sábado, 22 de maio de 2010

O EXORCISTA


O EXORCISTA (The exorcist, 1973, Warner Bros Pictures, 132min) Direção: William Friedkind. Roteiro: William Peter Blatty, baseado em seu romance homônimo. Fotografia: Owen Roizman. Montagem: Norman Gay, Evan Lottman. Figurino: Joe Fretwell. Direção de arte/cenários: Bill Malley/Jerry Wunderlich. Casting: Louis DiGiamo, Nessa Hyams, Juliet Taylor. Produção executiva: Noel Marshall. Produção: William Peter Blatty. Elenco: Ellen Burstyn, Max Von Sydow, Lee J. Cobb, Jason Miller, Linda Blair, Jack MacGowran, Kitty Winn. Estreia: 26/12/73

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (William Friedkin), Atriz (Ellen Burstyn), Ator Coadjuvante (Jason Miller), Atriz Coadjuvante (Linda Blair), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Direção de Arte, Som
Vencedor de 2 Oscar: Roteiro Adaptado, Som
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (William Friedkin), Atriz Coadjuvante (Linda Blair), Roteiro


Ao ganhar um prêmio de 10 mil dólares em um programa apresentado por Groucho Marx, um desconhecido chamado William Peter Blatty declarou que, com o dinheiro, ele tiraria um tempo de folga para escrever um romance. Publicado anos depois, este romance, chamado "O exorcista" assustaria milhares de pessoas, e não só através das palavras. Produzido pela Warner Bros e com produção e roteiro do próprio autor, "O exorcista" tornou-se um dos filmes de maior bilheteria da história do estúdio, ganhando em seguida, continuações, prequels e várias revisões, sempre com qualidade inferior.

Normalmente relegados a um inestimado segundo plano dentro da indústria cinematográfica, raramente os filmes de terror conseguem sair de dentro de seu gueto de fãs aficcionados e atingir não só uma plateia mais ampla mas também o reconhecimento devido junto à crítica. Por isso, não deixa de ser um fenômeno que "O exorcista" tenha conseguido essa façanha de forma tão absoluta e inegável. Incensado pela crítica e vencedor de 4 Golden Globes (inclusive melhor drama e diretor), logo a obra dirigida pelo mesmo William Friedkin do elogiado "Operação França" arrebataria surpreendentes 10 indicações ao Oscar, em especial nas categorias principais, tornando-se o primeiro filme de terror da história a conquistar tal honra. Não saiu vitorioso (o prêmio ficou com "Golpe de mestre"), mas, com milhões e milhões de dólares abarrotando seus cofres, a Warner definitivamente não tinha do que reclamar.

"O exorcista" se passa em Washington, onde a atriz Chris McNeil (Ellen Burstyn) está fazendo seu novo filme. Nos seus momentos livres, ela fica ao lado da filha adolescente Regan (Linda Blair) e dos colegas de produção. A relativa paz que reina entre ela e a filha começa a dar sinais de alarme quando a menina, normalmente doce e compassiva, começa a agir estranhamente: de uma hora pra outra, Regan começa a dizer palavrões, a comportar-se de forma agressiva e reclamar que sua cama fica pulando. Vários exames médicos depois, nada parece estar resolvido e as coisas ficam ainda piores. Inúmeros acontecimentos violentos e bizarros depois levam Chris a chegar à conclusão, com a ajuda do jovem Padre Karras (Jason Miller) - que trabalha com psicologia e está em uma crise de fé por causa da morte da mãe - que sua filha está possuida por um demônio. A única solução para o caso, seria, então, um exorcismo. A Igreja chama, para isso, o conceituado Padre Merrin (Max Von Sydow), que acaba de voltar aos EUA depois de uma escavação no Iraque.


Filmado em 224 dias (em oposição a seu cronograma inicial de 85), "O exorcista", assim como todos os filmes da época, foi objeto de muita especulação antes de ser produzido, com muitos nomes de Hollywood envolvidos - ou apenas citados - como possíveis colaboradores. Antes que William Friedkin assumisse o posto de diretor, por exemplo, nomes como John Boorman e Stanley Kubrick foram cogitados para o posto - Kubrick não acertou com o estúdio porque queria produzir ele mesmo o filme Boorman recusou porque o roteiro era "muito cruel com uma criança", o que não o impediu de, quatro anos depois, sentar-se na cadeira de diretor de sua bem inferior continuação.

