terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

O SUSPEITO

O SUSPEITO (Rendition, 2007, New Line Cinema, 122min) Direção: Gavin Hood. Roteiro: Kelley Sane. Fotografia: Dion Beebe. Montagem: Megan Gill. Música: Paul Hepker, Mark Kilian. Figurino: Michael Wilkinson. Direção de arte/cenários: Barry Robison/Jille Azis. Produção executiva: Toby Emmerich, Keith Goldberg, David Kanter, Edward Milstein, Keith Redmon, Paul Schwake, Michael Sugar, Bill Todman Jr.. Produção: Steve Golin, Marcus Viscidi. Elenco: Reese Witherspoon, Meryl Streep, Jake Gyllenhaal, Peter Sarsgaard, Alan Arkin, J.K. Simmons, Omar Metwally, Igal Naor. Estreia: 07/9/07 (Festival de Toronto)

Tido como um dos prováveis candidatos ao Oscar 2008 desde que estreou no Festival de Toronto em setembro de 2007, o drama político "O suspeito" viu suas expectativas frustradas quando foi solenemente ignorado quando a lista de indicações foi divulgada, quatro meses mais tarde. Talvez devido a seu tema incendiário e polêmico - os métodos pouco ortodoxos da CIA de interrogar suspeitos de terrorismo mesmo sem evidências sólidas - o filme do sul-africano Gavin Hood tampouco encontrou seu público, passando batido nas bilheterias americanas (seu principal alvo) e sendo pouco comentado no resto do mundo. Seu relativo fracasso, porém, não deixa de ser injusto: na tradição dos thrillers políticos do grego Costa-Gavras, "O suspeito" é um filme forte, inteligente e bem realizado, com muito mais a dizer do que se poderia esperar de uma produção hollywoodiana - mesmo que envolto em um pacote comercialmente atraente.

Apesar de ter seu elenco liderado por Reese Witherspoon em seu primeiro papel pós-Oscar - e de ela ser basicamente uma atriz de filmes menos sérios - "O suspeito" não tem nada de leve ou fácil, ainda que provavelmente tenha retratado de forma bem atenuada muito da crueldade a qual são submetidas as pessoas que tem o azar de cair na suspeita dos paranoicos agentes da CIA pós-11 de setembro. Apesar das cenas de tortura serem dirigidas de maneira a não chocar o grande público, é difícil não se deixar envolver com a angústia transmitida pela direção segura de Hood - que também assinou "Infância roubada", vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2005 - tanto nas sequências fisicamente violentas quanto nas potentes cenas dramáticas, que extraem o melhor de seus atores, todos do mais alto gabarito (a ponto de Meryl Streep ter um papel relativamente pequeno, ainda que crucial à história contada pelo complexo roteiro de Kelley Sane.


Quando o filme começa, o egípcio Anwar El-Ibrahimi (Omar Metwally) está a caminho dos EUA para reencontrar a esposa, Isabella (Reese Witherspoon) -prestes a dar à luz - o filho pequeno e a mãe, depois de uma viagem de negócios à África. Assim que chega ao país, porém, ele é imediatamente sequestrado por um grupo de agentes da CIA, acusado de ligações com um terrorista suspeito de um atentado com vítimas americanas. Mantido sob custódia do governo em um local secreto - graças a ordens da senadora linha-dura Corrine Whitman (Meryl Streep) - Anwar passa a ser violentamente torturado por Abasi Fawal (Yigal Naor), apesar das tentativas do jovem analista político Douglas Freeman (Jake Gyllenhaal) de diminuir o estrago. Assumindo o cargo de liderar a operação depois da morte de um colega, Freeman busca o diálogo como forma de entendimento, mas não consegue impedir os absurdos da situação. Enquanto isso, Isabella, desesperada com a situação, procura um antigo colega de faculdade, Alan Smith (Peter Sarsgaard), que é assistente de um senador (Alan Arkin), buscando a localização do marido.

A teia de dramas criada por Sane também tem desdobramentos em outro nível que não o familiar e o político, o que lhe dá um sabor extra: no decorrer da busca de Isabella pelo paradeiro do marido - trama que remete imediatamente ao clássico "Missing", estrelado por Sissy Spacek e Jack Lemmon - o público é também testemunha da história de amor entre dois jovens, Fatima (Zineb Oukach), filha de Abasi, e Khalid (Moa Khouas), um rapaz muçulmano com um trágico passado de violência familiar que o faz odiar o pai da namorada. Essa trama paralela - que talvez confunda o espectador em um primeiro momento - se revela de suma importância no desfecho do filme, comprovando o talento de Hood em manipular a atenção de seu público em várias frentes. Sob seu comando, o que poderia parecer um desvio de foco acaba se tornando uma surpresa chocante.

Mesmo que não tenha sido o sucesso que deveria, "O suspeito" é um dos mais interessantes filmes americanos a discutir a política de segurança americana depois dos atentados às Torres Gêmeas. E é também um belo exemplo de como cineastas estrangeiros à Hollywood podem se adequar à indústria sem perder sua sensibilidade e identidade próprias.

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