terça-feira, 18 de maio de 2010

LARANJA MECÂNICA


LARANJA MECÂNICA (A clockwork orange, 1971, Warner Bros, 136mi//n) Direção e produção: Stanley Kubrick. Roteiro: Stanley Kubrick, baseado no romance de Anthony Burgess. Fotografia: John Alcott. Montagem: Bill Butler. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte: John Barry. Casting: Jimmy Liggat. Produção executiva: Si Litvinoff, Max L. Raab, Bernard Williams. Elenco: Malcolm McDowell, Patrick Magee, Michael Bates, Warren Clarke, Adrienne Corri, Philip Stone, Sheila Raynor. Estreia: 19/12/71

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Stanley Kubrick), Roteiro Adaptado, Montagem


Um homem que tem tirado de si a capacidade de escolher entre o bem e o mal ainda é um ser humano? O governo, sob pretexto de manter a ordem e a paz, tem o direito de tirar de seus cidadãos o instinto básico de auto-defesa e sobrevivência? A justiça com as próprias mãos é uma forma válida de catarse? O ser humano, afinal, é basicamente bom ou mau? Todas essas perguntas, pertinentes e fundamentais em qualquer discussão sobre os instintos humanos estão espalhadas por "Laranja mecânica", o mais polêmico e perturbador filme do cineasta inglês Stanley Kubrick. Adaptado com bastante fidelidade de um romance de Anthony Burgess (só o que ficou de fora foi o capítulo final do livro que foi cortado na edição americana), o filme de Kubrick não apenas escandalizou a plateia: também hipnotizou a crítica e foi o segundo filme classificado com o selo "X" - dado a filmes pornográficos - a receber uma indicação ao Oscar de Melhor Filme (o outro foi "Perdidos na noite", que teve mais sorte e converteu a indicação em estatueta).

"Laranja mecânica" se passa em um futuro próximo mas não identificado. A distópica Inglaterra mostrada no filme passa por sérios problemas com o aumento da delinquência juvenil e um dos maiores exemplos disso é o adolescente Alex (Malcom McDowell, aos 27 anos vivendo uma personagem de 15, segundo o livro). Ao lado de seu grupo de amigos, ele passa os dias bebendo leite misturado com várias drogas e cometendo o que ele mesmo descreve, em sua narração irônica, como "atos de ultraviolência". Espancando velhos mendigos, invadindo residências e estuprando mulheres, eles são o retrato de uma juventude transviada e totalmente indiferente ao sofrimento alheio. Fã incondicional de Beethoven, Alex - que se trata com um psicólogo como forma de escapar de uma punição maior por seus atos - acaba sendo preso e condenado a 14 anos de prisão por assassinato. Com o objetivo de diminuir sua pena, no entanto, ele se oferece para ser a cobaia de um tratamento criado pelo governo para diminuir o índice de violência e a superlotação dos presídios. Com o final do tratamento, ele volta às ruas: sempre que sequer pensa em agir - ou reagir violentamente contra alguém, ele sofre de enjôos extremos. O problema é que, vivendo nas ruas depois de sair da casa dos pais, ele tem grandes probabilidades de reencontrar suas antigas vítimas.


"Laranja mecânica" é, definitivamente, um filme pelo qual se é impossível ser indiferente, como qualquer trabalho de Stanley Kubrick. O que incomoda em "Laranja" nem é tanto a sua violência, uma vez que o cinema ultrapassou esses limites há algum tempo sem as intenções questionadoras mostradas aqui. O que causa o desconforto na audiência é a sua crueza em retratar uma juventude hedonista e cruel sem que haja o menor resquício de julgamentos morais nesse retrato. O que faz a diferença nesse trabalho do diretor que ainda seria considerado pela crítica um dos maiores gênios do cinema - opinião um tanto questionável, mas ainda assim impressionante - é sua preocupação com todos os detalhes do filme, por menor que eles sejam. A cena final, por exemplo, foi filmada exaustivas 74 vezes antes que o cineasta se desse por satisfeito.

Essa obsessão pelo visual de seus filmes fica evidente em cada sequência de "Laranja mecânica". A direção de arte que usa e abusa da art-deco em voga no final dos anos 60/início dos 60 ampliando sua tendência ao kitsch é tão desconcertante quanto as inúmeras referências fálicas espalhadas pelo filme. A trilha sonora - que mistura Beethoven (chamado de Ludwig Van por Alex) e Gene Kelly - é propositalmente heterogênea, refletindo a insanidade de seu protagonista de forma mais eficiente do que horas de discurso fariam. E até mesmo a linguagem falada por Alex e seus companheiros de farra (uma linguagem criada por Burgess e que mistura inglês britânico, russo e gírias) retiram o filme da vala comum das produções pseudo-intelectuais que grassavam no cinema à época do seu lançamento.

Mas apesar de seu visual estarrecedor, sua parte técnica impecável e seu roteiro imaginativo e vívido, é por causa de suas ideias que "Laranja mecânica" ainda é impactante. Ao levantar as questões que levanta, ele demonstra uma preocupação com um estado de violência e manipulação que, se parecia exagerado em 1971, hoje é uma realidade óbvia e assustadora. Se o público que assistiu a "Laranja mecânica" em seu lançamento ficou apavorado com o que ele previa, quem o assiste hoje se surpreende é em ver como eles (Kubrick e Burgess) estavam certos - ou pior ainda, otimistas...

2 comentários:

@Raspante disse...

Adoro esse filme, ele é simplesmente incrível!

MatHeuS MatHeuS disse...

Insuperável