sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

A SOMBRA E A ESCURIDÃO

A SOMBRA E A ESCURIDÃO (The ghost and the darkness, 1996, Constellation Entertainment,109min) Direção: Stephen Hopkins. Roteiro: William Goldman. Fotografia: Vilmos Zsigsmond. Montagem: Roger Bondelli, Robert Brown, Steve Mirkovich. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/Hilton Rosemarin. Produção executiva: Michael Douglas, Steven Reuther. Produção: A. Kitman Ho, Gale Anne Hurd, Paul Radin. Elenco: Michael Douglas, Val Kilmer, Tom Wilkinson, John Kani, Bernard Hill, Emily Mortimer. Estreia: 11/10/96

Vencedor do Oscar de Efeitos Sonoros

No final do século XIX, um engenheiro inglês é mandado para a África para construir uma ponte, liderando um grupo que reunia africanos e indianos. O que parecia um trabalho como outro qualquer - ainda que desafiador e ambicioso - torna-se um pesadelo quando o grupo passa a ser constantemente atacado por um par de leões, que, em questão de pouco tempo faz mais de 40 vítimas entre os operários. Contando com a ajuda de um experiente caçador, o jovem engenheiro - que está em vias de tornar-se pai pela primeira vez - assume a missão de exterminar as feras, mas descobre, atônito, que tudo é ainda mais difícil do que parecia ser, já que os animais fogem totalmente do esperado, conseguindo inclusive livrar-se de armadilhas infalíveis.

A trama de "A sombra e a escuridão", suspense dirigido por Stephen Hopkins vencedor do Oscar de Efeitos Sonoros em 1997 é tão inacreditável que é difícil de crer que não é invenção de algum roteirista lunático de Hollywood. A história do engenheiro John Patterson - vivido por um inexpressivo como sempre Val Kilmer - chegou aos cinemas em um filme de suspense elegante, produzido pelo ator Michael Douglas, que, com a prerrogativa de produtor executivo, embarcou no projeto também como ator, na pele do caçador Charles Remington, um personagem fictício que, dramaticamente, funciona bastante bem e é responsável por alguns dos momentos mais intensos da narrativa. São as cenas em que os dois caçadores partem em busca dos cruéis assassinos - mostrados com extrema parcimônia pela câmera do veterano Vilmos Zsigmond - que prendem o espectador, hipnotizados pela edição competente e pela trilha sonora adequada de Jerry Goldsmith.


Seguindo a tradição inaugurada por Steven Spielberg em seu "Tubarão" - a de não mostrar o rosto das ameaças até que seja impossível escondê-lo - "A sombra e a escuridão" esboça seu suspense com sutileza, utilizando-se de seu impressionante desenho de som para criar uma atmosfera de tensão constante até que finalmente os dois monstros ("interpretados" por leões verdadeiros na maioria esmagadora das cenas) surgem em cena para fazer a audiência pular da poltrona. A truculência dos bichos - mostrada com relativa liberdade para um filme que almeja grande bilheteria - é equiparada à sua aparente inteligência: nunca no cinema animais irracionais conseguem ser tão brilhantes, a ponto de destruir sistematicamente todas as tentativas de captura de seus perseguidores. E para quem tem a intenção de reclamar que leões normalmente não atacam seres humanos há uma explicação (não mostrada no filme, mas posteriormente revelada por estudiosos): os vilões do filme de Hopkins provavelmente mataram tantos homens porque eram velhos e humanos tem a carne mais tenra do que os animais que são normalmente o alvo do rei das selvas.

"A sombra e a escuridão" não encontrou seu público nos EUA, com sua bilheteria ficando aquém do orçamento de 55 milhões de dólares. Mas é um espetáculo repleto de qualidades, que vão desde sua reconstituição de época cuidadosa até aos já citados trabalhos de som, devidamente premiados com uma estatueta da Academia. Equilibrando com inteligência momentos de pura tensão com cenas bem escritas, que dão espaço aos atores - em especial Michael Douglas, que mesmo aparecendo depois de 45 minutos de projeção rouba o show do apático Kilmer - o filme de Hopkins é uma das pérolas esquecidas do cinema americano dos anos 90.

Um comentário:

Katia Calixto disse...

Adorei muito bom acabei de assistir na FX