quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

ERA UMA VEZ

ERA UMA VEZ (Era uma vez, 2008, Conspiração Filmes/Globo Filmes, 117min) Direção: Breno Silveira. Roteiro: Patricia Andrade. Fotografia: Dudu Miranda, Paulo Souza. Montagem: Eduardo Hartung. Música: Berna Ceppas. Figurino: Cláudia Kopke. Direção de arte/cenários: Rafael Ronconi. Produção executiva: Pedro Guimarães, Leonardo Monteiro de Barros, Luiz Noronha, Eliana Soárez. Produção: Pedro Buarque de Holanda, Breno Silveira. Elenco: Thiago Martins, Vitória Frate, Rocco Pitanga, Paulo César Grande, Cyria Coentro. Estreia: 25/7/08

Depois do sucesso sem precedentes de "Cidade de Deus" - elogiado pela critica, prestigiado pelo público e reconhecido internacionalmente com quatro indicações ao Oscar - um novo filão foi descoberto pelos produtores brasileiros. De 2002 em diante o que não faltou na programação das salas de cinema foram filmes passados nas favelas do Rio de Janeiro, tratando da desigualdade social da cidade maravilhosa e suas trágicas consequências. Tendo isso em vista não chegou a ser surpreendente quando Breno Silveira - que assinou o bem-sucedido comercialmente "Dois filhos de Francisco" - anunciou que seu filme seguinte seria uma versão moderna e adaptada do clássico "Romeu e Julieta" tendo como protagonista um casal de classes sociais díspares que precisa lidar com a violência dos morros e o preconceito (nada velado) de suas famílias. "Era uma vez" - o produto final - não teve a mesma repercussão nem da obra-prima de Fernando Meirelles nem da história de Zezé di Camargo & Luciano, mas é um drama romântico honesto, sensível e realista capaz de emocionar sem apelar para excessos de nenhum tipo.


O protagonista da história é André (vivido por Thiago Martins, um ator criado na favela que demonstra um conhecimento de causa aliado ao talento). Traumatizado pela morte violenta do irmão mais velho, que testemunhou ainda criança, André vive com a mãe no morro do Cantagalo, trabalha em um quiosque de cachorro-quente no calçadão de Ipanema e convive com a ausência de outro irmão (Rocco Pitanga), preso injustamente. Honesto e de boa índole, André é apaixonado por Nina (Vitória Frate), uma bela, loura e rica menina de condomínio que frequenta a praia diante de seu quiosque. O que poderia ser um sonho impossível torna-se realidade quando ele consegue conquistá-la apesar de suas diferenças e os dois iniciam um belo e idílico romance - que tem como pano de fundo as lindas praias cariocas e a vista exuberante dos morros e como trilha sonora o samba e os bailes funk. A paz entre os dois começa a ser ameaçada, porém, quando o pai de Nina, um executivo falido (interpretado por Paulo Cesar Grande), passa a implicar com o namoro, que também não é visto com simpatia pela mãe do rapaz (Cyria Coentro). A saída do irmão de André da cadeia - e sua subsequente ascensão no tráfico de drogas no morro onde vivem - acelera a tragédia.



Especialista em contar suas histórias de forma a envolver o público, Breno Silveira narra seu "Era uma vez" sem firulas estilísticas, preferindo ater-se basicamente à trama, que, se não apresenta novidades em seu roteiro, ao menos trata com respeito seus personagens e o público. Centrando sua força no destino chocante e previsível de seu par romântico - cujo desfecho é preparado lentamente até o terço final, quando o suspense assume o comando - o filme conquista a audiência ao apresentar uma história simples e direta, que toca o coração justamente por ser despretensioso e por retratar uma realidade familiar a qualquer brasileiro com um mínimo de informação. Ainda que por vezes resvale em clichês - fato inevitável quando se fala em releituras do clássico shakespereano - a obra de Silveira acerta no que há de mais importante: a emoção.


Boa parte do sucesso de "Era uma vez" em ser um filme honesto, porém, vem da atuação de Thiago Martins, que transmite em medidas exatas todos os tons de seu André. Por vezes ingênuo, por vezes portador de uma raiva contida, e em muitos momentos romântico e batalhador, André é um personagem escrito sob medida para o jovem ator, que faz jus à confiança do diretor em um trabalho impecável. É graças principalmente ao carisma de Thiago - que tem uma boa química com a delicada Vitória Frate - que a plateia se deixa seduzir por um drama nitidamente realizado para emocionar. "Era uma vez" é um belo e simples filme de amor que cumpre o que promete - objetivo que muitos filmes bem mais ambiciosos falham em atingir.

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