sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

O PREÇO DA AMBIÇÃO

O PREÇO DA AMBIÇÃO (Swimming with sharks, 1995, Keystone Studios/Cineville, 101min) Direção e roteiro: George Huang. Fotografia: Steven Finestone. Montagem: Ed Marx. Música: Tom Hiel. Figurino: Kirsten Everberg. Direção de arte/cenários: Cecil Gentry, Veronika Merlin. Produção executiva: Jay Cohen, Stephen Israel. Produção: Steve Alexander, Joanne Moore. Elenco: Kevin Spacey, Frank Whaley, Michelle Forbes, Benicio Del Toro. Estreia: 21/3/95

Quase uma década antes que Lauren Weisberg expusesse ao mundo sua conflituosa relação com a temida Anna Wintour - editora-chefe da revista Vogue, com quem trabalhou por algum tempo, em uma experiência inesquecível na pior acepção do tempo - no romance "O diabo veste Prada" (que rendeu um ótimo filme estrelado por Meryl Streep), um outro filme explorava um traumático relacionamento profissional, mas nos bastidores da indústria do cinema. Escrito e dirigido por George Huang, antigo funcionário da Columbia Pictures - que escreveu sua trama inspirado na figura do produtor de filmes de ação Joel Silver - "O preço da ambição" é uma mistura de suspense com humor negro que leva até as últimas consequências as lutas internas pelo poder.

Antes de sua consagração pelos marcantes papéis em "Seven" e "Os suspeitos" - que estavam em vias de estrear - Kevin Spacey já demonstrava sua consistência dramática em interpretar personagens de moral dúbia e crueldade ululante. Ele vive com verve e gosto o produtor de cinema Buddy Ackerman, que usa e abusa de seu poder adquirido com o sucesso comercial de suas obras de gosto duvidoso para sistematicamente humilhar e explorar seus assistentes pessoais. Quem tem o azar de iniciar uma carreira sob suas ordens é o recém-formado Guy (Frank Whaley), que tem ambição de também tornar-se um membro da elite hollywoodiana. Tímido e sensível, logo Guy percebe que o sadismo sem limites de Ackerman pode lhe ser útil: com a ajuda da produtora independente Dawn (Michelle Forbes), ele põe as mãos em um roteiro que pode ser o seu pulo do gato e conta com o chefe para transformá-lo em realidade.


Contando sua história em forma de flashbacks - que mostram ao público os fatos que levaram Guy à misteriosa morte que abre o filme - Huang intercala seu roteiro com sequências de puro humor negro (onde Spacey brilha e antecipa seu patrão asqueroso da comédia "Quero matar meu chefe") com cenas de um suspense que nunca chega a ser violento ou poderoso quanto poderia (e talvez nem seja essa a sua intenção, afinal de contas). Os momentos em que Guy finalmente se impõe a Ackerman são o contraponto dramático de uma narrativa que frequentemente brinca com os bastidores de Hollywood, seja em citações nominais (um diretor promissor chama-se Foster Kane, uma referência explícita ao protagonista da obra-prima de Orson Welles) ou em piadas internas (muito do que Ackerman faz e diz provavelmente vem da realidade percebida pelo diretor em seus tempos como trabalhador anônimo da indústria). Mas é inegável que a tensão do embate entre os dois protagonistas quando o jogo é virado deixa bastante claro quem é o melhor ator.

Incentivado por Robert Rodriguez a partir das ideias para a realização, George Huang teve uma estreia correta, ainda que pálida. Não fosse a atuação mais uma vez excepcional de Kevin Spacey e algumas farpas direcionadas aos poderosos de Hollywood seria um filme sem maiores atrativos. Talvez por isso ele tenha seguido sua carreira na TV.

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