quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

JOGO DE CENA

JOGO DE CENA (Jogo de cena, 2007, Matizar/VideoFilmes, 100min) Direção: Eduardo Coutinho. Fotografia: Jacques Heuiche. Montagem: Jordana Berg. Produção executiva: Guilherme Cezar Coelho, João Moreira Salles, Mauricio Andrade Ramos. Produção: Bia Almeida, Raquel Freire Zangrandi. Elenco: Andrea Beltrão, Fernanda Torres, Marília Pera. Estreia: 09/11/07

A trágica e inesperada morte de Eduardo Coutinho no último dia 02 de fevereiro calou uma das mais instigantes e brilhantes vozes do documentário brasileiro. Coutinho, que assinou a direção do clássico "Cabra marcado para morrer" sempre pautou sua obra pelo carinho com seus entrevistados, pelo respeito pelas histórias contadas e principalmente pela inteligência com que conduzia suas entrevistas, repletas de calor humano e sinceridade. Se em "Edifício Master" ele deu um passo à frente em sua obra - focando sua atenção para pessoas aparentemente comuns - foi com "Jogo de cena", fascinante estudo sobre a arte do ator e o estoicismo humano que ele atingiu seu ponto máximo. Embaralhando as cartas da ficção com as da realidade, o mestre Coutinho construiu uma das mais fabulosas obras de sua genial filmografia.

A ideia do documentário em si já é instigante: 83 mulheres, habitantes do Rio de Janeiro, responderam a um anúncio de jornal para que se encontrassem com a produção para contar alguma história de sua vida. As histórias selecionadas foram gravadas pelas próprias mulheres diante das câmeras de Coutinho e em seguida, atrizes consagradas (Fernanda Torres, Marilia Pera, Andrea Beltrão) contavam essas mesmas histórias como se fossem delas. Pronto. A base é essa. O que surpreende, encanta e comove é a forma com que o diretor explora essa dualidade entre a realidade e sua imitação sem fazer nada mais do que simplesmente deixar que as histórias - quase todas de forte impacto emocional - falem por si mesmas, ora disfarçadas por um oportuno senso de humor, ora sublinhadas por sentidas lágrimas de tristeza ou emoção. É hipnotizante a forma com que a edição do filme intercala a verdade (as pessoas "reais") com seu arremedo (as atrizes, buscando atingir as notas da vida real), mostrando ao público tanto a vida como ela é quanto um ensaio genial sobre os bastidores da criação artística - mesmo que as personagens não sejam exatamente personagens.


Sendo assim, Coutinho apresenta à plateia a triste história de uma jovem mãe que se vê diante da perda do filho recém-nascido (e depois representada por uma comovida Andrea Beltrão) e uma mulher com dificuldades de relacionamento com a filha que mora nos EUA (posteriormente interpretada por Marilia Pera), assim como nubla a divisão entre real/fictício com a narrativa de uma jovem atriz negra que superou as dificuldades raciais e econômicas graças ao teatro e com o toque de mestre de apresentar uma história final contada por uma atriz desconhecida do grande público e por uma mulher comum: quem é quem é a grande questão que faz com que "Jogo de cena" se transforme de um filme em uma experiência rica e avassaladora.

Um mergulho na alma feminina e nas técnicas de interpretação de grandes atrizes, "Jogo de cena" é um dos mais apaixonantes filmes nacionais da história, ao revelar à plateia as entranhas de suas "personagens" sem nenhum tipo de julgamento ou manipulação. E é também fascinante para qualquer fã de cinema, teatro ou seres humanos com todas as suas imperfeições. Absolutamente impecável!

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