segunda-feira, 3 de maio de 2010

O MILAGRE DE ANNE SULLIVAN


O MILAGRE DE ANNE SULLIVAN (The miracle worker, 1962, MGM Pictures, 106min). Direção: Arthur Penn. Roteiro: William Gibson, baseado em sua peça teatral homônima. Fotografia: Ernest Caparros. Montagem: Aram Avakian. Música: Laurence Rosenthal. Produção: Fred Coe. Elenco: Anne Bancroft, Patty Duke, Victor Jory, Inga Swenson, Andrew Prine, Kathleen Comegys. Estreia: 23/5/62

5 indicações ao Oscar: Diretor (Arthur Penn), Atriz (Anne Bancroft), Atriz Coadjuvante (Patty Duke), Roteiro Adaptado, Figurino P&B
Vencedor de 2 Oscar: Atriz (Anne Bancroft), Atriz Coadjuvante (Patty Duke)


Helen Keller nasceu em 1880 e morreu em 1968. Em 1904, formou-se em filosofia. Dominava inglês, francês, latim e alemão. Foi agraciada com títulos honorários de diversas universidades, inclusive na Escócia, Alemanha, Índia e África do Sul. Foi nomeada Cavaleira da Legião de Honra da França. Foi condecorada com a Ordem do Cruzeiro do Sul, no Brasil e com a do Tesouro Sagrado, no Japão. Era escritora, filósofa e conferecista e desenvolveu extensos trabalhos em prol de pessoas portadoras de deficiências. Tinha admiradores como Chaplin, JFK, Mark Twain e Graham Bell. E era cega, surda e muda.

Uma das personalidades mais fascinantes do século XX, Helen Keller é o assunto principal de "O milagre de Anne Sullivan", que o cineasta Arthur Penn dirigiu com roteiro de William Gibson baseado em sua peça teatral homônima, grande sucesso na Broadway. Estrelado por Anne Bancroft e a adolescente Patty Duke (ambas vencedoras do Oscar por suas atuações), o filme é um fascinante retrato da tenacidade e da força de vontade de uma mulher em busca de um objetivo. E é também, e principalmente, a história quase inacreditável de uma superação além de toda e qualquer expectativa.

O filme de Penn não acompanha a vida adulta de Keller, nem tampouco a sua glória. Concentra-se especificamente no período de poucas semanas em que deu-se seu "retorno ao mundo", graças à incansável batalha de sua professora, também uma vítima das limitações impostas por uma deficiência física. Anne Sullivan (papel oferecido a Ingrid Bergman) é uma professora que chega a uma pequena cidade do Alabama com a missão de cuidar da pequena Helen, de sete anos, que, aos dezoito meses de idade sofreu de uma rara febre cerebral (hoje acredita-se que tenha sido escarlatina) que a impede de ver, ouvir ou falar. Isolada do mundo como se fosse um animal selvagem, a menina é tratada como tal pela família que, sem ter mais a quem (ou a que) recorrer, contrata Annie para tentar ensinar-lhe o básico que, acreditam eles, ela jamais conseguirá aprender. Sem ter nenhuma noção do mundo ao seu redor, Helen é violenta, mimada e incapaz de se comunicar, mas a chegada de Anne (que também sofreu de uma cegueira parcialmente curada após nove cirurgias) lhe abre um novo horizonte. Mesmo sem nenhuma didática ou experiência, Sullivan resolve dedicar-se a seu projeto, utilizando-se até mesmo da mesma violência física que a garota emprega para fazer-se compreender.



Apesar de volta e meia focar suas cenas nas dúvidas da família Keller em relação ao tratamento oferecido por Anne Sullivan à sua filha, o hipnotizante roteiro de Gibson concentra-se basicamente no duelo entre professora e aluna. Por meio de incontáveis tentativas, inúmeras noites em claro e dezenas de bofetadas, pancadas e agressões corporais, a protagonista batalha incansavelmente pelo sucesso de seus planos, proporcionando a Anne Bancroft o trabalho de sua carreira (e isso que "A primeira noite de um homem" ainda estava por vir...). O duelo de interpretação de Bancroft com a jovem Patty Duke (que mesmo aos 16 anos convencia como uma menina de sete) é digno de figurar entre os maiores da história do cinema. É absolutamente impressionante, por exemplo, o embate físico entre as duas na sala de jantar, quando Annie tenta obrigar Helen a sentar-se à mesa e comer como um ser humano civilizado. Aos tapas e pontapés, as duas se engalfinham por quase dez minutos de uma cena sem qualquer diálogo, centrado unicamente na expressão corporal de suas atrizes. É de cair o queixo, e segurar a vontade de aplaudí-las de pé ao fim da cena é tarefa tão hercúlea quanto fazer com que o pai da garota (vivido por Victor Jory) consiga entender a forma de ensinar da estranha mestra de sua filha. E no final da cansativa sequência, ainda somos brindados com a genial frase: "A sala de jantar está destruída, mas o guardanapo está dobrado."

"O milagre de Anne Sullivan" conquista aos poucos, assim como sua protagonista demora a convencer seus empregadores de seus métodos pouco ortodoxos de ensino. De certa forma é uma revisão da história do "bom selvagem", aqui revestida por uma camada de emoção honesta e delicada. É admirável lembrar-nos que sua história é verdadeira, principalmente quando, ao final do filme, os primeiros sinais de sucesso começam a aparecer - em outra cena igualmente comovente e nunca piegas.

É inegável que os Oscar conquistados pelo filme foram absolutamente merecidos. Enquanto a Helen Keller de Patty Duke é uma perfeita encarnação de uma garota totalmente fora do mundo civilizado como o conhecemos - com toda a compaixão e até a angústia que suscita - a Anne Sullivan criada por Anne Bancroft é um exemplo extraordinário da inteligência da atriz, que nunca permite que sua personagem caia na vala comum da "professora inicialmente desacreditada que muda a vida dos alunos" que fez a glória de dezenas de filmes sobre a relação entre mestres e aprendizes. "O milagre de Anne Sullivan" é mais que um filme, é um tributo à força de vontade do ser humano. E, filme de atrizes que é, é um modelo a ser seguido por estrelas que confiam apenas nos seus sorrisos.

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