quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

PARA O RESTO DE NOSSAS VIDAS

PARA O RESTO DE NOSSAS VIDAS (Peter's friends, 1992, BBC/Channel Four Films/Renaissance Films, 104min) Direção: Kenneth Branagh. Roteiro: Rita Rudner, Martin Bergman. Fotografia: Roger Lanser. Montagem: Andrew Marcus. Figurino: Susan Coates, Stephanie Collie. Direção de arte/cenários: Tim Harvey/Martin Childs. Produção executiva: Stephen Evans. Produção: Kenneth Branagh. Elenco: Kenneth Branagh, Emma Thompson, Stephen Fry, Hugh Laurie, Imelda Staunton, Alphonsia Emmanuel, Richard Briers, Phyllida Law. Estreia: 18/9/92 (Festival de Toronto)

Depois que chamou a atenção do público, da crítica e da Academia de Hollywood com sua visão quase melancólica de "Henry V", de 1988 - pelo qual concorreu aos Oscar de ator e diretor - o irlandês Kenneth Branagh mudou-se de mala e cuia para a terra do cinema e foi brincar de Hitchcock. Seu estiloso "Voltar a morrer" (91) não obteve a mesma receptividade generosa, apesar das inúmeras qualidades, e ele fez então o que lhe pareceu mais sensato: deixou de lado qualquer projeto mais ambicioso, correu para sua amada Inglaterra, chamou um grupo de talentosos amigos e lançou "Para o resto de nossas vidas", um pequeno grande filme sobre amizade, companheirismo e os efeitos do tempo. Injetando uma bem-vinda dose do típico humor britânico em uma trama que poderia soar repetitiva ao público acostumado com histórias semelhantes - desde, no mínimo, "O reencontro" (83), de Lawrence Kasdan - Branagh contou com um brilhante roteiro e um elenco excepcional (que inclui atores que posteriormente ficariam mais conhecidos da audiência, como Hugh Laurie e Imelda Staunton) para mostrar que sua versatilidade não tinha tamanho.

O próprio Branagh e sua então esposa Emma Thompson estão no elenco do filme, que começa no Reveillon de 1982, quando um grupo de teatro amador de Londres tenta sem muito sucesso chamar a atenção dos milionários convidados da festa. Dez anos mais tarde - com o país transformado política e socialmente pelo governo de Margaret Tatcher - a companhia se desfez, cada um seguiu seu caminho na vida e um encontro entre eles é fato raríssimo. Por isso, nenhum deles é capaz de dizer não quando Peter Morton (Stephen Fry), que acaba de perder os pais, os convida para romper o ano em sua espetacular mansão. Solitário, introspectivo - e com um segredo que pretende revelar ao final do feriado - Peter nem percebe que é o alvo das atenções de Maggie (Emma Thompson), solteirona que trabalha no mercado editorial e que decide que é a mulher certa para ele. Quem também tem problemas em encontrar a alma gêmea é Sarah (Alphonsia Emmanuel), cujo namorado atual, Brian (Tony Slattery), com quem mantém uma relação recente e sexualmente insaciável, é casado e pai de um menino. Sarah já namorou Andrew (Branagh), que abandonou a Inglaterra para tentar a sorte na Califórnia e casou-se com Carol (Rita Rudner, co-autora do espirituoso roteiro), uma perua vaidosa que é conhecida pelo papel em uma telenovela diurna sem maiores qualidades artísticas. Completam o círculo de amigos o casal formado por Roger (Hugh Laurie) e Mary (Imelda Staunton), que trabalham compondo jingles publicitários e convivem com o drama de ter perdido um de seus gêmeos ainda bebê.


"Para o resto de nossas vidas" tinha tudo para ser um festival de clichês, mas, milagre dos milagres, funciona maravilhosamente bem, principalmente por sua acertada opção em salientar o humor das situações propostas pela trama. Mesmo dramas mais densos, como o vivido pelo casal obrigado a suportar a morte de um filho - e a revelação final de Peter, que dá sentido à reunião proposta no argumento - são tratados com leveza e discrição, o que impede o filme de descambar para o dramalhão lacrimoso. Os diálogos afiados soam orgânicos e naturais, com críticas pouco disfarçadas, por exemplo, à comunidade do entretenimento americano, à cultura exagerada da beleza e às diferenças culturais existentes entre EUA e Inglaterra. E é preciso dizer que tais diálogos, que assumem quase a estrutura de uma peça de teatro (o que é condizente, de certa forma, com a origem dos personagens), encontram um elenco à altura. Em meio a tantos bons atores - todos beneficiados com ao menos uma grande cena - destacam-se Emma Thompson e Imelda Staunton. Enquanto Imelda brilha como a neurótica Mary (que põe seu casamento em risco com a obsessão de cuidar do único filho que ainda tem) sem precisar nem ao menos falar muito, Thompson quase rouba o filme na pele da divertida Maggie. Conhecida até então por desempenhos mais sérios - sendo que um deles, "Retorno a Howards End", lhe daria um Oscar já em 1993 - ela deixa vislumbrar um delicioso senso de humor que Hollywood tentaria explorar sem muito sucesso (mais por culpa do filme do que por dela) em "Junior" (94).

Pontuado por uma vibrante trilha sonora que inclui sucessos de Cyndi Lauper, The Pretenders, Al Green, Tina Turner e Tears for Fears, "Para o resto de nossas vidas" cumpre com louvor tudo que promete. Faz rir, pode emocionar, envolve com personagens verossímeis e repletos de falhas de caráter (e ainda assim encantadores) e, de quebra, dá a sensação de estar acontecendo na casa ao lado. Poucas vezes Kenneth Branagh foi tão despretensioso. E poucas vezes acertou tão em cheio.

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