quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

MEU QUERIDO COMPANHEIRO

MEU QUERIDO COMPANHEIRO (Longtime companion, 1989, American Playhouse, 96min) Direção: Norman René. Roteiro: Craig Lucas. Fotografia: Tony Jannelli. Montagem: Katherine Wenning. Música: Greg DeBelles. Figurino: Walter Hicklin. Direção de arte/cenários: Andrew Jackness/Kate Conklin. Produção executiva: Lindsay Law. Produção: Stan Wlodkowski. Elenco: Campbell Scott, Bruce Davison, Mary-Louise Parker, Dermot Mulroney, Patrick Cassidy, John Dossett, Stephen Caffrey, Mark Lamos, Michael Schoeffling. Estreia: 11/10/89

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Bruce Davison)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Bruce Davison)

Levando-se em consideração que as primeiras notícias sobre a AIDS - então tratada como "câncer gay" - surgiram no início dos anos 80, é quase chocante perceber que demorou quase uma década até que o tema fosse tratado devidamente no cinema americano. E o primeiro filme a tratar abertamente sobre a doença nem surgiu de um grande estúdio, como se poderia prever. "Meu querido companheiro" é uma produção independente que, apesar de não contar com o aparato de marketing que transforma um filme em sucesso de bilheteria, conquistou a crítica e proporcionou a Bruce Davison um dos papéis mais marcantes de sua carreira. Por seu trabalho no filme de Norman René, Davison foi eleito melhor ator coadjuvante do ano no Independent Spirit Awards, pelas associações de críticos de Nova York e Los Angeles e pelos eleitores do Golden Globe. Só perdeu o Oscar para Joe Pesci, de "Os bons companheiros" porque a Academia provavelmente achou que deveria homenagear o filme de Scorsese ao menos em uma categoria, no ano em que o superestimado "Dança com lobos" sagrou-se vencedor.

Em um filme sem protagonistas, que é valorizado pelo elenco homogêneo, Davison se destaca no papel de um homem que se vê obrigado a cuidar do amante roteirista de TV quando ele fica doente, mas a força do filme reside basicamente no tom emocional/documental impresso pelo roteiro de Craig Lucas, que faz um panorama do impacto da doença em um grupo restrito de amigos nova-iorquinos desde suas primeiras notícias, em julho de 1981 até o ano de 1988, quando a epidemia tornou-se visível o bastante para suscitar eventos beneficentes e a atenção do povo em geral. Nesse ponto é crucial a presença do advogado Fuzzy (Stephen Caffrey), que entra no grupo através de sua paixão por Willy (Campbell Scott) e se torna um ativista dos direitos dos gays soropositivos. Através dele o público toma contato com o preconceito ativo nos primórdios da AIDS, que tirava inclusive oportunidades de emprego - caso de Howard (Patrick Cassidy), ator que perde o trabalho em uma novela por culpa de seu relacionamento homossexual com um homem vítima da doença.


Tratando com o máximo de leveza possível um tema difícil, "Meu querido companheiro" também não se furta a retratar o preconceito até mesmo dentro do próprio núcleo de amizades entre os personagens. Nesse sentido, é emblemática a sequência em que Willy vai fazer uma visita no hospital e fica desesperado com a possibilidade de sequer tocar em qualquer coisa que possa lhe contaminar. Essa paranoia que tomou conta da comunidade gay também é mostrada no afastamento físico gradual entre ele e Fuzzy - que veem seu relacionamento esfriar conforme o medo da contaminação vai crescendo dentro de todo o grupo. Aos poucos o medo torna-se também uma ameaça real ao amor - talvez ainda mais devastadora e triste. René é contundente também ao substituir o tom festivo e libertário de sua primeira metade pela melancolia e opressão da segunda, como forma de sublinhar as mudanças de comportamento do então chamado "grupo de risco".

O roteiro de "Meu querido companheiro" não consegue fugir de certa superficialidade em vários momentos, principalmente porque sua estrutura não dá espaço para maior aprofundamento dos personagens. Mesmo assim dá a seus atores a oportunidade de desenvolver um trabalho de delicadeza e importância rara, em um período em que os grandes estúdios simplesmente ignoravam uma das maiores tragédias do século XX. A cena final, terna e comovente, fecha com inteligência e sensibilidade um filme que merecia ter sido mais comentado e assistido em seu lançamento, por sua relevância social e por sua qualidade dramática.

Um comentário:

Anônimo disse...

Ótimo filme nunca conseguir ve-lo on line,é uma pena.