segunda-feira

O GRANDE TRUQUE

O GRANDE TRUQUE (The prestige, 2006, Warner Bros/Touchstone Pictures, 130min) Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan, Jonathan Nolan, romance de Christopher Priest. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Lee Smith. Música: David Julyan. Figurino: Joan Bergin. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Julie Ochipinti. Produção executiva: Chris J. Ball, Valerie Dean, Charles J.D. Schlissel, William Tyler. Produção: Christopher Nolan, Aaron Ryder, Emma Thomas. Elenco: Hugh Jackman, Christian Bale, Scarlett Johansson, Michael Caine, Piper Perabo, Rebecca Hall, David Bowie, Andy Serkis. Estreia: 17/10/06

2 indicações ao Oscar: Fotografia, Direção de Arte/Cenários

Somente um cineasta do porte e da inteligência de Christopher Nolan conseguiria fazer de seu "filme de descanso" entre dois blockbusters - e no caso a expressão blockbuster assume proporções gigantescas, por se falar dos dois primeiros capítulos de sua reivenção do Homem-morcego - um trabalho tão interessante, empolgante e caprichado como "O grande truque". Carregando para o projeto sua equipe de confiança - que incluiu o fotógrafo Wally Pfister, o editor Lee Smith e o Batman em pessoa, Christian Bale, o diretor construiu um thriller de suspense elegante que fala muito mais ao cérebro do que aos músculos, comprovando seu imenso talento em criar pequenas obras-primas.

Baseado em um romance do escritor Christopher Priest - que optou por Nolan em detrimento de Sam Mendes por ser fã de seus "Amnésia" e "Insônia" - e roteirizado pelo próprio diretor e seu irmão Jonathan, "O grande truque" é daqueles filmes que exigem do espectador atenção absoluta, uma vez que brinca de maneira sagaz com as aparências e com pistas deixadas por toda a projeção. Como bom filme sobre mágicos - e em sua temporada surgiu também o pouco visto mas também interessante "O ilusionista", com Edward Norton, que dividiu com ele uma indicação ao Oscar de fotografia - o trabalho de Nolan utiliza a complexidade de sua trama para prender o espectador na poltrona desde seu arrebatador início até seu surpreendente (e coerente) final.


"O grande truque" conta, em sua essência, a história da rivalidade entre dois mágicos na Londres do século XIX, que começa com uma tragédia: o famoso Robert Angier (Hugh Jackman) perde a esposa durante um número e culpa seu então melhor amigo e assistente Alfred Borden (Christian Bale) pelo ocorrido. Sentindo-se injustiçado e ofendido por quem tinha em alto apreço, Borden inicia uma carreira paralela, sempre desejando obter mais sucesso do que seu agora rival. A disputa entre eles passa a atingir níveis extremos de suspense, até que uma nova mulher (Scarlett Johansson) surge entre eles, tornando o jogo ainda mais perigoso.

Quanto menos se souber a respeito da trama de "O grande truque" melhor a diversão. Christopher Nolan não tem medo de lançar pistas falsas e dicas verdadeiras durante a narrativa, sempre desafiando a lógica e a perspicácia da audiência com reviravoltas em número o suficiente para conquistar a todos. Dotado de um ritmo específico, sem pressa mas nunca monótono, o filme se beneficia também da palpável atmosfera criada pela fotografia de Wally Pfister e pela impecável reconstituição de época. Hugh Jackman - entrando no seleto grupo do diretor, que ainda conta com o habitual Michael Caine e o cantor David Bowie em uma participação especial como o cientista Nikola Testa - está soberbo como o quase arrogante Robert Angier, em uma atuação que o livra do estigma de uma personagem só (e no caso o icônico Wolverine) e mostra suas capacidades dramáticas e Christian Bale prova que tem tudo para ser um dos grandes atores britânicos de sua geração.

Excitante, esperto e sóbrio, "O grande truque" é um filme que merece ser visto e revisto, para que todos os seus elementos sejam devidamente degustados e apreciados. Filmaço!

sábado

OS INFILTRADOS

OS INFILTRADOS (The departed, 2006, Warner Bros, 151min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: William Monahan, roteiro original de Alan Mak, Felix Chong. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Thelma Schoonmaker. Música: Howard Shore. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Leslie Rollins. Produção executiva: G. Mac Brown, Doug Davison, Kristin Hahn, Roy Lee, Gianni Nunnari. Produção: Brad Grey, Graham King, Brad Pitt. Elenco: Leonardo DiCaprio, Matt Damon, Jack Nicholson, Martin Sheen, Mark Wahlberg, Vera Farmiga, Ray Winstone, Alec Baldwin, James Badge Dale. Estreia: 26/9/06

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Martin Scorsese), Ator Coadjuvante (Mark Wahlberg), Roteiro Adaptado, Montagem
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Martin Scorsese), Roteiro Adaptado, Montagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Diretor (Martin Scorsese)

Tudo bem que Martin Scorsese sempre mereceu o Oscar, desde seus tempos de "Taxi driver" e "Touro indomável". Mas foi somente a partir de 1990, quando sua obra-prima "Os bons companheiros" perdeu a estatueta para o soporífero "Dança com lobos" que a injustiça começou a ficar constrangedora. A partir de 2003, então, com o lançamento do aguardado "Gangues de Nova York", qualquer projeto do cineasta era tido como "o filme que vai dar o Oscar a Scorsese". As expectativas foram frustradas tanto no ambicioso retrato do surgimento da capital do mundo - que dividiu a crítica - quanto em seu filme seguinte, "O aviador", biografia do empresário/cineasta/mulherengo Howard Hughes, que chegou à cerimônia cheio de moral mas saiu basicamente com prêmios técnicos (com exceção da merecida premiação de Cate Blanchett como coadjuvante), nocautedo por "Menina de ouro", de Clint Eastwood. Foi preciso que o velho e bom Marty voltasse ao que melhor sabe fazer - estilizar a violência - para que finalmente o feitiço fosse quebrado. "Os infiltrados", refilmagem de um original de Hong Kong que encontrou nele seu diretor ideal, ganhou 4 estatuetas douradas: filme, diretor, roteiro adaptado e montagem. Não é preciso dizer que mereceu todas.

Depois de flertar com os mais variados gêneros - o suspense "Cabo do medo", o romântico "A época da inocência" e até o budista "Kundun" - Scorsese percebeu que pertence mesmo ao universo dos gângsters, personagens que influenciaram sua carreira desde sempre. E por mais genial que ele seja em qualquer tipo de produção, fica patente em cada cena de "Os infiltrados" seu gosto pelo estilo, sua paixão por personagens à margem da sociedade, por complexidades psicológicas e éticas. Assim como suas mais famosas personagens - o Travis Bickle de "Taxi driver" e o autodestrutivo Jake La Motta de "Touro indomável", duas criações impecáveis de Robert De Niro - os protagonistas de seu filme estão exauridos emocionalmente, à beira de um ataque de nervos, fugindo da própria alma. E é nesse vão entre a verdade e a violência que se esconde a perfeição da obra do cineasta.


