quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

FOGO CONTRA FOGO

FOGO CONTRA FOGO (Heat, 1995, Warner Bros, 170min) Direção e roteiro: Michael Mann. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Pasquale Buba, William Goldenberg, Dov Hoenig, Tom Rolf. Música: Elliot Goldenthal. Figurino: Deborah L. Scott. Direção de arte/cenários: Bonnie Timmermann/Anne H. Ahrens. Produção executiva: Pieter Jan Brugge, Arnon Milchan. Produção: Art Linson, Michael Mann. Elenco: Al Pacino, Robert DeNiro, Val Kilmer, Tom Sizemore, Diane Venora, Jon Voight, Amy Brenneman,  Ashsley Judd, William Fichtner, Natalie Portman, Mykelti Williamson. Estreia: 15/12/95

O quão bom pode ser um filme que reúne dois dos maiores atores do cinema americano de todos os tempos? Se o filme for dirigido por Michael Mann e se chamar "Fogo contra fogo" a resposta só pode ser uma: ótimo. Mesmo que Robert DeNiro e Al Pacino só façam duas únicas cenas juntos, o tom seco e direto imposto por Mann, o roteiro repleto de desdobramentos dramáticos, o elenco coadjuvante e a inteligência da trama são motivos mais do que suficientes para fazer de seu drama policial um filme essencial dos anos 90. E é no mínimo paradoxal que Mann - que ficou famoso como criador da série "Miami Vice", um símbolo absoluto do entretenimento ligeiro e descompromissado dos anos 80 - seja tão cuidadoso em oferecer a seu público um produto tão requintado.

Na tradição do cinema policial sem enfeites que deu origem a clássicos como "Serpico" e "Um dia de cão" - sintomaticamente estrelados por Al Pacino - "Fogo contra fogo" é cerebral na maior parte do tempo, demorando em expor todos os seus trunfos. É preciso 1/3 do filme para apresentar os personagens - bem delineados, fortes e interpretados com extrema garra - e situar a história central, que envolve roubo a bancos, crises matrimoniais e questões de lealdade. O roteiro de Mann não se apressa a estabelecer a personalidade de seus dois protagonistas, Vincent Hanna e Neil McCauley, vividos com a competência esperada por Pacino e DeNiro, respectivamente. Enquanto Hannah é um policial obcecado que, segundo sua própria descrição, precisa estar sempre agoniado para forçar sua percepção, e sente-se incapaz de manter um relacionamento satisfatório com a amante Justine (Diane Venora) e a filha adolescente dela, a problemática Lauren (Natalie Portman), McCauley é um expert em roubo a bancos que lidera um bando de criminosos das mais variadas índoles e tem como regra pessoal nunca manter nada em sua vida que não possa ser abandonado em trinta segundos. De certa forma bastante similares entre si, os dois acabam tendo suas vidas cruzadas quando o primeiro se vê no encalço do segundo - justamente quando este se apaixona pela ingênua Eady (Amy Brennemann).


A tendência de Mann em criar impressionantes sequências de ação não desapareceu em "Fogo contra fogo". Mesmo que dê prioridade a cenas longas, com diálogos substanciais e dilemas mais pessoais, o cineasta não se furta a proporcionar ao espectador momentos de pura adrenalina, dirigidas e editadas com precisão e firmeza, em especial um longo tiroteio no clímax do filme - que empurra os personagens a um final catártico narrado de forma apropriadamente lenta. Não interessa a Mann apressar sua história ou atropelar a coerência e a verossimilhança. Se por um lado isso joga o filme no perigoso limbo das produções com quase três horas de duração - o que afasta o público mais afeito a divertimentos fugazes - por outro brinda a inteligência daqueles que não se importam em despender um pouco mais de tempo para conferir uma narrativa mais longa.

E o encontro de Pacino e DeNiro, afinal? Talvez seja um pouco decepcionante, uma vez que suas cenas somadas não chegam a dez minutos (em um total de 170). No entanto - além da qualidade excepcional da sequência em que ambos estão frente a frente em um café - o que poderia ser um ponto negativo do filme transforma-se, sob um ponto de vista racional, em uma qualidade a mais. O raro encontro, que se dá depois de mais de uma hora de projeção, é fascinante justamente por não ser comum, o que dá a ele um aura de tensão palpável que somente dois atores do porte dos dois ícones podem criar. A placidez de DeNiro encontra um espelho contrário nas explosões de Pacino e juntos, eles fazem de "Fogo contra fogo" um drama policial dos melhores, injustamente esquecido pelos Oscar da vida.

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