terça-feira, 25 de março de 2014

DO COMEÇO AO FIM


DO COMEÇO AO FIM (Do começo ao fim, 2009, Pequena Central de Produções, 94min) Direção e roteiro: Aluizio Abranches. Fotografia: Ueli Steiger. Montagem: Fábio S. Limma. Música: André Abujamra. Direção de arte: Bruno Testore Schmidt. Produção: Aluizio Abranches, Fernando Libonati, Marco Nanini. Elenco: Júlia Lemmertz, Fábio Assunção, Jean Pierre Noher, Louise Cardoso, Rafael Cardoso, João Gabriel Vasconcellos. Estreia: 12/11/09

Dois jovens, meio-irmãos que foram criados juntos pelos pais amorosos e cercados de uma vida confortável e feliz, se apaixonam perdidamente e, após a morte da mãe, resolvem assumir seu romance. Os dois jovens são homens. E são meio-irmãos. E mesmo assim, ninguém no filme - nem o pai de um deles, nem seus amigos, nem as pessoas que convivem diariamente com eles - parece se importar com isso. O preconceito e a tolerância estão ao alcance de todos. Parece um conto de fadas gay, certo? Errado. É o filme "Do começo ao fim", de Aluizio Abranches, que causou controvérsia por seu tema somente do lado de fora das telas, quando foi lançado.

A intenção de Abranches, também autor do roteiro, parece não ser discutir temas que poderiam suscitar belos e intensos debates, como a imprevisibilidade do amor, a homossexualidade em si (assunto de inúmeras obras que a utilizam como ponto de partida para infindáveis polêmicas) e o incesto. Como está, seu filme dá a nítida impressão de ser apenas mais uma simples história de amor, igual a dezenas de outras que o cinema - em especial o americano - entrega semanalmente às telas de cinema. O problema é que, enquanto em qualquer história de amor que se preze há obstáculos para o final feliz, em "Do começo ao fim" tudo dá certo desde sempre. O pior que acontece aos dois protagonistas é a proposta de uma viagem internacional para um deles, que precisa optar entre manter-se perto do objeto de seu amor ou partir (por um período de tempo, apenas) em busca de sua realização profissional. A falta de drama, a falta de um sentimento de tristeza e melancolia que sempre reveste o amor é o calcanhar de Aquiles do filme de Abranches, de resto realizado com extrema competência técnica.


Quando o filme começa, Francisco (Lucas Cotrim) e Thomás (Gabriel Kaufman) ainda são crianças e moram com a mãe, Julieta (Júlia Lemmertz, sempre convincente) e seu segundo marido, Alexandre (Fábio Assunção), pai de Thomás. Unidos de forma quase obsessiva, os dois irmãos despertam certa estranheza, tanto em Julieta quanto em seu ex-marido, Pedro (Jean-Pierre Noher), mas a dúvida a respeito da natureza de tal união logo é posta de lado. Algum tempo depois, com Julieta morta, Francisco (já na pele de João Gabriel Vasconcellos) e Thomás (o hoje global Rafael Cardoso) assumem, diante de todos, o amor que sentem um pelo outro - não um amor fraternal, mas um amor de um homem pelo outro. Apaixonados, eles vivem, então, toda a felicidade que o relacionamento pode oferecer, até que uma viagem inesperada põe em xeque suas prioridades.

"Do começo ao fim" é plasticamente refinado, dirigido com delicadeza e interpretado por atores que extraem o máximo de emoção possível diante de um roteiro um tanto limitado. As cenas de sexo entre João Gabriel Vasconcellos e Rafael Cardoso são de bom-gosto, sem vulgaridades desnecessárias e a bela trilha sonora serve perfeitamente a seus propósitos. Poderia ser um grande filme, se não lhe faltasse justamente o que poderia fazer dele um marco: um estudo sobre a força do amor diante de convenções nem sempre justificáveis. É bonito, mas falta conteúdo.

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