Leonardo DiCaprio - queridinho de Scorsese desde "Gangues" - é mais do mesmo em sua atuação como Billy Costigan, um jovem oriundo de uma família de criminosos que é infiltrado pela polícia de Boston na quadrilha do mafioso Frank Costello (Jack Nicholson) para que ele encontre provas que o levem à prisão. Ao mesmo tempo, o próprio Costello tem ideia semelhante, empurrando Colin Sullivan (Matt Damon), homem de sua confiança, para servir como policial e lhe passar informações que podem lhe ser úteis. Não demora muito para que tanto a força policial quanto a gangue de Costello descubram que traidores estão entre seus homens, e uma caçada sangrenta tem início.

Se a trama de "Os infiltrados" já é empolgante no papel, na tela ela é nunca menos que eletrizante, graças principalmente ao roteiro extraordinário de William Monaghan - que expande as ideias do filme original - e à edição caprichada de Thelma Schoonmaker, que não é a profissional mais fiel do cineasta à toa. Transformando a trajetória de Billy e Colin em um jogo de gato e rato claustrofóbico e tenso, Monaghan ainda consegue inserir elementos de humor (em especial quando entra em cena Mark Whalberg como um policial nada simpático à personagem de DiCaprio) e uma densidade psicológica muito interessante a seus protagonistas, principalmente quando ambos se envolvem com a mesma mulher, a psicóloga da polícia vivida com apatia por Vera Farmiga (talvez o único senão do filme). Utilizando a violência de maneira exemplar - sem medo da censura de plateias mais suscetíveis a ela - e sem nunca deixar de explorá-la das maneiras mais eficazes, Scorsese também demonstra uma segurança gigantesca na direção de atores. Até mesmo Jack Nicholson consegue estar mais contido - mesmo que escorregue vez ou outra em uma deliciosa interpretação de si mesmo - e o elenco coadjuvante nunca fica atrás (e sobrou inclusive para Mark Whalberg, indicado ao Oscar de coadjuvante).

Empolgante, inteligente e avassalador, "Os infiltrados" também converteu-se na maior bilheteria da carreira de Martin Scorsese, um dos mais geniais cineastas americanos em atividade. Nada mais justo e admirável.

sexta-feira

A RAINHA

A RAINHA (The queen, 2006, Pathe International Pictures, 103min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: Peter Morgan. Fotografia: Affonso Beato. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Consolata Boyle. Direção de arte/cenários: Alan MacDonald/Tina Jones. Produção executiva: François Ivernel, Cameron McCracken, Scott Rudin. Produção: Andy Harries, Christine Langan, Tracey Seaward. Elenco: Helen Mirren, Michael Sheen, James Cromwell, Alex Jennings, Roger Allam, Sylvia Syms. Estreia: 02/9/06 (Festival de Veneza)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Stephen Frears), Atriz (Helen Mirren), Roteiro Original, Trilha Sonora Original, Figurino
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Helen Mirren)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Helen Mirren)

A temporada 2006 de cinema foi particularmente generosa para a realeza. Enquanto Forest Whitaker extasiou o mundo com sua atuação espetacular como o ditador de Uganda Idi Amin Dada em "O último rei da Escócia", a inglesa Helen Mirren promoveu um arrastão nas cerimônias de premiação com seu trabalho irretocável como a Elizabeth II no festejado "A rainha", dirigido por Stephen Frears. Ovacionada pelos espectadores do Festival de Veneza - quando a obra foi lançada - Mirren pavimentou seu caminho para ganhar, entre vários outros prêmios, o Golden Globe e o Oscar. Quem assiste ao filme percebe claramente os motivos para tal comoção.

Fugindo da tentação de fazer uma simples imitação da monarca - ainda viva e ainda atuante - Mirren construiu uma personagem multidimensional, que equilibra uma frieza quase glacial com a maturidade necessária para o cargo que ocupa diante de seus respeitosos súditos. Esse respeito, porém, entra em xeque com a morte da princesa Diana, que deixa o mundo todo - e em especial os ingleses - em estado de choque. Considerando o fato de que a sua ex-nora não fazia mais parte da realeza depois do divórcio, a rainha não concorda com a pressão da mídia e da sociedade em geral para que seu funeral seja realizado com honras reais. Sua decisão acaba sendo o motivo pelo qual o primeiro-ministro Tony Blair (Michael Sheen), recém eleito, sempre esperava para levantar sua bandeira de um governo mais moderno.


O roteiro de Peter Morgan - que segue da maneira mais fiel possível os fatos retratados - brilha por ser isento de qualquer tipo de julgamento moral, se atendo a descrever alguns dos mais difíceis dias da história da monarquia britânica com sobriedade e elegância, sem deixar de lado nem mesmo o tipíco humor local, sempre de maneira discreta e sutil. Já Stephen Frears - conhecido por obras impecáveis como "Ligações perigosas" e "Alta fidelidade", bastante díspares entre si - mostra um outro lado de seu talento, mantendo-se humilde diante da história narrada. Sua direção não apela para ângulos de criatividade duvidosa ou uma edição nervosa, preferindo deixar que a trama siga por si mesma, sem maiores intromissões. Contando com uma direção de arte esplêndida e uma trilha sonora das melhores do ano - merecidamente indicada ao Oscar - ele faz de seu filme uma homenagem justa e - melhor ainda! - respeitosa à memória de Diana, cujo carisma é comprovado pelas cenas de arquivo utilizadas na montagem final. Ao confrontar o antigo (a monarquia, na figura quase anacrônica de sua majestade maior) com o moderno (Tony Blair e sua desajeitada mas bem intencionada vontade de ajudar o país e seu povo), o roteiro de Morgan e a direção de Frears apontam para uma discussão sadia e bastante interessante, ajudada pelo elenco, que faz extraordinário uso dos diálogos que lhe cabem.

Se James Cromwell está competente como sempre como o príncipe Phillip e Michael Sheen deita e rola com as possibilidades de seu Tony Blair, é inegável que é mesmo Helen Mirren quem comanda o show, com um trabalho baseado em detalhes. Os olhares, os gestos comedidos, o tom de voz e as expressões faciais com que Mirren monta sua Elizabeth II é que mostram porque atrizes como ela são raras e especiais. Mesmo que na disputa por sua estatueta estivessem nomes de peso como Judi Dench, Kate Winslet e Meryl Streep, o prêmio realmente deveria ser dela. Uma premiação incontestável!

quinta-feira

O ÚLTIMO REI DA ESCÓCIA


O ÚLTIMO REI DA ESCÓCIA (The last king of Scotland, 2006, Fox Searchlight, 121min) Direção: Kevin MacDonald. Roteiro: Peter Morgan, Jeremy Brock, livro de Giles Foden. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Montagem: Justine Wright. Música: Alex Heffes. Figurino: Michael O'Connor. Direção de arte/cenários: Michael Carlin/Tina Jones. Produção executiva: Andrew Macdonald, Allon Reich, Tessa Ross. Produção: Lisa Bryer, Andrea Calderwood, Charles Steel. Elenco: Forest Whitaker, James McAvoy, Gillian Anderson, Kerry Washington, Simon McBurney. Estreia: 01/9/06 (Festival de Telluride)

Vencedor do Oscar de Melhor Ator (Forest Whitaker)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Forest Whitaker)

Entre a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1988 pelo sensacional desempenho como o músico Charlie Parker em "Bird" e a consagração com o Oscar por sua interpretação de Idi Amin Dada, ditador de Uganda, o ator Forest Whitaker esperou quase vinte anos. Nesse meio-tempo ele mostrou seu rosto e seu talento em projetos tão díspares quanto os elogiados "Traídos pelo desejo" e "Cortina de fumaça" e os puramente comerciais como "A experiência", "Fenômeno" e "O quarto do pânico", além de aventurar-se também na cadeira de diretor, assinando obras corretas como "Falando de amor" - estrelado por Whitney Houston e Angela Bassett - e "Quando o amor acontece", com Sandra Bullock pré-Oscar. Apesar de sempre apresentar trabalhos dignos e competentes, porém, não deixou de ser uma surpresa das melhores vê-lo em ação em "O último rei da Escócia", dirigido por Kevin MacDonald: na pele de Idi Amin, o ator texano proporciona ao público uma estarrecedora atuação, que merecidamente avocanhou todos os prêmios da temporada, sem dar chance à concorrência.

