sábado, 16 de fevereiro de 2013

DREAMGIRLS - EM BUSCA DE UM SONHO



DREAMGIRLS, EM BUSCA DE UM SONHO (Dreamgirls, 2006, Dreamworks SKG, 130min) Direção: Bill Condon. Roteiro: Bill Condon, livro de Tom Eyen. Fotografia: Tobias A. Schliessler. Montagem: Virginia Katz. Música: Tom Eyen, Henry Krieger. Figurino: Sharen Davis. Direção de arte/cenários: John Myhre/Nancy Haigh. Produção executiva: Patricia Witcher. Produção: Laurence Mark. Elenco: Jamie Foxx, Beyoncé Knowles, Eddie Murphy, Danny Glover, Jennifer Hudson. Estreia: 15/12/06

8 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Eddie Murphy), Atriz Coadjuvante (Jennifer Hudson), Figurino, Direção de arte/cenários, Canção ("I love I do", "Listen", "Patience"), Mixagem de Som
Vencedor de 2 Oscar: Atriz Coadjuvante (Jennifer Hudson), Mixagem de Som
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Ator Coadjuvante (Eddie Murphy), Atriz Coadjuvante (Jennifer Hudson)

Desde sua estreia na Broadway, em dezembro de 1981, o musical "Dreamgirls" - inspirado perceptivelmente na trajetoria das Supremes, grupo musical liderado por Diana Ross nos anos 60 e 70 - já estava na mira dos estúdios de cinema para chegar às telas. No final da década de 80, por exemplo, Whitney Houston estava escaladíssima para o projeto - que ruiu com as exigências da estrela, que queria transferir algumas das canções de outras personagens para a sua. Nos anos 90 a possibilidade de uma versão dirigida por Joel Schumacher e estrelada por Lauryn Hill era grande depois do sucesso de "Tina" - mas o fracasso de outras produções biográficas/musicais acabou com a adaptação. Foi somente com o sucesso e os Oscar de "Chicago" - seguindo o êxito de "Moulin Rouge" - que Bill Condon (autor do roteiro do filme estrelado por Renée Zellweger) finalmente teve a chance de assumir o projeto de seus sonhos. Estrelado pela megastar Beyoncé Knowles, pelos competentes Jamie Foxx, Eddie Murphy e Danny Glover e pela espetacular revelação Jennifer Hudson, "Dreamgirls, em busca de um sonho"acabou rendendo mais de 100 milhões de dólares nas bilheterias americanas e, com oito indicações ao Oscar, tornou-se também o único filme a liderar as indicações de seu ano sem concorrer à estatueta principal.

Considerado por muitos como a ressurreição da carreira de Eddie Murphy - que concorreu ao Oscar de coadjuvante depois de sucessos fracassos comerciais e artísticos - "Dreamgirls" é uma produção suntuosa e caprichada, comandada por um cineasta de extremo talento que sabe como extrair o melhor de cada ator e de cada cena. Comandante do excelente "Kinsey" e do impressionante "Deuses e monstros" - que lheu uma estatueta de roteiro adaptado em 1999 - Bill Condon conduz seu primeiro musical como diretor de maneira inteligente e dotado de um ritmo que fez extrema falta em produções como "O fantasma da ópera". Equilibrando com maestria uma reconstituição de época primorosa, uma direção de atores nunca aquém de formidável e uma trilha sonora vibrante e potente, Condon - que assistiu à estreia do musical na Broadway - assina um filme que em nada fica a dever aos clássicos exemplares do gênero. Se em alguns momentos derrapa em sequências musicais um tanto longas tudo é perdoado quando se percebe a entrega de seu elenco a personagens fortes e bem delineados, coisa rara no estilo.


A trama de "Dreamgirls" começa em Detroit em plena década de 60, período de grande efervescência na luta pelos direitos civis, liderada por Martin Luther King. É aí que o ambicioso Curtis Taylor Jr. (Jamie Foxx) tenta fazer sucesso no meio musical, conseguindo com que suas contratadas, as Dreamettes - um trio de belas e talentosas cantoras negras - sejam aceitas como backing vocals do grande astro James Thunder Early (Eddie Murphy). Não demora muito para que, com a decadência do cantor (envolvido com drogas) suas coadjuvantes assumam o centro do palco. Por questões comerciais, no entanto, ele faz com que a esplendorosa e sexy Deena Jones (Beyoncé Knowles) seja o principal atrativo do grupo, deixando de lado a talentosa e voluntariosa Effie Jones (Jennifer Hudson). Com ciúmes do arranjo - e sabendo-se muito mais capaz do que sua colega de elenco - Effie torna-se a dor de cabeça do produtor, que acaba se casando com Deena e gerenciando sua carreira. Nesse meio tempo, Early entra de cabeça no vício e no declínio e Effie se vê rejeitada por seus ataques de estrelismo.

Além de números musicais empolgantes que apresentam ao público grandes canções de r&b defendidas por gente do mais alto calibre, "Dreamgirls" tem a seu favor também a inteligência de Bill Condon em mesclar à sua história quase clichê sequências de grande impacto social. Mesmo que não se aprofunde no tema das lutas pelos direitos dos negros ele está sempre presente, influenciando nas vidas das personagens e ditando algumas de suas decisões. Conforme a narrativa avança - e os anos 60 dão lugar aos 70 - as mudanças sociais são sutilmente percebidas, assim como a evolução nos figurinos e cenários, todos acima de qualquer crítica. Mas nada é melhor na bem-sucedida adaptação do que o elenco formado pelo diretor.

A opção de Condon pela belíssima Beyoncé Knowles é plenamente justificada quando se percebe que, além de seu alcance vocal privilegiado, a ex-integrante do Destiny's Child (que de certa forma seguiu o mesmo caminho das Dreamettes) não faz feio como atriz, mantendo com segurança uma personagem que tinha tudo para cair na vala fácil das figuras decorativas do gênero. Jamie Foxx comprova que seu Oscar por "Ray" não foi acidente, criando um Curtis Taylor quase cruel e egocêntrico. Eddie Murphy brilha como James Early, na melhor atuação de sua carreira. Mas ninguém consegue ofuscar Jennifer Hudson. Ex-concorrente do "American Idol", Hudson é um furacão em cena, mostrando que não foi à toa que bateu 782 candidatas ao papel: sua Effie engole tudo à sua volta, equilibrando um brilhante talento como cantora com uma insuspeita vocação para atriz. Todos os prêmios que ganhou na temporada - entre os quais o Golden Globe, o Screen Actors Guild e finalmente o Oscar - apenas confirmaram o que qualquer espectador percebe cada vez em que ela está em cena: nasce uma estrela.

"Dreamgirls" não vai agradar aos detratores do gênero musical. É um exemplar perfeito do estilo, com todas as suas qualidades e também seus defeitos. Mas é feito com paixão, talento e garra, o que acaba sendo um enorme diferencial em tempos onde a apatia é moeda corrente.

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