terça-feira, 25 de maio de 2010

UM ESTRANHO NO NINHO


UM ESTRANHO NO NINHO (One flew over the cuckoo's nest, 1975, United Artists, 133min) Direção: Milos Forman. Roteiro: Lawrence Hauben, Bo Goldman, baseado no romance de Ken Kesey e na adaptação da peça por Dale Wasserman. Fotografia: Haskell Wexler. Montagem: Sheldon Kahn, Lynzee Klingman. Música: Jack Nitzsche. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton. Produção: Michael Douglas, Saul Zaentz. Elenco: Jack Nicholson, Louise Fletcher, Brad Dourif, Christopher Lloyd, Danny de Vito, Will Sampson. Estreia: 19/11/75

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Milos Forman), Ator (Jack Nicholson), Atriz (Louise Fletcher), Ator Coadjuvante (Brad Dourif), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Milos Forman), Ator (Jack Nicholson), Atriz (Louise Fletcher), Roteiro Adaptado
Vencedor de 6 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Milos Forman), Ator/Drama (Jack Nicholson), Atriz/Drama (Louise Fletcher), Roteiro, Melhor Estreia/Masculino (Brad Dourif)


Em um dos períodos mais prolíficos de Hollywood em apresentar anti-heróis como protagonistas de seus filmes, surgiu, em 1975, mais um louvável exemplo disposto a fazer parte de seu histórico. Protagonista de um dos mais festejados dramas da época, Randle P. McMurphy foi um dos responsáveis, assim como “O iluminado”, feito cinco anos depois, de forjar a persona outsider de Jack Nicholson, com a qual ele já flertava no mínimo desde “Easy Rider”, de 1969. Dirigido pelo tcheco Milos Forman, "Um estranho no ninho", a adaptação do romance de Ken Kesey conseguiu a proeza de ser um dos pouquíssimos filmes (três, até agora) a arrebatar os cinco principais Oscar - filme, diretor, ator, atriz e roteiro. Assim como das outras duas vezes - uma antes e uma depois - todos os prêmios foram amplamente merecidos.

Em "Um estranho no ninho", Nicholson tem uma das mais eficazes interpretações de sua carreira na pele de McMurphy, um malandro que, em 1963, condenado por estupro, consegue enrolar as autoridades e, fazendo-se passar por doente mental, vai parar em um hospital controlado com mão-de-ferro pela rígida enfermeira-chefe Ratched (Louise Fletcher). Sentindo-se aprisionado, ele passa a influenciar os demais pacientes do hospital, principalmente um jovem tímido e suicida Billy (Brad Dourif) e um índio calado e misterioso (Will Sampson). Suas atitudes, rebeldes e inconseqüentes, acabam por colocá-lo em rota de colisão com Ratched, o que os leva a uma guerra sem tréguas e com mais vítimas do que se poderia pressupor.


O romance de Ken Kesey já havia dado origem a uma peça de teatro estrelada por Kirk Douglas, que comprou os direitos de adaptação para o cinema. Achando-se velho demais para o papel principal, ele passou os direitos para seu filho Michael, que acabou ganhando um Oscar como produtor. O autor do livro detestou o resultado final da versão cinematográfica de sua obra - que, entre outras mudanças, era narrada através do ponto de vista do índio vivido por Will Sampson - e recusou-se a assistí-la até o fim. Sua recusa, apesar de compreensível tendo em vista seus sentimentos em relação à sua obra, apenas privou-o de assistir a um filme que não trai a essência de sua origem, expandindo-a de maneira delicada e nunca menos do que brilhante.

Dirigido com firmeza e uma certa ironia pelo sempre competente Milos Forman, “Um estranho no ninho” de certa forma, encaixa-se com perfeição, ao contrário de seu título, no período em que foi realizado. Herdeira da contra-cultura que dominava os EUA nos anos 70, a história retratada no filme contrapõe heróis (McMurphy, mesmo que não seja exatamente um exemplo de conduta e caráter) e vilões (Ratched, que, apesar de ter a seu lado a retitude moral, representa o poder estabelecido, por si só um vilão em uma época marcada, entre outras coisas, pela guerra do Vietnã) e embaralha suas personalidades, jogado longe o maniqueísmo que poderia facilmente surgir. A inteligência do roteiro e da direção em passar ao largo de situações fáceis encontra eco na atuação do elenco, impecável de um extremo a outro.
Se Jack Nicholson pontua o filme com brilhantismo, justificando seu primeiro Oscar de melhor ator, seus coadjuvantes também são exemplares. Brad Dourif e um jovem Christopher Lloyd fazem sua estreia com louvor – o primeiro chegou a ser indicado ao Oscar -, ao lado de atores mais experientes (e isso inclui um Danny de Vito ainda em início de carreira).

Mas quem consegue duelar com Nicholson sem que seja preciso utilizar-se de muitas palavras para isso é Louise Fletcher. Sua enfermeira Ratched, impassível, insensível e incapaz de sentimentos como compaixão é o contraponto ideal para a energia quase destruidora de McMurphy. Fletcher ficou com um dos papéis mais disputados da temporada e demonstra a cada cena que mereceu ser escolhida; seu olhar gélido e sua expressão inatingível são assustadores, motivos que a levaram a ganhar o Oscar de melhor atriz, mesmo que sua personagem apareça relativamente pouco, em comparação com a quase totalidade de cenas com Nicholson, o verdadeiro protagonista. Responsabilizar a fragilidade das interpretações femininas do ano de 1975 como a razão por sua vitória - como foi feito na época - é tirar dela os méritos inegáveis de uma atuação inesquecível e forte a ponto de não se intimidar frente a uma das mais marcantes performances do grande Jack.

3 comentários:

Jenifer Torres disse...

Com certeza um dos meus filmes preferidos.

Tertúlias... disse...

Um filme incrível... Nicholson soberbo e Fletcher... indescritível. O que aconteceu com ela???????

! Marcelo Cândido ! disse...

O filme é incrível
O final surpreendente
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