Se formos levar em consideração as regras dos manuais de roteiro e assemelhados, Whitaker nem é o verdadeiro protagonista do filme de MacDonald: assim como aconteceu com Anthony Hopkins em "O silêncio dos inocentes", sua personagem é a alma da produção, o que a empurra pra frente, mas o ponto de vista da narrativa não é seu, e sim do jovem médico inglês Nicholas Garrigan (o ótimo James McAvoy), que, recém formado e em busca de experiência profissional - e de fugir do jugo de seu pai dominador - parte para Uganda, onde começa a trabalhar com um casal de médicos (Adam Kotz e a eterna Scully, Gillian Anderson). Pouco depois de sua chegada, um imprevisto o coloca frente a frente com o presidente do país, o temido Idi Amin (um assustador Whitaker, oscilando entre a doçura e o terror). Impressionado com o rapaz, o ditador o convence a aceitar o cargo de médico particular - e logo Nicholas estará sendo testemunha ocular dos bastidores do poder, em que atrocidades monstruosas convivem em aparente tranquilidade com uma imagem paradoxal do presidente. Garrigan, atônito, descobre que Amin é o responsável por um legítimo genocídio, mas se vê aprisionado por sua lealdade. Essa lealdade, por outro lado, é posta à prova quando ele se encanta por Kay (Kerry Washington), terceira mulher do mandatário supremo do local. Arriscando a própria vida, ele inicia um intenso romance com ela.



Baseado no livro de Giles Folden - que se utiliza de fatos reais mas é uma obra de ficção - o roteiro de Peter Morgan e Jeremy Brock acerta em optar pelo ponto de vista de Nicholas Garrigan ao invés de centrar sua trama no polêmico ditador: os olhos de Garrigan são também os olhos da audiência, que vai tomando conhecimento aos poucos de todo o horror que se esconde atrás dos discursos ufanistas do governante, até chegar em suas sequências finais, de uma violência física e psicológica ímpares no cinemão. Kevin MacDonald, estreando em longas-metragens com o pé direito, não tem medo de explicitar a sangrenta forma com que Amin lidava com seus desafetos e isso mantém o suspense sempre em altos níveis, sem nunca deixar de lembrar que está contando uma história política e não se inscrevendo na lista de filmes de terror. O sangue que escorre na tela é real, é humano, é infelizmente derramado sem motivos, o que aumenta a sensação de perigo e indignação. E, sem dúvida, é Forest Whitaker quem comanda tudo com maestria.

Mantendo-se na personagem mesmo quando estava fora de cena, Whitaker construiu um Idi Amin antológico, sem exageros mas extremamente fiel à realidade. Quem lembra do ator na pele de inúmeras outras personagens dóceis e pacatas leva um susto ao vê-lo destilando ódio, fúria e violência, em uma interpretação simplesmente impecável. Mesmo ao lado de atores excelentes como James McAvoy, ele chama todas as cenas para si, com um magnetismo que se equipara ao do próprio Amin, considerado um político carismático e popular até que começou a mostrar sua verdadeira face. Se seu mandato foi trágico e triste, ao menos rendeu um ótimo filme, que não apenas narra episódios grotescos, mas convida o público a compartilhar deles, graças à ótima trilha sonora e à fotografia em cores quentes que dão a nítida sensação de estar em Uganda. Vale a pena conferir.

quarta-feira

PECADOS ÍNTIMOS

PECADOS ÍNTIMOS (Little children, 2006, New Line Cinema, 137min) Direção: Todd Field. Roteiro: Todd Field, Tom Perrotta, romance de Tom Perrotta. Fotografia: Antonio Calvache. Montagem: Leo Trombetta. Música: Thomas Newman. Figurino: Melissa Economy. Direção de arte/cenários: David Gropman/Susan Bode-Tyson. Produção executiva: Kent Alterman, Toby Emmerich, Patrick Palmer. Produção: Albert Berger, Todd Field, Ron Yerxa. Elenco: Kate Winslet, Patrick Wilson, Jennifer Connelly, Jackie Earle Haley, Noah Emmerich, Gregg Edelman, Trini Alvarado. Estreia: 01/9/06 (Festival de Telluride)

3 indicações ao Oscar: Atriz (Kate Winslet), Ator Coadjuvante (Jackie Earle Haley), Roteiro Adaptado

Em 1999, o livro "Eleição" virou um delicioso filme repleto de humor negro nas mãos de Alexander Payne e nas interpretações geniais de Matthew Broderick e Reese Witherspoon. Ao contar uma história sobre a obsessão de uma jovem estudante pelo sucesso e pelo desprezo de um professor por sua personalidade arrivista, seu autor, Tom Perrotta demonstrou um senso de ironia que contrastava com o ranço politicamente correto que já assolava os EUA. Em "Criancinhas", porém, ele trocava a ironia por uma visão quase amarga e melancólica sobre as famílias suburbanas e suas interrelações. Não demorou para que logo surgisse uma adaptação para o cinema - que recebeu o título brasileiro de "Pecados íntimos", o que lhe tira a sutileza e um maior alcance metafórico. Adaptada pelo próprio Perrota e pelo diretor Todd Field, sua trama, que joga na mesma vizinhança um romance extraconjugal e a possível ameaça de um pedófilo tentando recomeçar a vida, ganha ressonâncias dramáticas apenas rascunhadas nas páginas impressas.

Essa ressonância já começa pela acertada escalação da sempre excepcional Kate Winslet em um dos papéis centrais da história. Ela vive - com a competência de sempre, que lhe valeu uma indicação ao Oscar - Sarah Pierce, uma dona-de-casa que vive com o marido mais velho e a filha pequena em um subúrbio cercado de outras famílias parecidas. Sua vida pacata e tediosa dá um salto quando ela - sempre relagada a segundo plano pelas próprias vizinhas por não se encaixar no ideal de esposa de classe média - conhece o jovem, bonitão e charmoso Brad Adamson (Patrick Wilson, sugerido por Winslet e perfeito no papel), advogado que luta para passar no exame da ordem e, enquanto isso, cuida do filho também pequeno e é sustentado pela esposa, Kathy (Jennifer Connelly), uma documentarista séria e com quem mantém uma relação quase fria. Sentindo-se atraídos um pelo outro - e identificando-se com o vazio de suas vidas matrimoniais - eles se envolvem em um apaixonado romance, mesmo que não saibam direito o que fazer com ele. Concomitantemente, seu bairro inicia uma campanha contra Ronnie McGorvey (Jackie Earle Haley), homem que saiu da cadeia depois de uma condenação por pedofilia e que volta a morar na casa de sua mãe.



