sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

TROVÃO TROPICAL

TROVÃO TROPICAL (Tropic Thunder, 2008, Dreamworks Pictures, 107min) Direção: Ben Stiller. Roteiro: Ben Stiller, Justin Theroux, Etan Cohen, estória de Justin Theroux e Ben Stiller. Fotografia: John Toll. Montagem: Greg Hayden. Música: Theodore Shapiro. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Jeff Mann/Daniel B. Clancy. Produção executiva: Justin Theroux. Produção: Stuart Cornfeld, Eric McLeod, Ben Stiller. Elenco: Ben Stiller, Robert Downey Jr., Jack Black, Tom Cruise, Nick Nolte, Matthew McConaughey, Steve Coogan, Jay Baruchel, Brandon T. Jackson. Estreia: 13/8/08

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Robert Downey Jr.)

Normalmente, quando Hollywood olha para o próprio umbigo e retrata seus bastidores, opta por fazê-lo em dramas autocomplacentes ou cinebiografias de qualidade variadas. Raramente ele busca o riso do espectador, mas quando isso acontece, coisas sensacionais como "Um cilada para Roger Rabbit", de Robert Zemeckis, "Ed Wood", de Tim Burton e "Os picaretas", de Steve Martin - que brincam com a fogueira das vaidades sem perder o carinho por ela - surgem e encantam o espectador inteligente, com piadas certeiras sobre o universo do cinema. Outro exemplar imperdível do gênero é "Trovão tropical", a hilariante comédia com que Ben Stiller provou que tem razoável poder de fogo na indústria, com uma arrecadação doméstica que ultrapassou os 100 milhões de dólares: a despeito de seu orçamento milionário ter ultrapassado os 90 milhões, o filme de Stiller foi um êxito incontestável de bilheteria.

Incontestável e merecido. "Trovão tropical" é uma comédia excepcional e corajosa, que não poupa ninguém dos bastidores do cinema, apontando sua metralhadora giratória para os atores comerciais com ambições mais sérias, para produtores gananciosos, agentes irresponsáveis, cineastas metidos a autorais, os prêmios da Academia e até mesmo para a força do cinema americano ao redor do mundo. Irônico e debochado, o roteiro - escrito a partir de uma história imaginada por Stiller e pelo ator Justin Theroux - tira sarro de tudo e de todos a partir de uma premissa que, não fosse totalmente coerente com o universo retratado, seria de um absurdo sem igual: o "Trovão tropical" do título é um filme produzido pelo excêntrico Les Grossman (Tom Cruise, irreconhecível e muito engraçado), que quer realizar o seu próprio épico sobre a guerra do Vietnã e para isso não mede esforços para reunir uma equipe invejável. O diretor,  Damien Cockburn (Steve Coogan), é um cineasta cult, metido a intelectual e os atores não ficam atrás: o conceituado Kirk Lazarus (Robert Downey Jr) é um veterano vencedor de 4 Oscar adepto do "método" (a ponto de fazer um tratamento dermatológico e escurecer a pele para interpretar um soldado negro), o outrora astro de filmes de ação Tugg Speedmn (o próprio Stiller) quer salvar a carreira depois de uma mal-sucedida investida em um drama pelo qual ambicionava um Oscar, e Jeff Portnoy (Jack Black) tenciona deixar pra trás sua carreira de comediante em um papel sério - e enfrenta problemas com seu vício em drogas.


A bagunça começa quando Damien morre ao pisar em uma mina escondida e os atores, julgando que estão sendo testados pela produção, continuam atuando sem perceber que estão sendo perseguidos por nativos do lugar - que tampouco sabem que eles são apenas atores e não soldados americanos com objetivos militares. Enquanto isso, em Hollywood, Rick Peck (Matthew McConaughey), o agente de Speedman, tenta de todas as maneiras possíveis, proporcionar a seu cliente os luxos a que está acostumado - mesmo batendo de frente com a arrogância do produtor Grossman, que nem de longe imagina que Speedman foi pego como refém de um grupo violento de soldados asiáticos.

Equilibrando com inteligência um humor visual com referências espertas ao mundo das celebridades - não é preciso muito conhecimento de causa para reconhecer em Jeff Portnoy um pouco de Eddie Murphy, por exemplo - "Trovão tropical" conquista por não ter medo de rir das entranhas da própria Hollywood, com seu egocentrismo e sua tendência a louvar mercenários em detrimento de reais artistas - ainda que mesmo esses sejam alvo de piadas inclementes. Além disso, dá a Robert Downey Jr. um dos papéis essenciais à sua carreira - que surgiu juntamente com "Homem de ferro" e "Zodíaco" em sua ressurreição artística. Merecidamente indicado a um Oscar de coadjuvante (que perdeu para a impressionante atuação de Heath Ledger em "Batman, o cavaleiro das trevas"), Downey é, dentre tantas coisas boas, a maior qualidade de "Trovão tropical". E isso não é pouco!

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