terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A FLOR DO MEU SEGREDO

A FLOR DO MEU SEGREDO (La flor de mi secreto, 1995, El Deseo S/A, 103min) Direção e roteiro: Pedro Almodovar. Fotografia: Affonso Beato. Montagem: José Salcedo. Música: Alfredo Iglesias. Figurino: Hugo Mezcua. Direção de arte/cenários: Esther Garcia/Miguel López Pelegrín. Produção executiva: Agustin Almodovar. Produção: Esther García. Elenco: Marisa Paredes, Juan Echanove, Carme Elias, Rossy de Palma, Chus Lampreave, Imanol Arias, Kiti Manver, Joaquin Cortes. Estreia: 22/9/95

Depois de tornar-se famoso por suas obras transgressoras, repletas de um humor frequentemente grosseiro embalado por um senso de autocrítica e um visual propositalmente kitsch, o cineasta espanhol Pedro Almodovar enveredou pelo melodrama, um de seus gêneros cinematográficos preferidos, em filmes como "De salto alto" - onde analisava a relação de amor e ódio entre mãe e filha. Seu trabalho seguinte, "A flor do meu segredo", dá continuidade a esse caminho, com uma sofisticação narrativa que alguns anos depois lhe consagraria como um dos mais inventivos roteiristas do cinema contemporâneo. Sóbrio e austero, o 11º filme de Almodovar é, provavelmente, um de seus mais coerentes com sua carreira, por mais paradoxal que soe essa afirmação.


Como é constante na obra de Almodovar, o centro da história é uma mulher à beira de um ataque de nervos, a escritora Leo Macias (em esplêndida atuação de Marisa Paredes). Afastada do marido que está lutando na Bósnia e infeliz com sua carreira literária - ela usa o pseudônimo de Amanda Gris para publicar romances água-com-açúcar que vendem aos milhares apesar de seu desprezo por eles - Leo é uma pessoa extremamente solitária, capaz de pagar a alguém na rua para ajudá-la a tirar as botas que apertam seus pés. Enquanto flutua pela vida, ela conta com a ajuda da amiga Betty (Carme Elias), lida com a família - representada pela mãe e pela irmã (as sensacionais Chus Lampreave e Rossy de Palma) - e atrai a atenção do jornalista Angel (Juan Echanove), que a contrata para escrever uma matéria criticando Amanda e se apaixona por ela.


A trama criada por Almodovar - aparentemente simples, mas complexa em emoções e sentimentos de dor e perda - flui com delicadeza diante dos olhos do espectador, ao contrário da narrativa quase histérica de seus filmes anteriores. Marisa Paredes entrega uma interpretação fascinante, calcada basicamente em olhares e pequenos gestos, que a aproximam do público sem dificuldade. Constantemente em lágrimas, ela consegue o feito de diferenciá-las, não tornando o filme um programa lacrimoso e piegas. A dor de Leo, captada pelas lentes discretas de Affonso Beato, é avassaladora, mas o cineasta jamais cai na armadilha de exagerá-la, preferindo acompanhar sua trajetória rumo à superfície, depois de um mergulho sufocante na depressão, de forma magistral. Não é exagero afirmar que "A flor do meu segredo" apresenta um dos melhores trabalhos de direção do espanhol.

Mas existe muito mais, em "A flor do meu segredo", do que o roteiro esperto, a direção segura e a atuação de Marisa Paredes - ainda que estes três elementos já sejam suficientes para colocar o filme como um dos melhores europeus da década de 90. De forma extremamente orgânica e inteligente, Almodovar também povoa seu filme com coadjuvantes interessantes, que de uma forma ou outra, cruzam o caminho de Leo para ajudá-la em seu momento de dor. Ao contrário do que acontece muitas vezes, nenhum personagem existe sem razão. Unidos por Leo estão sua família, sua empregada - e o filho dançarino - a melhor amiga, o marido, o editor apaixonado. Todos tem personalidade, todos tem importância, todos fazem parte do quebra-cabeças que formam o renascimento de Leocadia Macias em outra mulher - e todos também mantém seus próprios segredos.

E, se não bastasse tudo isso, "A flor do meu segredo" dialoga, de maneira direta, com outros dois filmes que o cineasta realizaria posteriormente: Betty trabalha em um hospital e apresenta conferências sobre doação de órgãos - e uma cena mostra a gravação de um vídeo que encoraja o ato, assim como acontece em "Tudo sobre minha mãe", de 1999. E uma das histórias contadas por Leo para um futuro romance - de um mãe que assume a morte do marido para poupar a filha - é uma das subtramas de "Volver", lançado em 2006. Dois pequenos bônus para os fãs do diretor, capazes de deixá-los com um sorriso nos lábios.

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