terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

DÚVIDA

DÚVIDA (Doubt, 2008, Miramax Films, 104min) Direção: John Patrick Shanley. Roteiro: John Patrick Shanley, peça teatral homônima do mesmo autor. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Dylan Tichenor. Música: Howard Shore. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: David Gropman/Ellen Christiansen. Produção executiva: Celia Costas. Produção: Mark Roybal, Scott Rudin. Elenco: Meryl Streep, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Viola Davis. Estreia: 25/12/08

5 indicações ao Oscar: Atriz (Meryl Streep), Ator Coadjuvante (Philip Seymour Hoffman), Atriz Coadjuvante (Amy Adams, Viola Davis), Roteiro Adaptado

Adaptar uma peça de teatro para o cinema é uma faca de dois gumes: ao mesmo tempo que já tem um belo background com a frequente qualidade do texto - e de certa forma um público garantido pelos fãs da versão para os palcos - existe a enorme chance de, com o diretor errado, jamais atingir plenamente suas possibilidades enquanto cinema, transformando-se simplesmente em teatro filmado. Tendo em vista que o único trabalho do dramaturgo John Patrick Shanley para as telas foi o fracassado "Joe contra o vulcão" (90), era de se esperar o pior de "Dúvida", baseado em sua peça teatral premiada com o Pulitzer em 2005. Shanley - vencedor do Oscar de roteiro original por "Feitiço da lua" (87) - é um mestre das palavras, mas havia o temor de que não conseguisse transmitir toda a atmosfera pesada de seu texto na tela grande. O sucesso de crítica e as cinco indicações ao Oscar, porém, mostraram que os temores eram infundados. Extremamente fiel à sua versão original, "Dúvida", o filme, é um vencedor por ao menos um grande motivo: não subestima a inteligência do espectador.

Como não acontece frequentemente em produções de grande alcance, o público é convidado a testemunhar uma batalha de titãs dentro de uma escola católica do Bronx dos anos 60, época em que os EUA conviviam com o racismo explícito e testemunhava as lutas dos negros pelos direitos civis. Esse abismo social tem reflexos dentro da St. Nichols, uma instituição religiosa comanda com mão de ferro pela temida Irmã Aloysius (Meryl Streep), que não precisa mais do que um simples olhar para incutir o medo nos alunos e nas próprias colegas de confinamento. Ciosa de seus deveres como responsável máxima pela escola, a irmã assume para si a missão de provar um crime imperdoável: suspeitando que o carismático Padre Flynn (Philip Seymour Hoffman) está abusando sexualmente de um aluno - carente, tímido e o mais importante nas circunstâncias, negro) - ela entra em uma cruzada para fazê-lo confessar o delito, não hesitando em apelar para todo e qualquer artifício, sendo assistida pela jovem Irmã James (Amy Adams), que não sabe que atitude tomar em relação ao caso.


Sem deixar-se levar pela tentação de agradar à parcela de público que prefere um entretenimento descerebrado a um trabalho mais complexo, Shanley trata de um assunto polêmico com delicadeza, sensibilidade e discrição, com personagens fabulosos interpretados por atores em dias de grande inspiração (não foi à toa que os quatro atores centrais foram indicados ao Oscar). Não deixa de ser irônico, portanto, que o elenco não é formado pelas primeiras escolhas: Meryl Streep - brilhando com a sua amarga e rígida Irmã Aloysius Beauvier - só chegou ao filme depois que outras grandes atrizes não acertaram a participação (entre elas Sigourney Weaver, Annette Bening, Frances McDormand, Kathy Bates e Anjelica Huston). O mesmo aconteceu com Philip Seymour Hoffman, que só assinou para viver o controverso Padre Flynn depois que Tom Hanks, John Cusack e David Hyde Pierce (!!) foram desconsiderados - e é impossível imaginar que qualquer um deles pudesse ter se saído melhor. Hoffman, por sua vez, fez um lobby gigantesco para a escalação de Amy Adams como a ingênua Irmã James (papel que Natalie Portman recusou) e Viola Davis assumiu o papel que Oprah Winfrey queria desesperadamente (e, mesmo tendo apenas uma longa cena com falas, recebeu uma merecida indicação ao Oscar de coadjuvante, que perdeu para Penelope Cruz em "Vicky Cristina Barcelona").

Como o próprio título sugere, "Dúvida" não dá certezas ao espectador. As cenas - dirigidas sem pressa por Shanley, que permite a seus atores desfrutarem dos diálogos densos e repletos de subtextos - são longas, substanciais e conduzem o público a mais incertezas do que veredictos. Interpretadas com gosto por atores de verdade, elas dão aos fãs de cinema (e teatro) momentos de pura tensão dramática, valorizada pelo uso parcimônico da trilha sonora e da edição. O tom claustrofóbico do texto encontra eco na direção de arte pesada e na fotografia escura do mestre Roger Deakins, que jamais se sobressai à importância do tema e à angústia de um final que foge totalmente do previsível - e por isso mesmo, gruda na memória como apenas os grandes filmes fazem.

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