O título original do romance de Perrotta, "Criancinhas" é de uma fina ironia, perdida na sua "tradução" nacional: quando se lê o livro (e quando se vê o filme, mas de forma menos óbvia) percebe-se claramente que as criancinhas do título não são os filhos de Sarah e Brad nem tampouco as possíveis vítimas de Ronnie e sim os próprios pais. Sarah e Brad não tem maturidade para evoluir em seu caso extraconjugal, deixando sempre que o medo e o comodismo ditem suas atitudes - o marido de Sarah procura sexo na Internet e ela se sente incapaz de deixá-lo e Brad sonha em voltar ao skate, como forma de manter-se eternamente jovem e adolescente. Pairando sobre eles, a dor de Ronnie em seu desajuste e suas tentativas desesperadas de ser "normal" consegue comover, em especial quando entra em cena sua mãe - em sensacional atuação de Phyllis Somerville - e quando ele tem um encontro forçado com uma pretendente - participação pequena de Jane Adams (que atuou em "Felicidade", de Todd Solondz, que também desvendava os segredos dos subúrbios americanos).

Inteligente, sexy e um tanto melancólico, "Pecados íntimos" é um filme pequeno, recheado de pequenos acontecimentos, tornado enormes pela dimensão dentro da vida de suas personagens. É um filme como a vida, e como tal, surpreende, encanta e não deixa ninguém incólume.

terça-feira

ZUZU ANGEL


ZUZU ANGEL (Zuzu Angel, 2006, Warner Bros, 108min) Direção: Sérgio Rezende. Roteiro: Marcos Bernstein, Sérgio Rezende. Fotografia: Pedro Farkas. Montagem: Marcelo Moraes. Música: Cristóvão Bastos. Figurino: Kika Lopes. Direção de arte/cenários: Daniel Flaksman, Marcos Flaksman. Produção executiva: Heloísa Rezende. Produção: Joaquim Vaz de Carvalho. Elenco: Patrícia Pillar, Daniel de Oliveira, Leandra Leal, Alexandre Borges, Regiane Alves, Othon Bastos, Luana Piovani, Antonio Pitanga, Elke Maravilha, Caio Junqueira. Estreia: 27/7/06

Praticamente um especialista em cinebiografias políticas nacionais, o cineasta Sergio Rezende tem no currículo filmes importantes, como "O homem da capa preta", "Lamarca" e "Mauá - O imperador e o rei". Dando continuidade a seu invejável currículo, "Zuzu Angel" dá um passo a frente em sua obra, injetando emoção e dor a uma técnica competente e eficaz. Evitando contar a vida inteira da estilista brasileira que dá nome ao filme e preferindo focar sua atenção a um determinado período de tempo - mais precisamente na história de sua trágica busca pela verdade a respeito do único filho homem, preso pela ditadura militar que manchou de sangue e pólvora a história do Brasil de 1964 a 1979.

Contando com uma caprichada reconstituição de época, Rezende joga o espectador em seu filme, aproximando-o corajosamente do drama de Zuzu (uma bela e competentíssima Patrícia Pillar) sem rodeios e sem medo de parecer sentimental. Mesclando um thriller político eletrizante com momentos de pura emoção - em especial quando estão em cena Patrícia e Daniel de Oliveira, que vive seu filho, Stuart Angel - o filme de Rezende, co-escrito em parceria com Marcos Bernstein atinge a plateia sem maiores dificuldades. Linear e claro, o roteiro não se furta a apontar culpados e eleger sua protagonista como heroína, mas foge do maniqueísmo por uma razão bastante simples: ela o é, como sua trajetória deixa bem explícito.



Uma das estilistas nacionais mais respeitadas no exterior, Zuzu Angel - mãe da jornalista e atriz Hildegard Angel, interpretada por Regiane Alves no filme - estava no auge de sua carreira quando uma sombra negra ofuscou seu sucesso. Seu único filho, Stuart (mais um grande trabalho de Daniel de Oliveira), é preso pelo DOPS, que nega a operação e se recusa a informar seu paradeiro. Desesperada - e contando com a ajuda velada de testemunhas temerosas - ela parte em busca de informações e, quando finalmente se conforma com a ideia da morte do rapaz, de seu corpo. Nesse meio tempo, passa a ser acuada, ameaçada e desacreditada pelos órgãos do governo, chegando inclusive a tentar chamar a atenção internacional, através do contato com Kissinger. Utilizando até mesmo suas coleções como forma de expressão, ela inspirou Chico Buarque a compor a bela "Angélica" - canção extraordinária que encerra o filme melancolicamente.

Realizado como drama político, mas sem as intermináveis cenas de burocratas discutindo em volta de uma mesa, "Zuz Angel" tem a seu favor a força de sua história (recente, real e brutal) e um elenco espetacular. Patrícia Pillar brilha soberana com uma atuação sutil mas extremamente realista, que atrai a empatia do público sem maiores esforços. Daniel de Oliveira e Leandra Leal (ela como a esposa de Stuart, que também é capturada pela ditadura) estão perfeitos em sua mescla de inocência e pavor. E até mesmo Elke Maravilha - personagem da história real que aqui faz uma ponta afetiva como cantora de uma boate - se sai bem, apesar de sua caracterização na tela (na pele da insossa Luana Piovani) carecer de força e veracidade.

Um dos filmes brasileiros mais bem acabados, interessantes e pungentes da chamada retomada iniciada no início dos anos 90, "Zuzu Angel" é mais um belo gol de placa de Sergio Rezende - que ainda conta com a participação especialíssima de Paulo Betti vivendo o mesmo Lamarca do filme que fizeram juntos em 1994.

domingo

SCOOP, O GRANDE FURO


SCOOP, O GRANDE FURO (Scoop, 2006, BBC Films, 96min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Rei Adefarasin. Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Jill Taylor. Direção de arte/cenários: Nick Palmer, Philippa Hart. Produção executiva: Stephen Tenenbaum. Produção: Letty Aronson, Gareth Wiley. Elenco: Woody Allen, Hugh Jackman, Scarlett Johansson, Ian McShane, Romola Garay. Estreia: 28/7/06

Sempre que Woody Allen lança um filme as expectativas são as maiores. Afinal de contas, o cineasta nova-iorquino é um dos poucos diretores em atividade no cinema americano que consegue - mesmo mantendo a impressionante média de um filme por ano - manter uma coerência de estilo. Logicamente nem toda a sua obra mantém o mesmo nível de obras-primas como "Manhattan", "A rosa púpura do Cairo" ou mesmo o mais recente, "Match point, ponto final", mas é inegável que mesmo seus filmes menos inspirados são muito superiores às comédias medíocres que chegam às telas semanalmente. Um exemplo disso é "Scoop, o grande furo", que não agradou à maioria da crítica mas consegue fazer rir sem maiores dificuldades.

