sebastian Stan, Aksel Hennie. Estreia: 11/9/15 (Festival de Toronto)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Matt Damon), Roteiro Adaptado, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som, Efeitos Visuais
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme (Comédia/Musical), Ator Comédia/Musical (Matt Damon) 

Uma das maiores polêmicas na ocasião de entrega dos Golden Globes 2016 ocorreu com a vitória dupla de "Perdido em Marte", de Ridley Scott, premiado como melhor filme e ator (Matt Damon) na subcategoria comédia ou musical. Não que o filme não tivesse méritos para isso, já que é um dos melhores trabalhos do cineasta inglês desde o megasucesso "Gladiador" (2000): o problema é que a adaptação do romance de Andy Weir NÃO é uma comédia, apesar de alguns momentos menos pesados e um certo tom de ironia no protagonista. Uma ficção científica à moda antiga, mas com todo o requinte visual que a tecnologia moderna pode oferecer, "Perdido em Marte" acabou sendo inscrito para as premiações para não enfrentar uma concorrência maior com os dramas lançados na temporada - e dos quais saiu vencedor o controverso "Spotlight: segredos revelados" - e se deu muito bem. Além das estatuetas do Golden Globe (de resto merecidas), arrebatou sete indicações ao Oscar, incluindo melhor filme, ator e roteiro adaptado. Ridley Scott, inexplicavelmente, ficou de fora.

Um dos grandes cineastas de sua época a ainda não terem um Oscar em casa, Ridley Scott tem familiaridade com a ficção científica, gênero que deu à sua carreira alguns de seus maiores êxitos (comerciais ou de crítica). São dele filmes essenciais, como "Alien: o oitavo passageiro" (79) e "Blade Runner: o caçador de androides" (82), e nem mesmo seu "Prometheus" (2012), que dividiu opiniões, é um filme menor. Confortável em lidar com os paradigmas do gênero e com as dificuldades de comandar orçamentos generosos - mais de 100 milhões de dólares no caso de "Perdido em Marte" - Scott tirou de letra orquestrar as aventuras e desventuras de Mark Watney, o protagonista de uma história que, apesar de carregar todos os elementos clássicos, conhecidos e amados pelos fãs da ficção científica, agrada também à plateia um tanto avessa a eles. Leve, divertido e emocionante na medida certa, é um filme com tudo de melhor que Hollywood tem a oferecer, embrulhado em um atraente pacote visual e dramático.


O filme não demora a começar, impondo o ritmo desde suas primeiras cenas, que mostram uma equipe de astronautas da NASA sendo obrigada a abortar sua missão em Marte devido a uma violenta e inesperada tempestade que praticamente os expulsa do planeta. Além do fracasso de sua viagem, o grupo liderado pela Comandante Melissa Lewis (Jessica Chastain) ainda precisa lidar com a morte de um de seus integrantes, o botânico Mark Watney (Matt Damon), atingido pelos destroços da tormenta. O que eles não sabem, porém, é que Watney não apenas sobreviveu - graças a um incrível golpe de sorte - como, ciente de sua situação desesperadora, começou a fazer planos para manter-se vivo enquanto não é resgatado. Utilizando-se de sua experiência e seus conhecimentos de física e matemática, ele calcula milimetricamente cada porção de comida, cada fração de oxigênio e cada possibilidade de ser descoberto pelos cientistas na Terra. O que ele não sabe é que, mesmo depois de ter sua sobrevivência descoberta (por acaso), os planos da agência não são tão favoráveis assim em relação a seu resgate. É somente quando as forças do governo, de cientistas estrangeiros e de sua própria equipe são reunidas que um mirabolante e arriscado plano é posto em prática - mesmo sem a certeza de que dará certo.

