terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

BABEL

BABEL (Babel, 2006, Paramount Vantage, 143min) Direção: Alejandro Gonzalez Iñarritu. Roteiro: Guillermo Arriaga. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Douglas Crise, Stephen Mirrione. Música Gustavo Santaolalla. Figurino: Michael Wilkinson. Direção de arte/cenários: Brigitte Broch/Yoshihito Akatsuka. Produção: Steve Golin, Alejandro Gonzalez Iñarritu, Jon Kilik. Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Gael Garcia Bernal, Adriana Bazarra, Rinko Kikuchi, Kôji Yakusho. Estreia: 27/10/06

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alejandro Gonzalez Iñarritu), Atriz Coadjuvante (Adriana Barraza, Rinko Kikuchi), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Trilha Sonora Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Drama

A obra do cineasta mexicano Alejandro Gonzalez Iñarritu é permeada por personagens vítimas inclementes de tragédias pessoais que, de uma maneira ou outra, interferem em outras existências. Foi assim com seu sensacional "Amores brutos" - que, entre outras qualidades revelou o ator Gael Garcia Bernal - e com seu denso "21 gramas", que marcou sua estreia em Hollywood sem perder a força dramática. E é assim também com "Babel", que, apesar de ser o mais fraco da trilogia, conquistou a Academia e arrebatou 7 indicações ao Oscar, incluindo nas ambicionadas categorias de Melhor Filme e Direção. Refinando sua parceria com o roteirista Guillermo Arriaga - também contemplado com uma indicação à estatueta - Iñarritu construiu um ambicioso painel sobre as falhas na comunicação humana e como elas podem ser responsáveis pela dor e pela solidão.

Sem medo de repetir sua marca registrada - histórias paralelas que se cruzam de alguma forma - a dupla Iñarriu/Arriaga dessa vez vai mais longe do que em suas experiências anteriores. Enquanto "Amores brutos" se passava no México e "21 gramas" nos EUA, "Babel" estende seus tentáculos sobre três diferentes continentes e três idiomas distintos de maneira original e excitante - ainda que nem sempre o roteiro consiga atingir plenamente seus objetivos. É evidente, por outro lado, a paixão do cineasta por seu projeto, que lhe permitiu contar com atores do cinemão comercial americano - Brad Pitt e Cate Blanchett - com atores de seu país natal - Gael Garcia Bernal e Adriana Barraza - e com atores japoneses (Rinko Kikuchi e Kôji Yakusho). Brad Pitt, inclusive, abdicou de um papel importante em "Os infiltrados", de Martin Scorsese, para interpretar o papel de Richard Jones, um americano que viaja ao Marrocos acompanhado da esposa, Susan (Cate Blanchett) como forma de reanimar a relação. É um trágico acontecimento na vida do casal que irá detonar os acontecimentos de "Babel".

Durante uma viagem de ônibus, Susan acaba sendo acidentalmente alvejada por um tiro. Desesperado e sem saber comunicar-se direito com os habitantes do local, Richard tenta socorrer a esposa, mesmo encontrando resistência junto aos demais turistas. Sua busca alucinada por ajuda - eles estão em um lugar sem hospitais e sem médicos - acaba se refletindo em sua casa: sem possibilidades de voltar aos EUA, Richard pede à Amelia (Adriana Barraza), sua empregada doméstica, que tome conta de seus dois filhos pequenos. Acontece que Amelia está indo para o México para acompanhar o casamento do filho e resolve levar as crianças junto com ela e seu sobrinho, o pouco confiável Santiago (Gael Garcia Bernal). Apesar do choque de culturas, todos acabam se entendendo bem, até que, na volta para casa, Santiago arruma problemas com o guarda da fronteira - que não acredita nas boas intenções de Amelia em relação aos filhos de seu patrão - e leva todos a uma situação extrema de tensão e pânico. Enquanto isso, no Japão, a jovem surda-muda Chieko (Rinko Kikuchi) tenta escapar da carência e da solidão se oferecendo aos homens que passam à sua frente, talvez como forma de chamar a atenção do pai, empresário que ofereceu, em viagem ao Marrocos, o rifle que disparou o tiro que atinge Susan.

Fabulosamente editado, "Babel" encontra em seu elenco a perfeita tradução dos sentimentos espalhados pelo roteiro. Se Pitt, Blanchett e Gael são pouco exigidos com suas personagens são justamente as atrizes menos conhecidas que chamam a atenção - atenção essa devidamente reconhecida pela indicação dupla ao Oscar de coadjuvantes femininas. Adriana Barraza (que já havia trabalhado com o diretor em "Amores brutos") entrega uma Amelia devastadora em sua timidez e seu senso de inferioridade em relação aos americanos, na melhor das histórias narradas. E Rinko Kikuchi tem uma atuação corajosa como uma adolescente desesperada por carinho. São elas quem comandam a festa, provando que talento não tem idade, idioma ou fama e mostram que a Babel criada por Iñarritu é muito mais real do que se pode imaginar.

Mesmo tendo perdido o Oscar para "Os infiltrados" - saiu da cerimônia apenas com a estatueta de trilha sonora original - "Babel" é o encerramento apropriado para a trilogia criada por Iñarritu e Arriaga. Um filme doloroso, forte e tenso, capaz de permanecer na mente do espectador por um bom tempo após o término da sessão.

Um comentário:

Anônimo disse...

Mais uma falha do Oscar, Babel merecia todos os Oscar, é uma obra prima