Talvez a maior qualidade de "Scoop" seja contar com Hugh Jackman, o Wolverine em pessoa, exercitando seu timing cômico. Ele vive o charmoso, educado e milionário inglês Peter Lyman, que passa a ser o principal suspeito de ser o temido Assassino do Tarô, que anda aterrorizando Londres. Sem saber que está sendo investigado pela jovem jornalista Sondra Pransky (Scarlett Johansson), ele se apaixona por ela, que se aproxima dele junto de Sidney Waterman (Woody Allen), mágico que se faz passar por seu pai. O que a repórter - também encantada pelo belo herdeiro - não pode lhe contar também é como chegou a seu nome: o furo de reportagem lhe foi passado por Joe Strombel (Ian McShane), jornalista veterano que, já morto, dá a dica depois de um truque de mágica de Sidney.



Mais uma vez utilizando uma trama de suspense como centro da narrativa - como fez em "Match point" e "Misterioso assassinato em Manhattan" - Allen dessa vez não se furta a brindar a plateia com diálogos engraçadíssimos e uma química perfeita com Scarlett Johansson. Mesmo que as surpresas da história não sejam exatamente brilhantes, nota-se perfeitamente seu objetivo de utilizá-los apenas como pano de fundo para explorar as possibilidades de criar um roteiro que se ampara basicamente em suas personagens principais - nem ao menos há coadjuvantes interessantes como é comum na obra do diretor, o que centra tudo principalmente em Johansson e Jackman. Se a atriz não faz muito mais do que tentar mostrar que não é apenas um símbolo sexual, é Jackman quem rouba a cena, mostrando que, mais do que um herói de ação, tem também talento suficiente para brilhar em gêneros diferentes.

Mesmo que não seja o melhor Woody Allen, "Scoop, o grande furo" diverte e entretém com inteligência, bom-humor e sutileza. Para os fãs do diretor, isso é mais do que o bastante.

sábado

PEQUENA MISS SUNSHINE


PEQUENA MISS SUNSHINE (Little Miss Sunshine, 2006, Fox Searchlight Pictures, 101min) Direção: Jonathan Dayton, Valerie Farris. Roteiro: Michael Arndt. Fotografia: Tim Suhrstedt. Montagem: Pamela Martin. Música: Mychael Danna, DeVochtka. Figurino: Nancy Steiner. Direção de arte/cenários: Kalina Ivanov/Melissa Levander. Produção executiva: Michael Beugg, Jeb Brody. Produção: Albert Berger, David T. Friendly, Peter Saraf, Marc Turtletaub, Ron Yerxa. Elenco: Toni Collette, Greg Kinnear, Steve Carrell, Alan Arkin, Paul Dano, Abigail Breslin. Estreia: 20/01/06 (Sundance Festival)

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Alan Arkin), Atriz Coadjuvante (Abigail Breslin), Roteiro Original
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Alan Arkin), Roteiro Original

Não é preciso ser nenhum gênio para saber que os americanos tem uma obsessão quase doentia pelo sucesso. Não fazer parte da elite da sociedade - seja em termos financeiros, estéticos ou culturais - é, por si só, dentro da mentalidade ianque, um sinal insofismável de derrota. E é essa busca desesperada pelo sucesso a mola mestra de "Pequena Miss Sunshine", uma deliciosa comédia dramática que equilibra com perfeição diálogos e cenas impagáveis com momentos de um delicado drama familiar. Inesperado - mas muito merecido - sucesso de bilheteria e crítica, o filme do casal Valerie Farris e Jonathan Dayton foi lançado discretamente no Festival de Cannes de 2006 e meses depois peitava firmemente "Os infiltrados" e "Cartas de Iwo Jima", dos veteranos Martin Scorsese e Clint Eastwood na disputa pelo Oscar de melhor filme.

Realizado a um custo estimado de apenas oito milhões de dólares, "Pequena Miss Sunshine" conquista o público graças principalmente a um elemento muitas vezes subestimado pelos produtores dos blockbusters hollywoodianos: o roteiro. Esperto, ágil e se mantendo magistralmente realista mesmo em seus momentos mais absurdos, o script de Michael Arndt (que venceu o Oscar da categoria) é um estudo de personagens, humano e delicado, capaz de fazer e rir e chorar de emoção na mesma medida, principalmente porque encontrou em seu elenco suas encarnações perfeitas. Preferindo dedicar-se mais à direção de seus atores (todos impecáveis) do que a invenções estilísticas e visuais, Dayton e Ferris construiram um conto a respeito de amor familiar e respeito às diferenças que certamente vai ficar  carinhosamente na memória de seu público como um dos maiores pequenos filmes de seu tempo.



Centrando sua trama exclusivamente na road trip da família Hoover - um bando de pessoas problemáticas, neuroticas e tentando desesperadamente fugir da mediocridade das próprias vidas - "Pequena Miss Sunshine" brinda a audiência com diálogos inteligentes e personagens brilhantes. Os pais da família são Richard (Greg Kinnear) - que tenta entusiasticamente vender um projeto de livro de autoajuda - e Sheryl (Toni Collette), que dá total apoio às ambições do marido enquanto batalha para ser uma mãe presente a seus dois filhos: o mais velho, Dwayne (Paul Dano) está em greve de silêncio como forma de declarar sua admiração por Nietzsche e sua vontade de tornar-se piloto de avião e a caçula, Olive (a adorável Abigail Breslin) tem o sonho de ser eleita a rainha de um concurso de beleza que os levará todos a encarar uma viagem dentro de uma kombi caindo aos pedaços. Junto com eles estarão Edwin (Alan Arkin) - pai de Richard e expulso do asilo por ser viciado em drogas - e Frank Ginsberg (Steve Carrell), irmão de Sheryl, homossexual que tentou o suicídio após ser trocado pelo namorado.

Utilizando a velha kombi como um microcosmo de um núcleo familiar abrangente, o roteiro de Arndt usa e abusa das possibilidades que o road movie - tradicional subgênero do cinema hollywoodiano - lhe oferece. É durante essa viagem que a família Hoover vai ser obrigada a confrontar-se com seus pequenos dramas domésticos e lidar com seus demônios, sempre de forma leve e carinhosa, não pesando a mão nem mesmo quando o destino chega sem avisar e lhes prega uma peça atrás da outra. Composto de silêncios contundentes e diálogos mordazes, o filme tem na figura de Olive - desajeitada, gordinha e dotada de uma inocência apaixonante - seu elemento de catarse. É ela, em sua esperança de tornar-se a Pequena Miss Sunshine do título que serve de porto seguro e elo de união entre seus parentes. É comovente a maneira com que os diretores constroem a relação da menina com aqueles à sua volta, em especial com seu avô - a cena em que ela chora desesperadamente por ter medo de perder o concurso e consequentemente o amor do pai resume com perfeição a ideia de vitória que os americanos cultuam com devoção.

