domingo, 17 de fevereiro de 2013

300

300 (300, 2006, Warner Bros, 117min) Direção: Zack Snyder. Roteiro: Zack Snyder, Kurt Johnstad, Michael B. Gordon, graphic novel de Frank Miller, Lynn Varley. Fotografia: Larry Fong. Montagem: William Hoy. Música: Tyler Bates. Figurino: Michael Wilkinson. Direção de arte/cenários: James D. Bissell/Paul Hotte, Philippe Lord. Produção executiva: William Fay, Craig J. Flores, Scott Mednick, Frank Miller, Deborah Snyder, Thomas Tull, Benjamin Waisbren. Produção: Mark Canton, Bernie Goldmann, Gianni Nunnari, Jeffrey Silver. Elenco: Gerard Butler, Lena Headey, Dominic West, David Wenham, Michael Fassbender, Rodrigo Santoro. Estreia: 09/12/06 

As graphic novels criadas por Frank Miller não são apens histórias em quadrinhos para adultos, recheadas de violência extrema e mulheres sensuais. Como bem demonstrou a adaptação - melhor dizendo, a transposição - de "Sin City", feita em 2005 por Robert Rodriguez e o próprio Miller, a obra do autor oferece muito mais ao leitor (e depois espectador de cinema) do que simplesmente um visual caprichado. Enquanto "Sin City" surgiu como um herdeiro legítimo dos filmes noir americanos dos anos 40 e 50 (mas muito mais embalado com sangue e sexualidade), o impactante "300" - escrito com bases históricas - cativa o público por narrar acontecimentos reais anabolizados com efeitos especiais caprichados e uma produção impecável, sem deixar de lado um fator muito importante que muitos seguidores da linha Michael Bay de filmes de ação sempre ignoram: o desenvolvimento de personagens.

Tudo bem que não se pode esperar que um filme feito para divertir e levar multidões às salas de exibição tenha protagonistas psicologicamente bem delineados e com dramas existenciais muito profundos, mas o mínimo que se deseja de uma produção de boa qualidade é que o público consiga enxergar nas personagens retratadas um pequeno lastro de humanidade que seja. E é nesse ponto - somado à técnica sensacional - que "300" ganha de lavada de muitos congêneres. Seu heroi - e heroi aqui não é apenas figura de linguagem - é ninguém menos que Leônidas, o rei de Esparta que comandou um exército de apenas 300 homens contra os milhares de soldados comandados por Xerxes, rei da Pérsia, depois de ter se negado a uma submissão ao déspota. A história real, ocorrida no ano 480 a.C., encontrou em Miller o narrador ideal e em Zack Snyder o diretor perfeito. Com apenas um longa-metragem no currículo - "Madrugada dos mortos", refilmagem do clássico de horror de George A. Romero - o cineasta encontrou o equilíbrio exato entre cenas de batalha de arrepiar, personagens fortes e intrigas palacianas, sem deixar o ritmo cair nem tampouco esbarrar nas armadilhas que o gênero fatalmente cria. Se discursos inspiradores aparecem ao longo da projeção é porque realmente precisam estar ali - e gritados por um avassalador Gerard Butler, eles soam exatamente como são: parte essencial da narrativa.


É óbvio que nem Miller nem Zack Snyder tem como objetivo honrar a história com preciosismos, preferindo se dedicar a tudo que a trama tem de poético e heroico, tanto visualmente quanto em termos de roteiro. Portanto, quem procura uma versão historicamente perfeita deve passar ao largo de "300". Por mais que muito do que é contado no filme seja verdade, licenças poéticas volta e meia surgem diante dos olhos da plateia, mas tudo é mostrado de forma tão empolgante que fica difícil reclamar. Até mesmo quando a fantasia assume um lugar de destaque - caso do oráculo consultado por Leônidas no princípio do filme - ela tem uma função específica, não sendo apenas mais um artifício narrativo estéril. Emoldurando todas as cenas com uma fotografia espetacular e uma edição eficiente, Snyder ainda conta com uma reconstituição de época detalhista e uma maquiagem brilhante. Mas nada se compara ao elenco escolhido por ele.

Se o brasileiro Rodrigo Santoro não faz feio como o temível Xerxes - com sua voz modificada no computador para soar mais ameaçadora - e Dominic West desperta a ira da audiência com seu venal Theron - capaz de usar o amor da esposa de Leonidas como arma a favor de sua ambição - é o escocês Gerard Butler quem brilha acima de todos. Carismático e dono de uma voz potente e tonitruante - mal utilizada na versão de "O fantasma da ópera" comandada por Joel Schumacher - Butler criou um Leonidas inesquecível, feito de carne, osso e honra, que convence a plateia como rei, homem e heroi. Essa qualidade essencial - criar uma personagem crível e empática - é o maior trunfo de "300", acima de seus extraordinários feitos técnicos. Butler é o corpo e a alma do filme. O espectador, encantado, agradece.

Um comentário:

Anônimo disse...

sabe filme de menino? então...