sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O GUARDA-COSTAS

O GUARDA-COSTAS (The bodyguard, 1992, Warner Bros, 129min) Direção: Mick Jackson. Roteiro: Lawrence Kasdan. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Donn Cambern, Richard A. Harris. Música: Alan Silvestri. Figurino: Susan Nininger. Direção de arte/cenários: Jeffrey Beecroft/Lisa Dean. Produção: Kevin Costner, Lawrence Kasdan, Jim Wilson. Elenco: Kevin Costner, Whitney Houston, Gary Kemp, Bill Cobbs, Ralph Waite, Michele Lamar Richars. Estreia: 25/11/92

2 indicações ao Oscar: Melhor Canção ("I have nothing", "Run to you")

Primeiro, na metade dos anos 70, o projeto que seria estrelado por Diana Ross e Steve McQueen foi cancelado por ser considerado muito controverso (vale lembrar que o racismo era uma chaga social ainda maior no período). Poucos anos depois, ainda na mesma década, ele voltou à baila, novamente com Ross cotada como estrela, mas dessa vez ao lado do ex-namorado Ryan O'Neal - e novamente ficou só no papel, justamente porque as diferenças entre os outrora amantes impediram que a coisa andasse. Foi preciso, então, praticamente outros vinte anos para que finalmente "O guarda-costas" visse a luz dos refletores. E, levando-se em consideração o estouro de bilheteria - e o status de clássico kitsch que amealhou com o passar do tempo, devido às inúmeras apresentações na televisão - o filme que conta a história de amor entre um guarda-costas branco e uma estrela da música pop negra (que vem a ser sua cliente) não poderia ter estreado em melhor momento. Estrelado por um Kevin Costner no auge da popularidade - ainda surfando na onda do prestígio acumulado pelos sete Oscar de seu "Dança com lobos" (90) e pela polêmica do genial "JFK" (91), de Oliver Stone - e pela cantora Whitney Houston - que estreava no cinema no rastro de seu êxito nas paradas de sucesso - "O guarda-costas" custou a bagatela de 25 milhões de dólares e  arrecadou mais de 120 milhões só no mercado doméstico (EUA e Canadá), além de ver sua trilha sonora quebrar recordes de vendas, puxada pela música-chiclete da década, "I will always love you", hit country que Houston regravou especialmente para o filme e transformou em uma das canções mais emblemáticas de sua carreira.

Houston - que morreu precocemente, vítima de uma overdose em 2012 - não era uma atriz de muitas nuances, mas era dona de uma beleza delicada e de um carisma inegável, o que fez dela a escolha ideal para o papel da protagonista do filme de Mick Jackson, que até então não apresentava nada mais recomendável no currículo do que a comédia romântica "L.A. Story", estrelada por Steve Martin em 1991. Marron, vivida por Houston no filme, é uma cantora extremamente popular, linda, milionária e talentosa que, em vias de também ser reconhecida como grande atriz ao ser indicada ao Oscar, passa a ser ameaçada (via cartas anônimas e bombas caseiras) de morte. Para protegê-la, é contratado Frank Farmer (Kevin Costner), famoso como o melhor do ramo e por ter entre suas regras não trabalhar com celebridades. O pagamento generoso, porém, faz com que ele mude de ideia, mas logo ele percebe que terá muito trabalho pela frente: não apenas a equipe da cantora não é exatamente simpática à ideia de um estranho circulando e impondo ordens, mas a própria estrela, subestimando o perigo que corre, o trata apenas como mais um empregado. As coisas mudam, no entanto, quando ela se apaixona por ele, é correspondida, e o criminoso começa a dar sinais de estar mais perto do que se pensava.


O roteiro de "O guarda-costas" - escrito pelo cineasta Lawrence Kasdan - é repleto de clichês, mas eles desfilam pela tela banhados em um visual tão caprichado que é difícil não se deixar conquistar. A mansão de Marron - a mesma utilizada por Francis Ford Coppola na famosa cena da cabeça de cavalo em "O poderoso chefão" (72) - é espetacular, assim como as referências do cineasta aos clássicos "Metrópolis" (22), de Fritz Lang (citado plasticamente no videoclipe "Queen of the night") e "Yojimbo, o guarda-costas", de Akira Kurosawa (filme preferido do personagem de Costner, que o assiste em companhia de sua cliente/namorada). Tais momentos desviam a trama de sua previsibilidade e até mostram o dedo de Kasdan, um roteirista/diretor que sempre demonstrou carinho pelas tradições cinematográficas - haja visto sua revisita ao western em "Silverado" e seu script para o vitorioso "Caçadores da arca perdida" (81). Aqui ele equilibra o tom cerebral do cinema policial dos anos 70 com referências à cultura popular da década de 90, evitando tanto a violência excessiva quanto o erotismo que se tornaria ingrediente obrigatório em filmes de suspense após o sucesso de "Instinto selvagem" (92). O romance entre Farmer e Rachel beira o puritanismo (a cena de amor entre eles é basicamente um beijo e um corte para a manhã seguinte) e as sequências em que Frank precisa passar à ação soam mais como uma justificativa para enquadrar o filme no gênero policial do que uma necessidade orgânica do roteiro.

Apesar dos pesares, porém, "O guarda-costas" é um dos filmes-ícone dos anos 90 e sobrevive incólume a quaisquer críticas e esnobismo por parte dos cinéfilos mais intelectualoides. Suas constantes reprises na TV aberta ainda conquistam audiência, a trilha sonora entoada por Whitney Houston se mantém inesquecível e é difícil encontrar alguma pessoa que nunca tenha o assistido ao menos uma vez. Um clássico moderno, a despeito de suas falhas.

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