domingo, 16 de maio de 2010

LOVE STORY, UMA HISTÓRIA DE AMOR


LOVE STORY, UMA HISTÓRIA DE AMOR (Love story, 1970, Paramount Pictures, 99min) Direção: Arthur Hiller. Roteiro: Erich Segal. Fotografia: Dick Cratina. Montagem: Robert C. Jones. Música: Francis Lai. Figurino: Alice Manougian Martin, Pearl Somner. Direção de arte / Cenários: Robert Gundlach / Philip Smith. Casting: Andrea Eastman. Produção executiva: David Golden. Produção: Howard G. Minsky. Elenco: Ali McGraw, Ryan O'Neal, Ray Milland, John Morley, Tommy Lee Jones. Estreia: 16/12/70

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Arthur Hiller), Ator (Ryan O'Neal), Atriz (Ali McGraw), Ator Coadjuvante (John Morley), Roteiro Original, Trilha Sonora Original.
Vencedor do Oscar de Trilha Sonora Original
Vencedor de 5 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Arthur Hiller), Atriz/Drama (Ali McGraw), Roteiro e Trilha Sonora


Uma crônica publicada no jornal "O Globo" em 17 de julho de 1971 dizia o seguinte:
"Uma 'esquerdinha' foi vê-lo. Na saída, deu sua opinião, com boquinha de nojo: - 'Reacionário.' Porque trata de amor e de morte é reacionário. Se fosse uma antologia de perversões sexuais, as mais hediondas, não seria reacionário. Mas se nos mostrasse os 300 mil jovens que, na ilha de Wight, fizeram uma gigantesca bacanal, seria progressista." O autor da crônica prosseguia: "'Love story' é apenas história de amor. Mas faz o mesmo, exatamente o mesmo sucesso em toda a parte e em todos os idiomas. Se for projetada num boteco de Cingapura, para marginais e paus d'água fará chorar todos os traficantes de tóxicos."

A crônica chamava-se "Adeus à sordidez" e seu autor é ninguém menos que o genial dramaturgo, cronista e romancista Nelson Rodrigues. Auto-intitulado "anjo pornográfico", nem mesmo o autor de obras pessimistas como "O casamento" e "Perdoa-me por me traíres" conseguiu resistir a "Love story, uma história de amor", um dos maiores sucessos de bilheteria da Paramount nos anos 70. E, como ele mesmo declarou em sua crônica (disponível no livro "O reacionário", editado pela Cia das Letras), o filme de Arthur Hiller conquista justamente pela simplicidade de seu objetivo: em uma época voltada ao hedonismo, ao cinismo e a todos os "ismos" mais egoístas imagináveis, contar uma história de amor pura e simples foi como uma lufada de ar fresco que pegou todo mundo de surpresa.

Quando "Love story" estreou nos EUA, em dezembro de 1970, o livro de Erich Segal baseado em seu roteiro (o caminho inverso do que normalmente ocorre) já era um êxito de vendas. Sua vitória maciça na festa de entrega dos Golden Globes (cinco prêmios, inclusive melhor filme, diretor e atriz) e o generoso número de indicações ao Oscar (sete no total) apenas confirmaram que ainda havia espaço para romantismo no meio de filmes de guerra e filmes-catástrofe ("Patton", "M.A.S.H." e "Aeroporto" estrearam naquele ano). Naquele início de década, lavar a alma no escurinho do cinema foi o programa preferido de milhares de pessoas.


"Love story" acompanha o belo e sofrido romance entre Oliver Barrett IV (Ryan O'Neal), um jovem de família influente e abonada e Jennifer Cavalleri (Ali McGraw), a simples filha de um padeiro, que estuda música e sonha conhecer Paris. A paixão avassaladora que os acomete afasta o rapaz da companhia dos pais - com quem já não tinha a melhor das relações - e eles acabam se casando, construindo com esforço redobrado uma possibilidade de futuro menos árduo. Quando conseguem melhorar de vida e resolvem tentar ter um filho, descobrem que Jenny sofre de um câncer incurável e terminal.

Quintessência do melodrama lacrimoso - chamado pejorativamente de "tearjerker" (ou arranca-lágrimas) pelos críticos americanos - e quase apelativo, "Love story" funciona maravilhosamente. Mesmo sem ter um roteiro complexo - pelo contrário, as personagens são bastante rasas, sem muitas dimensões psicológicas - e ambições maiores do que simplesmente emocionar sua plateia, o filme de Arthur Hiller (que anos depois foi presidente da Academia de Hollywood) atinge seu objetivo com uma facilidade admirável. Para isso contribuem os elementos unidos por ele: elenco, trilha sonora e uma direção que não usa de firulas estilísticas e concentra-se apenas em contar uma história.

Ali McGraw, que vive Jenny, logo em seguida se casaria com Robert Evans, um dos executivos da Paramount (a quem trocou pelo ator Steve McQueen ainda nos anos 70). McGraw não possui uma beleza estonteante, retratando o protótipo da garota comum ("the girl next door") que faria a glória de muitas atrizes dos anos 90 (tais como Sandra Bullock antes de se levar a sério). Seu trabalho, delicado e emocionante, encontra um perfeito apoio em Ryan O'Neal, que ficou com o papel de Oliver depois que inúmeros outros atores declinaram do convite - a saber, entre eles encontram-se Beau Bridges, Peter Fonda, Michael Douglas, Michael York, Jon Voight e Jeff Bridges. Jovem, bonito e carismático, O'Neal conquista a audiência logo em sua primeira cena, convidando-a carinhosamente para acompanhar sua trágica paixão.

E a trilha sonora é um capítulo à parte. Mesmo aqueles que se fartaram de ouvir a bela e adocicada música do francês Francis Lai em dezenas de caixinhas-de-música pelas décadas subsequentes não podem negar que ela é uma das mais marcantes e melancólicas partituras criadas para o cinema em todos os tempos. Não foi à toa que levou o único Oscar do filme, que justamente por sua natureza extremamente comercial teve que suportar o desprezo dos críticos mais comprometidos com o aspecto artístico do cinema, que provavelmente assistiram ao filme com óculos escuros para esconder as lágrimas. Afinal, como bem dizia Nelson Rodrigues, "ou o sujeito é crítico ou é inteligente..."

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