Com um roteiro surpreendente, que versa sobre teorias complexas mas nunca deixa o público alienado, "Perdido em Marte" tem duas linhas narrativas empolgantes, cada uma com seu próprio ritmo e tom. Enquanto Watney inventa e reinventa modos de comunicação com a Terra e meios de sobreviver com a escassez de comida e oxigênio, membros de diversas agências científicas tentam encontrar soluções para o problema - a essa altura já compartilhado pelo mundo inteiro. Matt Damon dá um show na pele do perseverante protagonista, injetando um senso de humor inesperado a uma espécie de Robinson Crusoé da era moderna. É ele quem comanda o espetáculo - e sua indicação ao Oscar foi extremamente justa, uma vez que ele praticamente atua sozinho por mais de duas horas de sessão. Dividindo a atenção com sua odisseia, as manobras científicas para resgatá-lo igualmente seguram a plateia na poltrona, equilibrando com maestria momentos de pura tensão com cenas brilhantemente executadas, onde se destacam a edição de som e os efeitos visuais (também indicados ao Oscar). É mérito do roteiro e da direção costurar com tanta precisão o drama e a ação, levando o espectador a uma experiência divertida e altamente competente. Com uma trilha sonora onde se destacam sucessos conhecidos do público - "I will survive", de Gloria Gaynor e "Starman", de David Bowie surgem em momentos exatos - e um tom de esperança louvável, "Perdido em Marte" consegue também a façanha de ser o primeiro filme ambientado em Marte a se dar bem na bilheteria e na opinião dos críticos - depois que os execráveis "Planeta Vermelho" e "Missão: Marte", ambos de 2000, praticamente estragaram o planeta por mais de uma década com seus roteiros tenebrosos. É um êxito merecido, de um cineasta ainda não devidamente reconhecido pela Academia.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

JFK: A HISTÓRIA NÃO CONTADA

JFK: A HISTÓRIA NÃO CONTADA (Parkland, 2013, The American Film Company, 93min) Direção: Peter Landesman. Roteiro: Peter Landesman, livro de Vincent Bugliosi. Fotografia: Barry Ackroyd. Montagem: Markus Czyzewski, Leo Trombetta. Música: James Newton Howard. Figurino: Kari Perkins. Direção de arte/cenários: Bruce Curtis/Rodney Becker. Produção executiva: Tobin Armbrust, Guy East, Brian Falk, Joe Ricketts, Ginger Sledge. Produção: Gary Goetzman, Tom Hanks, Matt Jackson, Bill Paxton, Nigel Sinclair. Elenco: Marcia Gay Harden, Zac Efron, Paul Giamatti, Ron Livingston, James Badge Dale, Billy Bob Thornton, Jacki Weaver, Gil Bellows, Tom Welling, Mark Duplass, Colin Hanks, Jackie Earle Haley, Rory Cochrane. Estreia: 01/9/13 (Festival de Veneza)

Em 22 de novembro de 1963, a cidade de Dallas, Texas, foi cenário do mais traumático e devastador espetáculo que os EUA testemunhou até o atentado ao World Trade Center, quase quarenta anos mais tarde: o assassinato do então presidente John Fitzgerald Kennedy não apenas mostrou aos americanos a fragilidade de sua segurança como também abalou os alicerces da política mundial de forma indelével e ainda hoje ressoante. Em 1991, Oliver Stone abordou a morte de Kennedy no fenomenal "JFK: A pergunta que não quer calar", que, em tom semi-documental, expunha teorias da conspiração de modo tão contundente que era impossível não acabar a sessão totalmente convencido de que o presidente havia sido morto por culpa da CIA, do FBI, da KGB e da própria Casa Branca. O trabalho de Stone concorreu ao Oscar de filme, direção e roteiro - e ganhou as estatuetas de fotografia e edição - e passou à história como um dos maiores thrillers políticos dos anos 90. Com um olhar completamente oposto ao espetáculo grandioso estrelado por Kevin Costner, o discreto e pouco conhecido "JFK: A história não contada" volta sua atenção não para a investigação do crime, mas para suas consequências imediatas junto às pessoas que atenderam o presidente no Parkland Memorial Hospital, seus seguranças e um lado da questão sempre esquecida por todos: a família daquele que é considerado o autor dos tiros, Lee Harvey Oswald.