Para a pele de Chris McNeil, nomes importantes foram considerados. Jane Fonda e Shirley MacLaine se interessaram pelo roteiro. Audrey Hepburn quis fazê-lo, mas somente se fosse filmado em Roma. E Anne Bancroft abandonou o barco devido a sua primeira gravidez. Até mesmo o nome de Debbie Reynolds foi cogitado, com sua filha Carrie Fisher (que em seguida atingiria a fama como a Princesa Leia de "Star Wars") vivendo Regan. Mas é inegável que a contratação de Ellen Burstyn foi acertada. Às vésperas de ganhar um Oscar por "Alice não mora mais aqui" (lançado em 1974), Burstyn entrega uma atuação visceral e desesperada, que exigiu dela fortes doses de emoção e trabalho físico (ela chegou a machucar seriamente a coluna durante um take).

Para viver o veterano Padre Merrin a coisa também não foi diferente. Marlon Brando poderia ter interpretado o papel que foi de Max Von Sydow, mas os produtores acharam - com razão, diga-se de passagem - que a presença de Brando no elenco faria de "O exorcista" um "filme de Marlon Brando" antes de qualquer outra coisa, o que não os interessava. E para viver o jovem Padre Karras, nomes fortes como Gene Hackman e Jack Nicholson foram sondados. Dá pra imaginar como tudo ficaria com esse elenco de sonhos??

Mesmo que os créditos de "O exorcista" não tenha sido repleto de astros, é impossível negar que as opções dos produtores não poderiam ter sido melhores. Rígido e decidido, William Friedkin foi o diretor ideal do filme, fazendo prevalecer sua visão desde o início das filmagens. Max Von Sydow e Jason Miller (pai do ator Jason Patric) equilibram com perfeição as dualidades de suas personagens religiosas. E Linda Blair demonstra, aos 14 anos, que sabe interpretar como gente grande, o que seu Golden Globe e a indicação ao Oscar comprovaram, apesar das dúvidas suscitadas pela atriz Mercedes McCambridge depois dos elogios ao filme. McCambridge foi a responsável pela voz do demônio encarnado em Regan e alegou que merecia tanta glória quanto a adolescente. Coisas de Hollywood!

"O exorcista" é brilhante! Assustador como poucos, é um filme que conta sua história sem pressa, sem correria. Até que Regan comece realmente a demonstrar os efeitos da possessão em seu corpo passa-se quase uma hora, onde o roteiro trabalha com eficiência as personalidades das personagens envolvidas na questão. A subtrama que envolve o Padre Karras e seu questionamento da fé mostra-se essencial à história central, assim como a primeira sequência no Iraque, onde o Padre Merrin tem seu primeiro contato com o demônio que irá exorcisar tempos depois - aliás, é sensacional a maneira com que Friedkin acusa a presença do mal nas cenas. No Iraque, dois cães começam a brigar, assim como duas crianças no hospital onde Regan é examinada, o que amplia a tensão nas cenas. E a edição especial - com 11 minutos a mais do que a versão lançada em 1973 - acrescenta rápidas imagens do mal inseridas entre as cenas, no melhor estilo "piscou, perdeu", o que dá um clima mais do que propício à tensão criada pela música e pela fotografia majestosa de Owen Roizman. E isso que nem é preciso falar dos inúmeros acontecimentos quase inexplicáveis ocorridos durante as filmagens e dissecados em extraordinário documentário sobre a produção infelizmente disponível no Brasil apenas em VHS (é de apavorar tanto quanto o filme em si!!)

Assistir a "O exorcista" hoje ainda é extremamente impressionante! Poucas vezes o cinema de horror foi tão a fundo - e tão gráfico - em investigar o mal. Apesar de nunca poupar o espectador, ele jamais ultrapassa os limites do que é verdadeiramente útil para contar sua história, sem apelar para sustos desnecessários. Um exemplo a ser seguido pelos Eli Roth da vida...

2 comentários:

@Raspante disse...

O longa passou nesta sexta no SBT e eu consegui assistir á uns trechos grandes, mas não achei tudo isso não, eu não fiquei com medo, pra falar a verdade eu ri de várias parte! rs

Guto Nascimento disse...

Clássicooooo! Adorei seu blog, cara... Dah uma olhadinha no meu... Falo mais sobre filmes contemporâneos... Abração!