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DUBLÊ DO DIABO


O DUBLÊ DO DIABO (The devil's double, 2011, Corsan/Staccato Films, 109min) Direção: Lee Tamahori. Roteiro: Michael Thomas, livro de Latif Yahia. Fotografia: Sam McCurdy. Montagem: Luis Carballar. Música: Christian Henson. Figurino: Anna B. Sheppard. Direção de arte/cenários: Paul Kirby/Caroline Smith. Produção executiva: Arjen Terpstra, Harris Tulchin. Produção: Paul Breuls, Michael John Fedun, Emjay Rechsteiner, Catherine Vandeleene. Elenco: Dominic Cooper, Ludivine Sagnier, Raad Rawi, Philip Quast. Estreia: 22/01/2011 (Festival de Sundance)

O que você faria se fosse um sósia quase perfeito do filho de um dos terroristas mais procurados do mundo? Para Latif Yahia não houve qualquer tipo de escolha: idêntico a Uday, o filho mais velho de Saddam Hussein, Latif foi obrigado a aceitar o "convite" para tornar-se o dublê de corpo do excêntrico e tempestuoso herdeiro - caso contrário, toda a sua família corria sérios riscos de pagar o pato. Testemunha de situações de extrema violência e excessos de todos os tipos, Latif pode contar sua história, com detalhes, em um livro onde descrevia seu período sob as ordens de Hussein - uma fase encerrada em 1991. Dirigido pelo neozelandês Lee Tamahori, "O dublê do diabo" estreou no Festival de Sundance de 2011 e conquistou boa parte da crítica, principalmente graças ao esforçado
desempenho de Dominic Cooper nos dois papéis centrais. Apesar de contestado por várias testemunhas dos fatos - inclusive confidentes de Uday, um guarda do palácio onde ele vivia, um dos cirurgiões da família Hussein e até um agente da CIA - o livro inspirou um filme de fôlego, bem equilibrado entre seus gêneros (drama e ação) e interessante do princípio ao fim. Se tudo aconteceu da forma como narrada pelo autor pode até ser algo duvidoso, mas o fato é que dramaticamente a coisa funciona muito bem.

Revelado ao mundo pelo elogiado "O amor e a fúria" - premiado com um prêmio no Festival de Veneza de 1994 - e abraçado pelo cinema mainstream com "Na teia da aranha" (2001), estrelado por Morgan Freeman e "007 - Um novo dia para morrer" (2002), Lee Tamahori oferece, a "O dublê do diabo", seu talento em equacionar de forma consistente, a violência a que os personagens estão suscetíveis e o drama do protagonista em ser obrigado a conviver com o risco constante. Segundo o livro de Latif Yahia - e consequentemente o roteiro do filme -, ser o sósia de Hussein (com direito a cirurgias plásticas para aumentar ainda mais as semelhanças entre os dois) era permanecer em constante estado de tensão. Não bastasse ser o filho de um líder político dos mais controversos, Uday ainda tinha, a ser considerado, uma extravagância ímpar em termos de orgias sexuais, uso abusivo de drogas e álcool e um narcisismo dos mais doentios. A Latif cabia administrar tudo isso enquanto tentava, das mais diversas maneiras, encontrar um modo de libertar-se de seu pesadelo. Enquanto algumas testemunhas do caso tenham insistido que o rapaz se aproveitava da semelhança com Hussein para arrumar mulheres, o filme opta por comprar a narrativa de Yahia - até mesmo porque sua versão dos fatos seja bem mais atraente e dramaticamente potente.


É difícil não se deixar envolver pelo roteiro de Michael Thomas e pela direção energética de Tamahori: assim que a história começa e Latif se vê aprisionado por um mundo onde atentados e assassinatos são moeda corrente, o público imediatamente compra a ideia. Boa parte desse resultado positivo se deve ao desempenho muito além de correto do jovem Dominic Cooper. Mais conhecido do grande público por seu trabalho como o noivo de Amanda Seyfried em "Mamma Mia!" (2008), o ator inglês trabalha com sutilezas para realçar as diferenças entre seus dois personagens - enquanto parece se divertir na pele do irresponsável Uday Hussein, arrebata a simpatia da audiência ao interpretar Latif Yahia, um homem que presencia atrocidades com frequência assustadora e busca manter a sanidade mental para sobreviver. No terço final do filme, quando Yahia finalmente resolve arriscar tudo para fugir, a direção de Lee Tamahori mostra um cineasta capaz de manipular com segurança os recursos à sua disposição: por mais que não seja exatamente inovador ou surpreendente, o filme não deixa muito espaço disponível para o tédio - durante seus 109 minutos, entrega o que foi proposto, e de quebra, apresenta alguns momentos bastante tensos e violentos, como a sequência em uma boate que quase termina em uma carnificina e o último embate entre os dois personagens principais. Quem procura um bom filme policial vai aplaudir - e quem busca um drama baseado em uma história real também não terá do que reclamar.

Infelizmente, apesar das qualidades redentoras, "O dublê do diabo" não é um filme perfeito - e isso tem pouco a ver se a história contada é real ou pura imaginação de Latif Yahia. A direção de Lee Tamahori é correta, a atuação de Dominic Cooper tem momentos excelentes e tecnicamente o filme é admirável. Porém, nada disso afasta uma sensação de que falta alguma coisa no resultado final. Talvez seja um aprofundamento na vida de Yahia fora de sua relação com Hussein - sua família é brevemente citada mas nunca é permitido ao espectador saber o quanto de sua situação é conhecida por ela, uma vez que, segundo o sósia, ele tinha sido dado como morto na guerra. Talvez seja uma espécie de maniqueísmo na construção dos personagens, que parecem servir ao roteiro mais do que a um retrato da realidade. Ou ainda, no fato de todos os personagens (incluindo aí Saddam Hussein em rápida cena) falarem inglês mesmo com toda a ação se passando no Iraque do final dos anos 1980 (antes, portanto, do atentado ao World Trade Center): é uma escolha compreensível para uma produção que ambiciona o mercado norte-americano, mas não consegue deixar no ar um certo desconforto ao espectador mais exigente em termos de realismo. Nada disso atrapalha, no entanto, a quem procura um entretenimento de qualidade e bem acima da média.

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