sexta-feira, 28 de maio de 2010

ROCKY, UM LUTADOR


ROCKY, UM LUTADOR (Rocky, 1976, United Artists, 119min) Direção: John G. Avildsen. Roteiro: Sylvester Stallone. Fotografia: James Crabe. Montagem: Scott Conrad, Richard Halsey. Música: Bill Conti. Direção de arte/cenários: Bill Cassidy/Raymond Molyneaux. Casting: Caro Jones. Produção executiva: Gene Kirkwood. Produção: Robert Chartoff, Irvin Winkler. Elenco: Sylvester Stallone, Talia Shire, Burt Youg, Burgess Meredith, Carl Wheaters. Estreia: 21/11/76

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (John G. Avildsen), Ator (Sylvester Stallone), Atriz (Talia Shire), Ator Coadjuvante (Burgess Meredith, Burt Young), Roteiro Original, Montagem, Canção ("Gonna fly now"), Som
Vencedor de 3 Oscar: Melhor Filme, Diretor (John G. Avildsen), Montagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme/Drama


A festa de entrega do Oscar para os melhores de 1976 tinha no páreo a obra-prima "Taxi driver", de Martin Scorsese e o festejado e politicamente importante "Todos os homens do presidente", de Alan J. Pakula, além do merecidamente incensado "Rede de intrigas", de Sidney Lumet (que tem previsão de lançamento em DVD no Brasil para 23/6/10). Com esse trio forte de candidatos, não deixou de ser uma enorme surpresa que a estatueta de melhor filme tenha ficado justamente com "Rocky, um lutador", uma produção pequena e simples que louvava, acima de tudo, a auto-superação de um homem comum, gente como a gente. Escrito e estrelado por um jovem Sylvester Stallone (30 anos em 1976), o filme tornou-se um sucesso instântaneo, rendendo milhares de dólares e gerando várias continuações com o passar dos anos (a última, intitulada "Rocky Balboa", foi lançada em 2006, três décadas depois da estreia do primeiro filme).

O primeiro - e melhor filme da série - se passa na Filadélfia, onde vive o protagonista, Rocky Balboa (vivido por um inspirado Stallone, que recebeu uma inédita indicação ao Oscar de melhor ator). Outrora um promissor boxeador, Rocky trabalha como uma espécie de capanga de um agiota, utilizando seus músculos como objeto de pressão contra os inadimplentes. Logo que começa a namorar a tímida Adrian (Talia Shire), a irmã de seu melhor amigo, Paulie (Burt Young), Rocky vislumbra a maior chance de sua vida profissional: lutar contra o campeão de boxe Apollo Creed (Carl Wheaters), que quer dar a um desconhecido a oportunidade de desafiá-lo no ringue. Contando com a ajuda de seu ex-técnico Mickey (Burgess Meredith), ele inicia um treinamento intensivo, pois sabe que, mesmo que saia da luta derrotado - como é o mais provável que aconteça - ele precisa provar que não é o fracassado que todo mundo pensa que ele é.


Filmado em apenas 28 dias, com um orçamento de pouco mais de 1 milhão de dólares, "Rocky" é, na verdade, um estudo sobre um assunto sobre o medo do fracasso, que há muito fascina o público médio americano. Mas não é um estudo sério, pedante ou enfadonho. Da forma como foi escrito por Stallone - em apenas 3 dias, conforme a lenda - é uma história de amor simples e humana, capaz de atingir várias parcelas de público. Seu romance hesitante com Adrian emociona o público feminino por sua delicadeza e sensibilidade e é pouco provável que a audiência masculina não se empolgue com o teor esportivo do filme - o treinamento de Rocky, inclusive gerou cenas antológicas, casadas com a canção "Gonna fly now", que tornou-se símbolo de toda a série.

A série, aliás, nunca fez justiça à qualidade de seu primeiro capítulo, tornando-se, com o tempo, uma máquina caça-níqueis sem a mesma essência que fez da primeira parte da saga de Rocky tão especial e querida pelo público. O que provavelmente os produtores não entenderam é que o sucesso comercial e de crítica do filme surgiu principalmente pelo fato do filme ser tão azarão quanto seu protagonista. Quando escreveu a primeira versão do roteiro, Stallone estava em uma situação tão crítica quanto a de Rocky, com meros 106 dólares na conta bancária e em vias de se desfazer do próprio cachorro, a quem não conseguia alimentar decentemente. A batalha de Rocky em provar seu valor - e a urgência com que precisava fazer isso - era, de uma certa forma um reflexo bastante claro da batalha do ator em ser levado a sério em sua profissão. Essa identificação era tão forte que, mesmo praticamente falido, Stallone exigiu fazer o papel principal, mesmo quando os produtores insistiam em um nome mais bancável - que giravam em torno dos mesmos atores de sempre nessas circunstâncias; Robert Redford, Ryan ONeal, Burt Reynolds ou James Caan. Sua insistência fez o orçamento do filme diminuir, mas deu a ele a veracidade e o sentimento palpável indispensáveis a seu sucesso - ainda que o final seja consideravelmente diferente da primeira versão do script.

"Rocky, um lutador" não é uma obra-prima, aliás não passa nem perto de o ser. Seu roteiro é repleto de clichês - que não incomodam justamente por combinarem perfeitamente com o estilo simples dos protagonistas - e as interpretações não são exatamente geniais, apesar de 4 de seus atores terem levado indicações ao Oscar. Mas é extremamente bem realizado - as cenas de luta são tecnicamente corretas - e é dono de uma energia tão positiva e inspiradora que se torna quase impossível não gostar de seu resultado final. É um filme que fala ao coração mais do que ao cérebro e é justamente aí que se encontra seu ingrediente secreto.

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