quinta-feira, 20 de março de 2014

TUDO PODE DAR CERTO


TUDO PODE DAR CERTO (Whatever works, 2009) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Harris Savides Montagem: Alisa Lepselter Figurino: Suzy Benzinger Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Ellen Christiansen Produção executiva: Brahim Chioua, Vincent Maraval Produção: Letty Aronson, Stephen Tenenbaum Elenco: Larry David, Evan Rachel Wood, Henry Cavill, Patricia Clarkson, Ed Begley Jr. Estreia: 22/4/09

Boris Yellkinoff é um sexagenário a um passo da misantropia, que passa seus dias ensinando xadrez a crianças que ele considera zumbis sem cérebro e pregando a seus amigos sua visão particular (e obviamente negativa) do mundo, da vida e da humanidade em geral, que ele considera um fracasso absoluto. Manco de uma perna – consequência de uma abortada tentativa de suicídio ocorrida à época de seu divórcio – e incapaz de dar-se ao luxo de um simples prazer, ele também sofre de um transtorno psicológico que o faz cantar “Parabéns a você” quatro vezes sempre que lava as mãos e é o protagonista de “Tudo pode dar certo”, 45º filme de Woody Allen, que volta à sua Nova York natal depois de uma refrescante volta ao mundo que legou aos fãs obras geniais como “Match point: ponto final” (rodado na Inglaterra) e “Vicky Cristina Barcelona” (que, como o próprio título deixa claro, se passava na Espanha). Interpretado por Larry David – conhecido do público por seu papel na série de TV “Curb your enthusiasm” – Yelnikoff é mais um personagem icônico criado por Allen, um diretor que, apesar da longevidade da carreira e da prolífica produção, ainda encontra meios de surpreender e encantar a plateia, mesmo que em pequenas proporções.
“Tudo pode dar certo” não é um dos melhores filmes do cineasta, mas ainda assim tem momentos brilhantes – em especial graças aos diálogos inteligentes e sardônicos – e alguns insights geniais a respeito do mundo e da sociedade atuais (difícil não ver em Yelnikoff muito do próprio Allen, que por mais que tente, nunca consegue convencer crítica e público que seus personagens são totalmente obra de ficção e não inspirados em sua própria e conhecidíssima persona). Boris é um resmungão chato e rabugento, mas não deixa de ter razão em muitas de suas afirmações, o que o torna deliciosamente verdadeiro: percebendo antes de todo mundo a insignificância dos problemas humanos e acreditando piamente que os homens não tem dentro de si a bondade inerente que muitos afirmam, ele é um espectador atento do colapso da Criação, mas seu mau-humor e cinismo constantes são tão desprovidos de maldade que se tornam hilariantes e encantadores, especialmente para a segunda protagonista criada por Allen – tão radicalmente diferente em sua inocência e otimismo que acaba, inevitavelmente, colidindo e invadindo compulsoriamente o mundinho cético do veterano professor.



Melody Celestine (a bela e talentosa Evan Rachel Wood, de “Aos treze” (03) e “Across the universe” (07) é o extremo oposto de Boris. Ingênua, otimista e pouco dotada intelectualmente, ela chega à Nova York disposta a vencer na vida – o que ela acha que pode acontecer facilmente, haja visto seus prêmios em concursos de beleza em sua pequena cidade do interior do país. Contrariando todas as regras que sua ojeriza à boa parte das pessoas manda, o homem que um dia foi candidato a um Nobel de Física deixa que a jovem – que não conhece ninguém na cidade e nem tem onde dormir - entre em seu apartamento e passe a noite lá. Quando ele percebe, já se passaram meses e a situação não dá sinais de mudança – a não ser na personalidade da própria Melody, que passa a ver o mundo com os olhos do novo amigo até que se declara, para surpresa geral, apaixonada por ele. Os dois universos aparentemente antagônicos acabam por se unir em um casamento inusitado, mas uma nova visita pode pôr tudo a perder: abandonada pelo marido, sem a propriedade que foi obrigada a vender e querendo reaproximar-se da filha, a mãe de Melody, Marietta (Patricia Clarkson, sempre ótima) chega à Manhattan – e ao mesmo tempo em que se envolve simultaneamente com dois homens e descobre a fotografia como carreira, resolve livrar a filha do relacionamento com Boris, aproximando-a do jovem ator inglês Randy James (Henry Cavill, o futuro “Homem de aço” (13)).



Mesmo sem apresentar nada de muito novo dentro do universo no qual transitam suas criações, Woody Allen consegue, em “Tudo pode dar certo”, conquistar o público com personagens deliciosamente construídos, repletos de contradições e angústias como qualquer pessoa normal. Com sua visão ácida da vida e a experiência adquirida em décadas de carreira, o cineasta/roteirista demonstra um conhecimento único da alma humana, brindando suas criações com uma dose certeira de coerência e impulsividade. É assim que a religiosa e rígida Marietta abandona a conduta irretocável de sua vida pregressa para entregar-se a um relacionamento afetuoso e satisfatório com dois homens ao mesmo tempo – mas nem por isso deixa de lado a vontade de encontrar para a filha um homem mais adequado à sua idade e possibilidades futuras. É assim que Melody se encanta por um homem com idade para ser seu avô por causa de sua forma quase crua de enxergar o mundo – mas acaba percebendo que isso o impede (e a ela, por consequência) de enxergar as coisas boas da vida. É assim que o pai de Melody (Ed Begley Jr.) redescobre uma nova faceta de sua vida – escondida até de si mesmo por décadas – quando chega à cidade atrás da ex-mulher. E, finalmente, é assim que Boris descobre, da maneira mais prosaica do mundo, que nem tudo é parte de um plano maior – e que é preciso fazer o que for mais acessível para finalmente encontrar um mínimo de felicidade.
Contrastando com o pessimismo irredutível de algumas das obras mais bem-sucedidas de Allen (caso do excepcional “Crimes e pecados”, de 1989), o final feliz de “Tudo pode dar certo” contraria até mesmo a forma como Boris apresenta o filme, quebrando a quarta parede e dirigindo-se diretamente ao público. Segundo ele, o que está para ser visto não é um filme alto-astral, feito para agradar e fazer com que todos saiam do cinema sorrindo e felizes. Mas, de forma irônica e como que enfatizando a impotência do homem em ditar as regras do seu futuro, Allen faz com que o desfecho da trama vire pelo avesso as teorias radicais de seu ranzinza protagonista, dando até mesmo a ele a chance de uma redenção e revisão de ideologias. No fim das contas, é um Woody Allen otimista e benevolente que se mostra em “Tudo pode dar certo” – o que, de certa forma, não deixa de ser também uma reversão de expectativas das mais agradáveis e bem-vindas.

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