"Pequena Miss Sunshine" é, sem medo de parecer exagero, uma obra-prima de grandes proporções, a despeito do tamanho de sua produção. Engraçado, emocionante, despretensioso e que fica melhor a cada revisão. Para assistir e guardar no coração.

sexta-feira

O DIABO VESTE PRADA


O DIABO VESTE PRADA (The Devil wears Prada, 2006, 20th Century Fox, 109min) Direção: David Frankel. Roteiro: Aline Brosh McKenna, romance de Lauren Weisberg. Fotografia: Florian Ballhaus. Montagem: Mark Livolsi. Música: Theodore Shapiro. Figurino: Patricia Field. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Lydia Marks. Produção executiva: Joe Caraciollo Jr., Karen Rosenfelt. Produção: Wendy Finerman. Elenco: Meryl Streep, Anne Hathaway, Stanley Tucci, Emily Blunt, Simon Baker, Adrian Granier, Gisele Budchen. Estreia: 30/6/06

2 indicações ao Oscar: Atriz (Meryl Streep), Figurino
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Comédia (Meryl Streep)

Ainda bem que não é somente de filmes sérios e densos e adaptações de histórias em quadrinhos repletos de cenas de ação bem-feitas que o cinema hollywoodiano é feito. De vez em quando, uma comédia com um aparente público-alvo limitado surpreende e se torna cult imediato, enchendo os cofres dos estúdios, divertindo a plateia e, pasmem, concorrendo ao Oscar. Logicamente contar com a espetacular Meryl Streep no papel central não atrapalha em nada, mas além da atuação impecável da veterana atriz (rejuvenescida e belíssima em um papel de má que lhe cabe perfeitamente), há muito o que se elogiar em "O diabo veste Prada", divertidíssima adaptação de um bestseller de Lauren Weisberg.

Escrito por Weisberg como uma espécie de vingança bem-humorada contra a editora-chefe da "Vogue" americana, a temida Anna Wintour, o livro tornou-se sucesso imediato nos EUA e chegou às telas sob a direção correta e dotada de exímio ritmo por David Frankel, que assinou vários episódios da série de TV "Sex and the city". Mesmo focalizando sua história nos bastidores do mundo da moda - o que, em tese, poderia atrapalhar sua penetração em outro público-alvo que não mulheres e gays - o filme é também uma crítica mordaz a um estilo de vida glamouroso e fútil e um olhar antenado às transformações sociais que permitem às mulheres a luta pela igualdade no mercado de trabalho. Tudo embalado por uma trilha sonora deliciosa - que inclui Madonna e Alanis Morissette - e um figurino luxuoso assinado por Patricia Field (também vinda de "Sex and the city" e que abocanhou uma indicação ao Oscar por seu primoroso trabalho).



Apesar de ter ganho um Golden Globe e ter concorrido ao Oscar de melhor atriz, Meryl Streep é, na verdade, coadjuvante em "O diabo veste Prada". A protagonista é Andrea Sachs (a bela e competente Anne Hatthaway), jovem recém-formada em Jornalismo e que aceita um trabalho na revista de moda "Runway" apenas como um primeiro passo para uma carreira mais sólida e relevante. Inteligente e culta, Andrea se vê repentinamente inserida em um universo luxuoso e quase surreal, cercada de modelos magérrimas, roupas caríssimas e, pior ainda, uma chefe irascível e aterrorizante, Miranda Prestley (papel de Streep, roubando cada cena com seu invejável timing cômico). Não apenas Andrea precisa lidar com sua falta de jeito com a nova função, mas também com a falta de bom-senso de sua patroa, que lhe incumbe das mais variadas missões como se essas fossem as mais corriqueiras do mundo. Enquanto isso acontece, seu relacionamento com o namorado Nate (Adrian Grenier) entra em crise e ela se vê atraída pelo jornalista Christian Thompson (Simon Baker), mais adequado a esse novo estilo de vida.

Com um humor ferino e sutil, Weisberg criou uma personagem antológica - ainda que chupada radicalmente da realidade - que desfila sua acidez e sua classe por ambientes chiques e destila seu veneno e seu desprezo em festas opulentas e bem frequentadas. Felizmente, o filme consegue fugir do maniqueísmo, emprestando à Miranda uma personalidade em que cabe com verossimilhança um lado frágil e inseguro, demonstrado em uma cena em que Streep aparece desprovida de maquiagem. Na visão de David Frankel, não há vilões e sim pessoas ambiciosas, capazes de atos desprezíveis para atingir seus objetivos mas igualmente donas de certa generosidade bem disfarçada. Essa dualidade é representada com maestria por Meryl Streep mas também ganha o dócil rosto de Anne Hatthaway, cuja personagem precisa, em determinado momento, escolher o caminho certo para sua felicidade.


Contando ainda com um elenco coadjuvante inspiradíssimo - em que se inclui o ótimo Stanley Tucci e a excelente Emily Blunt - "O diabo veste Prada" é um clássico instantâneo, inteligente e muito, muito divertido.

quinta-feira

SUPERMAN, O RETORNO


SUPERMAN, O RETORNO (Superman returns, 2006, Warner Bros, 154min) Direção: Bryan Singer. Roteiro: Michael Dougherty, Dan Harris, estória de Bryan Singer, Michael Dougherty, Dan Harris, personagens de Jerry Siegel, Joe Shuster. Fotografia: Newton Thomas Siegel. Montagem: Elliot Graham, John Ottman. Música: John Ottman. Figurino: Louise Mingenbach. Direção de arte/cenários: Guy Hendrix Dias/Brian Dusting. Produção executiva: William Fay, Chris Lee, Scott Mednick, Thomas Tull. Produção: Gilbert Adler, Jon Peters, Bryan Singer. Elenco: Brandon Routh, Kevin Spacey, Kate Bosworth, James Marsden, Parker Posey, Eva Marie Saint, Frank Langella, Sam Huttington. Estreia: 21/6/06

Indicado ao Oscar de Efeitos Visuais

Depois de quase três décadas desde que Richard Donner fez com que o público acreditasse que um homem podia voar, o Homem de Aço voltou às telas - após anos e mais anos de especulações e projetos frustrados. Dirigido por Bryan Singer, o homem que fez dos mutantes da Marvel personagens extremamente rentáveis também no cinema com os dois primeiros capítulos de "X-Men", "Superman, o retorno" acabou decepcionando tanto os fãs mais fieis da cultuada personagem quanto seu estúdio, a Warner Bros. Mesmo tendo rendido quase 400 milhões de dólares mundo afora, a nova aventura do filho de Jor-El dificilmente pode ser considerada um grande sucesso: com seu custo estratosférico de 200 milhões, ele no máximo pode se gabar de não ter dado prejuízo (a ponto de um novo filme, com elenco e diretor diferentes, estar com data marcada de estreia para maio deste ano).

Apesar das pedradas de boa parte da crítica e do sabor de anticlímax experimentado pela plateia, porém, "Superman, o retorno" não é tão ruim quanto parece. Mesmo que esteja longe do fascínio e da diversão do primeiro exemplar - estrelado por Christopher Reeve em 1978 - a reinvenção da trama nas mãos de Singer é muito mais decente - e tem mais personalidade - do que dezenas de adaptações de super-herois que chegam às telas e seduzem o público com campanhas de marketing mais eficazes do que o produto. O filme de Synger - que também tem no currículo os excelentes "O aprendiz" e "Os suspeitos" - tem alguns pecados bem graves, mas também proporciona ao espectador alguns momentos de puro e delicioso entretenimento escapista.