Baseado no livro "Four days in November: The assassination of John F. Kennedy", escrito pelo promotor Vincent Bugliosi - tornado famoso graças ao julgamento de Charles Manson e seus seguidores - o filme de estreia do roteirista Peter Landesman renega as teorias propostas por Oliver Stone em seu trabalho e abraça a história oficial do atirador solitário. Assim como Emilio Estevez fez em "Bobby" (2006) - que apresentava uma dúzia de personagens presentes ao Hotel onde Robert Kennedy foi assassinado, em 1968 - a obra de Landesman se debruça sobre pequenas histórias paralelas (mas todas reais) que envolveram o homicídio, mas pouco se interessa em invadir as entranhas das investigações e das incoerências que cercavam o caso. Seu interesse humano é maior que o político - o que torna o resultado final um tanto irregular, ainda que fascinante para quem se interessa pelo assunto. Produzido por Tom Hanks e Bill Pullman - que primeiro pretendiam adaptar o livro de Bugliosi como minissérie de televisão - e com um elenco de rostos conhecidos do grande público, o filme custou meros 10 milhões de dólares, mas naufragou nas bilheterias e foi ignorado nas cerimônias de premiação, mesmo tendo estreado no concorrido Festival de Veneza e lançado comercialmente no aniversário de 50 anos da tragédia.


A morte de John Kennedy - na frente de centenas de pessoas, em uma via pública e de forma a abalar toda uma nação - é o ponto de partida de "JKF: A história não contada". A partir do momento em que o presidente chega à Dallas, os personagens da trama vão sendo apresentados aos poucos: surge Abraham Zapruder (Paul Giamatti), o homem que, com sua filmadora, irá registrar um dos momentos mais estudados do século. Aparecem os jovens médicos Charles Carrico (Zac Efron) e Malcolm Perry (Colin Hanks), que irão tentar salvar a vida do presidente, ao lado da enfermeira-chefe Doris Nelson (Marcia Gay Harden). São iluminados pela tela alguns dos homens do Serviço Secreto, dispostos a descobrir qualquer detalhe sobre a tragédia, como Forrest Sorells (Billy Bob Thornton) e Roy Kellerman (Tom Welling), assim como agentes do FBI encarregados de cuidar da segurança do presidente, como James Hosty (Ron Livingston) e Gordon Shanklin (David Harbour) - o primeiro sentindo-se culpado pelo fato de não ter dado a devida atenção a um homem que estava investigando, chamado Lee Harvey Oswald. A família de Oswald, inclusive, também é lembrada pelo roteiro, nas figuras marcantes de seu atônito irmão Robert (James Badge Dale, ótimo) e sua interesseira mãe Marguerite (Jacki Weaver).

Enquanto vai contando a história desses personagens - e outros menos marcantes mas igualmente importantes no processo que tirou o corpo de Kennedy do hospital de Dallas mesmo contra a vontade do médico legista Earl Rose (Rory Cochrane) - o filme de Landesman vai mostrando os efeitos do fatídico evento na vida de cada um deles, mas sem aprofundar-se satisfatoriamente em nenhum dos casos. Mesmo que sua intenção seja exatamente um recorte específico na trajetória dos personagens, é impossível não ficar com a sensação de que algo ficou faltando. É como se o filme todo fosse uma introdução - forte, interessante, realista - de uma obra que, no fim, não existe. Bom diretor de atores, Landesman consegue extrair atuações convincentes até de Zac Efron e Tom Welling - mais conhecidos como galãs do que como intérpretes sérios - e explora com deleite o trabalho fascinante de medalhões como Paul Giamatti, Billy Bob Thornton e Jacki Weaver, a melhor em cena, com uma atuação monstruosa da igualmente monstruosa mãe de Lee Harvey Oswald - que passou o resto da vida insistindo que o filme era um agente do governo americano, o que, consequentemente, ratifica as ideias de Oliver Stone e vai contra as conclusões de Vincent Bugliosi. Em todo caso, "JFK: A história não contada" não se propõe a investigar um caso de assassinato, mas sim em como essa morte afetou diretamente alguns personagens à margem da história. Um bom filme, ainda que aquém de todo o seu potencial.