sexta-feira, 28 de março de 2014

A ESTRADA





A ESTRADA (The road, 2009, Dimension Films, 111min) Direção: John Hillcoat. Roteiro: Joe Penhall, romance de Cormac McCarthy. Fotografia: Javier Aguirresarobe. Montagem: Jon Gregory. Música: Nick Cave, Warren Ellis. Figurino: Margot Wilson. Direção de arte/cenários: Chris Kennedy/Robert Greenfield. Produção executiva: Marc Butan, Mark Cuban, Rudd Simmons, Todd Wagner. Produção: Paula Mae Schwartz, Steve Schwartz, Nick Wechsler. Elenco: Viggo Mortensen, Kodi Smith-McPhee, Charlize Theron, Robert Duvall, Guy Pearce. Estreia: 03/9/09 (Festival de Veneza)


Se existe uma coisa que deixa qualquer cinéfilo feliz da vida é assistir a um filme do qual não se espera muito e sair do cinema encantado. Depois de tanto ter que engolir péssimos exemplos cinematográficos vindo de uma Hollywood que adora pasteurizar sentimentos, os fãs de bom cinema foram surpreendido com um dos melhores filmes de 2009 e que, sintomaticamente, passou batido pelas cerimônias de premiação que renderam louvores a lixos como "Um sonho possível". Dirigido pelo relativamente novato John Hillcoat, "A estrada" é um petardo emocional dos mais sinceros, que equilibra com presteza elementos de um filme de suspense aterrador com um drama familiar de partir o coração.

Adaptado de um romance de Cormac McCarthy (escritor que teve sorte até agora com as transições de seus livros para o cinema, uma vez que é também o autor da trama de "Onde os fracos não tem vez"), "A estrada" não é exatamente um filme fácil, e exige do público uma entrega quase total a seu universo, já que não oferece respostas imediatas nem soluções comuns à audiência. A história se passa em uma época não definida, em um lugar também não declarado. Só o que se sabe é que, por alguma razão, poucas pessoas estão vivas e vagam perdidas pelas estradas, em busca de alimento e moradia segura. Algumas dessas pessoas apelam para o canibalismo como forma de sobrevivência e é nesse ambiente que um homem (Viggo Mortensen) tenta proteger o único filho (Kodi Smith-McPhee) da violência que os cerca, ao mesmo tempo em que lhe ensina como manter-se são e perspicaz a tudo que lhes rodeia. Seu objetivo é reencontrar a esposa que os abandonou (Charlize Theron) e, no meio do caminho, cruza com vândalos, assassinos, indigentes e um homem idoso (Robert Duvall, irreconhecível e em uma atuação estupenda) que perdeu o filho devido à tragédia que os jogou, a todos, no mesmo barco de desesperança.

A belíssima fotografia de Javier Aguirresarobe, a trilha sonora discreta de Nick Cave e Warren Ellis e a maquiagem assustadora de Mandi Crane acabam se tornando elementos-chave nas mãos do diretor, que reitera a máxima de que o importante não é o destino e sim a viagem. Durante o processo de fuga/busca entre os protagonistas, a relação entre pai e filho chama mais a atenção do que os angustiantes momentos de tensão que perpassam o filme - mesmo que esses sejam filmados com extrema eficácia. É o carinho que move o pai desesperançoso e o filho dono de uma inocência sempre em vias de acabar que eleva o filme a uma categoria especial: é difícil não emocionar-se com o rosto ingênuo da sensacional revelação Kodi Smith-McPhee tentando devolver ao pai (vivido com garra por um Viggo Mortensen melhor ator do que nunca) a fé na bondade e na compaixão, assim como é virtualmente impossível acabar a sessão sem a certeza absoluta de ter-se assistido a uma obra corajosa, forte e comovente.

"A estrada" é um filmaço, feito com uma competência assustadora e que aponta a seu diretor um futuro bem menos distópico do que o representado por ele em 120 minutos de projeção.

Um comentário:

Anônimo disse...

Excelente filme e óptima análise! Continuação do excelente trabalho!