Ao contrário da tendência da época de seu lançamento, que era de contar as origens dos heróis, em "Superman, o retorno", como o próprio título indica, isso não acontece. Não é mostrada ao público a gênese da personagem, como ocorreu no filme clássico de Donner e sim uma continuação de suas aventuras. Quando o filme começa, o Superman (vivido por Brandon Routh, adequado mas sem muito carisma para segurar um papel tão icônico) volta à Terra, depois de cinco anos afastado em uma viagem a seu planeta de origem. Seu retorno abala a paz da jornalista Lois Lane (a fraquinha Kate Bosworth, que quase põe o filme a perder), que está bem casada com Richard White (James Marsden) e tem um filho pequeno. Seus problemas pessoais acabam sendo postos de lado no momento em que ele descobre um plano de Lex Luthor (Kevin Spacey) de destruir a California para criar um novo território de sua propriedade.

É fácil de apontar os problemas de "Superman, o retorno". Seu início claudicante - que demora a engrenar - é apenas o primeiro deles. A escolha da fraca Kate Bosworth como Lois Lane (muito mais ativa aqui do que na versão mais famosa) também compromete bastante o resultado final. E, mesmo que mantenha o clima de humor que consagrou Gene Hackman na obra de Donner, o Lex Luthor de Kevin Spacey escorrega frequentemente no cômico sem graça (felizmente, Parker Posey como sua fiel Kitty Kowalski está ótima). Mas, tirando esses pequenos defeitos, o filme de Bryan Singer não mereceu toda a saraivada de achincalhes que sofreu em sua estreia. É tecnicamente competente, não estraga a mitologia do protagonista e, ainda que se estenda demais em seu terço final, consegue divertir. Merece uma revisão!

quarta-feira

A DAMA NA ÁGUA

 
A DAMA NA ÁGUA (Lady in the water, 2006, Warner Bros, 110min) Direção e roteiro: M. Night Shyamalan. Fotografia: Christopher Doyle. Montagem: Barbara Tulliver. Música: James Newton Howard. Figurino: Betsy Heimann. Direção de arte/cenários: Martin Childs/Larry Dias. Produção: Sam Mercer, M. Night Shyamalan. Elenco: Paul Giamatti, Bryce Dallas Howard, Bob Balaban, M. Night Shyamalan, Jeffrey Wright, Freddy Rodriguez, Sarita Choudhury, Mary Beth Hurt. Estreia: 21/7/06

M. Night Shyamalan é um cineasta preso em seu próprio sucesso.  Depois que "O sexto sentido" o transformou em uma das maiores revelações de Hollywood praticamente da noite pro dia, ele se viu obrigado pela mídia e pelo público a seguir a mesma fórmula de sempre. Foi por isso que seu filmaço "Corpo fechado" não obteve o mesmo reconhecimento - erro absurdo de marketing -, que "Sinais" dividiu a crítica - apesar do êxito comercial - e que "A vila" incorreu na ira da plateia - por seu final pseudosurpresa fraco e anticlimático. E foi por isso também que seu "A dama na água" tropeçou insofismavelmente nas bilheterias. Primeiro filme do diretor na Warner - depois de um rompimento com a Disney que rendeu o livro "The man who heard voices: Or, how M. Night Shyamalan risked his career on a fairy tale" - seu conto de ninar de clima onírico e ecologicamente correto foi mal compreendido e configurou-se no primeiro fracasso de sua carreira.

Para se gostar de "A dama na água" é imprescindível que se compre a ideia e mergulhe nela (sem trocadilho) de cabeça. Diferente dos trabalhos anteriores do cineasta, que tinham o pé bem fincado na realidade mesmo quando as personagens lidavam com gente morta e invasões alienígenas, aqui a coisa é bem diferente. Apesar de seu protagonista ser extremamente humano - e um humano repleto de problemas pessoais e sem nenhum tipo de glamour hollywoodiano - tudo gira em torno de um ser mítico e criado pela imaginação de Shyamalan: uma ninfa da água, que, com seu surgimento, transforma a vida de um grupo de pessoas que mora em um condomínio de classe média baixa. O toque de gênio do diretor - e que faz dele tão diferente da maioria de seus colegas - é mesclar a fantasia com a realidade de forma tão orgânica que em pouco tempo a audiência nem está mais questionando o fato de que tudo é uma desvairada obra de ficção.



Depois de anos amargando papéis secundários - e de ter sido ignorado pelo Oscar justamente quando atingiu a protagonização em "Sideways, entre umas e outras" - o ator Paul Giamatti assume o papel de protagonista como Cleveland Heep, o zelador de um condomínio que começa a perceber que, contrariando as regras do lugar, alguém anda utilizando a piscina depois das sete da noite. Tentando descobrir qual dos moradores é o culpado, ele chega até à misteriosa Story (Bryce Dallas Howard), uma ninfa que se sente impedida de voltar a seu lar devido a ameaças de estranhas criaturas que rondam o condomínio. Intrigado com a história, Heep passa a investigar as origens de sua nova hóspede e descobre que ela está ali para incentivar a escrita de um livro que, no futuro, será essencial para a humanidade. Para evitar que o monstro mate a etérea criatura, Heep precisa descobrir, através de inúmeros símbolos descritos por Story, quais são as pessoas do condomínio que irão lhe ajudar na missão de salvá-la.

Contando em absoluto tom de fábula - ainda que não hesite em criar sequências de grande suspense - "A dama na água" surgiu das histórias que Shyamalan contava para suas filhas na hora de dormir e isso fica evidente na forma delicada com que o roteiro se desenvolve. Utilizando um senso de humor quase inexistente em seus filmes anteriores, o cineasta conduz o espectador a uma viagem que lhe exige uma temporária suspensão da realidade. Ao espalhar elementos clássicos das histórias de ninar pela narrativa, o diretor consegue, de forma exemplar, mostrar mais uma vez sua criatividade e sensibilidade raras. Mesmo que por vezes tudo fique um pouco forçado demais - o desenho da criatura que persegue Story chega perigosamente perto do fake - é impossível deixar de aplaudir sua coragem de manter a integridade de sua carreira, por pior que tenha sido o resultado em termos de dólares. "A dama na água" é um belo filme, que merece ser redescoberto e admirado.

segunda-feira

X-MEN 3


X-MEN 3 (X-Men: The last stand, 2006, 20th Century Fox, 104min) Direção: Brett Ratner. Roteiro: Simon Kinberg, Zak Penn. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Mark Goldblatt, Mark Helfrich, Julia Wong. Música: John Powell. Figurino: Judianna Makovski. Direção de arte/cenários: Edward Verreaux/Elizabeth Wilcox. Produção executiva: Kevin Feige, Stan Lee, John Palermo. Produção: Avi Arad, Lauren Schuler Doner, Ralph Winter. Elenco: Hugh Jackman, Patrick Stewart, Ian McKellen, Hale Berry, Anna Paquin, James Marsden, Famke Janssen, Rebecca Romijn, Kelsey Grammer, Ben Foster, Shoreh Aghdashloo, Cameron Bright, Shawn Hashmore, Aaron Stanford, Ellen Page, Vinnie Jones. Estreia: 22/5/06 (Festival de Cannes)

Depois de dois capítulos empolgantes, que agradaram aos fãs dos quadrinhos, aos neófitos e à crítica especializada, os mutantes da Marvel chegaram à sua terceira parte cercados de expectativas. Sem seu diretor Bryan Singer - que foi comandar as aventuras do homem de aço em "Superman, o retorno" - o final da trilogia não teve a mesma repercussão positiva. Apesar dos mais de 230 milhões de dólares de arrecadação doméstica - que mal cobriu os custos de 210 milhões - o filme foi criticado principalmente por não ter mantido o equilíbrio dos seus predecessores entre ação e profundidade psicológica, além de ter um excesso de personagens secundários. Baixada a poeria da polêmica, porém, a justiça precisa ser feita. "X-Men 3" pode não ser o entretenimento perfeito do segundo episódio, mas está muito longe de ser ruim. É um final bastante digno para a série que, do nada, transformou-se no pioneiro das boas adaptações de quadrinhos para o cinema.

