quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

TINHA QUE SER VOCÊ

TINHA QUE SER VOCÊ (Last chance Harvey, 2008, Overture Films, 93min) Direção e roteiro: Joel Hopkins. Fotografia: John de Borman. Montagem: Robin Sales. Música: Dickon Hinchliffe. Figurino: Natalie Ward. Direção de arte/cenários: Jon Henson/Robert Wischhusen-Hayes. Produção executiva: Jawal Nga. Produção: Tim Perell, Nicola Usbourne. Elenco: Dustin Hoffman, Emma Thompson, Eileen Atkins, Kathy Baker, Liane Balaban, James Brolin. Estreia: 25/12/08 

Caso raro entre os filmes românticos americanos - que privilegia a juventude e a previsibilidade em detrimento de personagens interessantes - a comédia "Tinha que ser você" é o perfeito exemplo de que nem só de mulheres casadoiras e rapazes indecisos vive o cinema. Ao contar uma história simples e desprovida de quaisquer artifícios obtusos para conquistar a plateia, o filme do inglês Joel Hopkins oferece ao público uma hora e meia de uma narrativa que dá atenção ao que falta na maioria dos romances que chegam às telas: bons diálogos, personagens críveis e atuações afiadas de um dupla central que dispensa apresentações.

Depois de trabalharem juntos no elogiado "Mais estranho que a ficção" - mesmo que seus personagens nunca se cruzem em cena - Dustin Hoffman e Emma Thompson resolveram, para o bem do público, que deveriam se reencontrar nas telas. O roteiro de Hopkins pareceu, no mínimo, a melhor desculpa, e pelo que se vê diante do resultado final, a escolha não poderia ter sido melhor. Ambos indicados ao Golden Globe por seus desempenhos, Hoffman e Thompson mostram uma química invejável, com personagens que lhe dão todas as chances de brilhar sem que precisem apelar para as doenças fatais, mortes redentoras ou cenas catárticas que tanto agradam à Academia de Hollywood - que já lhes deram, no total, quatro estatuetas.


Hoffman está confortável no papel do desajustado Harvey Shine, um compositor de singles publicitários que vem sentindo o efeito do tempo em seu trabalho, sendo frequentemente substituído por profissionais mais jovens e "modernos". Em vias de ser demitido, ele embarca para Londres para assistir ao casamento da única filha, com quem mantém uma relação um tanto distante desde seu divórcio, anos antes. Seu inferno astral mostra-se maior do que o imaginado quando ele descobre, já na Inglaterra, que a jovem irá subir ao altar ao lado do padrasto (James Brolin) - o que o deixa ciente de sua solidão. Arrasado, ele esbarra em Kate Walker (Emma Thompson), uma solteirona que trabalha no aeroporto e não tem maiores surpresas na vida. A princípio relutante, ela acaba aceitando o convite de Harvey para acompanhá-lo à festa de casamento e entre eles acaba surgindo uma relação sensível e madura.

Equilibrando cenas de uma doçura emocionante - crédito do trabalho sempre delicado e sutil de Thompson, que comove especialmente quando sua personagem relembra um trauma do passado sem derramar mais do que poucas lágrimas - com um humor discreto, "Tinha que ser você" não foge do tradicional esquema "homem-encontra-mulher-e-depois-de-vários-desencontros-eles-se-acertam", mas o faz com propriedade e inteligência, sem jamais subestimar a capacidade da audiência em envolver-se com personagens mais próximos da realidade do que princesas e milionários excêntricos. Sem apelar para nada mais do que acontecimentos triviais, Joel Hopkins constroi um filme capaz de agradar a todos sem ofender a ninguém, coisa rara em tempos tão agressivos. E ver Hoffman e Thompson juntos é uma delícia rara.

Um comentário:

Hugo disse...

É um drama simples e sensível, mesmo que duas pequenas situações no final se mostrem um pouco forçadas.

O diretor Joel Hopkins fez outro filme pequeno e sensível chamado "Entrando de Cabeça". É um trabalho anterior.

Abraço