Sem deixar de lado a ação que virou característica da série - com cenas de extrema competência - esse terceiro capítulo tem um ponto de partida bastante interessante, com a descoberta de uma vacina que pode curar o gene da mutação. Essa vacina acaba dividindo as opiniões: enquanto centenas de mutantes fazem fila para finalmente terem uma vida normal, outros - liderados por Magneto (Ian McKellen) - consideram o fato uma atitude criminosa e preconceituosa. Essa divisão acirra de vez a guerra entre os mutantes que o seguem e acreditam numa revolução à base da violência e aqueles que acreditam em um método mais pacífico, como manda o professor Xavier (Patrick Stewart). Para piorar ainda mais a situação, Jean Grey (Famke Janssen) ressurge da morte com o codinome Fênix, transformada com sua experiência e disposta a unir-se a Magneto.



Mesmo os detratores de "X-Men 3" são obrigados a concordar que o argumento do filme é sensacional, mais uma vez conectando a mutação com inúmeras minorias (o grande acerto de toda a ideia da série). É impressionante, por exemplo, a cena inicial que apresenta o Anjo ainda criança e desesperado com sua condição "anormal" - e a atuação do ótimo Ben Foster como a personagem na idade adulta reitera a boa primeira impressão. É muito interessante também perceber como o público consegue compreender perfeitamente as dúvidas de Rogue (Anna Paquin), tentada a submeter-se à vacina para não perder o amor de Bobby (Shawn Hashmore) e tornar-se finalmente uma pessoa normal. Essa capacidade do roteiro de ligar a trama às suas personagens mais conhecidas é louvável, mesmo que a profusão de novos mutantes acabe tirando tempo de cena daqueles que se tornaram velhos conhecidos. A sequência final, apesar de muito bem realizada, não é tão potente quanto a do segundo filme, justamente porque apresenta tanta gente que fica difícil prestar atenção em todo mundo. E é também preciso aplaudir a coragem do roteiro em promover a verdadeira carnificina, que elimina da história algumas personagens cruciais - o que encerrou de vez a franquia, ao menos no formato que já estava consagrado.

"X-Men 3" pode não ser o melhor filme da trilogia - e talvez seja mesmo o mais fraco dos três. Mas é infinitamente superior, por exemplo, ao terceiro capítulo de "Homem-aranha", que afundou a personagem-título em uma trama infantilóide e inverossímil até mesmo para uma história de super-herói. E não tem como não gostar de um filme que junte Wolverine, Magneto, Xavier e Mística.

domingo

MENINA MÁ PONTO COM


MENINA MÁ.COM (Hard candy, 2005, Vulcan Productions, 104min) Direção: David Slade. Roteiro: Brian Nelson. Fotografia: Jo Willems. Montagem: Art Jones. Música: Harry Escott, Molly Nyman. Figurino: Jennifer Johnson. Direção de arte/cenários: Jeremy Reed/Kathryn Holliday. Produção executiva: Jody Patton, Paul G. Allen, Rosanne Korenberg. Produção: Michael Caldwell, David W. Higgins, Richard Hutton. Elenco: Patrick Wilson, Ellen Page, Sandra Oh. Estreia: 14/4/06

Manter o interesse do público com uma história com apenas duas personagens em um cenário único não é tarefa das mais fáceis, principalmente para um diretor estreante. Então não deixa de ser admirável que "Menina má ponto com", primeiro filme de David Slade - conhecido por ter comandado videoclipes da banda Stone Temple Pilots - consiga tal façanha. Durante quase duas horas o cineasta novato conduz sua audiência rumo a uma trama tensa, dramática e calcada basicamente em longos diálogos e atuações de extrema competência. E também não atrapalha em nada o assunto de seu primeiro longa-metragem ser tão polêmico: pedofilia e justiça com as próprias mãos.

O filme começa com uma conversa via Internet entre um fotógrafo trintão e uma adolescente de 14 anos. Nota-se de cara que o papo já vem de outras ocasiões e culmina com a combinação do esperado primeiro encontro. Em seguida, Hayley Stark (Ellen Page) e Jeff Kohlver (Patrick Wilson) finalmente se encontram, e a conversa entre o charmoso fotógrafo e a esperta estudante os leva para a casa do rapaz, que lhe convence à visita com a desculpa de ouvirem música. Não demora muito para que um forte clima surja entre ambos, mas as coisas não são exatamente o que parecem. Jeff passa mal e desmaia. Quando acorda, está amarrado em uma cadeira e descobre que Hayley não é a mocinha indefesa e ingênua que ele pensava e está disposta a arrancar dele a confissão sobre o desaparecimento de uma outra adolescente que teclava com ele.



A partir daí, o roteiro de Brian Nelson encontra na direção de David Slade a combinação perfeita. Sem medo de parecer tedioso e sem a menor vontade de editar seu filme de maneira acelerada, Slade explora com prazer todas as nuances da trama, deixando sua câmera testemunhar silenciosamente o duelo entre vítima e algoz (dinâmica esta que se transforma diversas vezes durante a projeção). É brilhante a forma com que o Nelson se isenta de julgar suas personagens, sempre dando a ambas inúmeras possibilidades de defesa e empatia. Jeff, por exemplo, pode ou não ser o monstro apontado por Hayley, que, por sua vez, também se utiliza de métodos nada convencionais - e nada éticos - para tentar provar seu ponto de vista. O embate entre seus dois protagonistas é o cerne e a alma de "Menina má ponto com", e o diretor é inteligente o bastante para não deixar que nada mais importe a não ser as brilhantes atuações de seus atores.

Patrick Wilson - galã em "O fantasma da Ópera" - encontra o papel ideal para mostrar que, por trás de seu charme existe um excelente ator, capaz de despertar os mais variados sentimentos da plateia. Seu Jeff passa da sedução ao desespero, da raiva à apatia e de vilão à vítima com uma desenvoltura que poucos atores de sua geração possuem. E encontra em Ellen Page, aliás, uma parceira à altura. Com meros 17 anos de idade à época das filmagens, a jovem atriz, que concorreria ao Oscar por "Juno" pouco tempo depois, não se intimida diante de uma personagem forte e arriscada, que se perde em seu caminho rumo à justiça exatamente por causa de seu radicalismo. A combinação explosiva entre os dois é que dá ao filme de Slade uma força bastante incomum.

"Menina má ponto com" é o perfeito exemplo de como um bom roteiro, uma boa direção e atores inspirados são muito mais importantes para a qualidade de um filme do que orçamentos anabolizados e marketing agressivo. É uma pequena pérola que merece ser descoberta.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...