terça-feira, 18 de março de 2014

QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?


QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO? (Slumdog millionaire, 2008, Fox Searchlight Pictures, 120min) Direção: Danny Boyle. Roteiro: Simon Beaufoy, romance "Q & A", de Vikas Swarup. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Montagem: Chris Dickens. Música: A.R. Rahman. Figurino: Suttirat Anne Larlarb. Direção de arte/cenários: Mark Digby/Michelle Day. Produção executiva: Tessa Ross, Paul Smith. Produção: Christian Colson. Elenco: Dev Patel, Frieda Pinto, Anil Kapoor. Estreia: 30/8/08 (Festival de Teluride)

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Danny Boyle), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção ("Jai Ho", "O Saya"), Mixagem de Som, Edição de Som
Vencedor de 8 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Danny Boyle), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção ("Jai Ho"), Mixagem de Som
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Drama, Diretor (Danny Boyle), Roteiro, Trilha Sonora Original 

Às vezes é bastante difícil entender o que se passa pelas cabeças dos membros da Academia de Hollywood. Frequentemente acusada de premiar obras menores – leia-se filmes que não ameacem o status quo ou provoquem polêmicas – ela, vez ou outra, acaba surpreendendo com suas escolhas. Foi o que aconteceu na cerimônia do Oscar 2009. Enquanto o belo “O curioso caso de Benjamin Button” aparecia como grande favorito, com 13 indicações, um azarão foi, aos poucos, ganhando a preferência dos eleitores. Dirigido por um escocês, filmado na Índia e estrelado por atores locais desconhecidos do grande público ocidental, “Quem quer ser um milionário?” chegou de mansinho e abocanhou oito Oscar – incluindo as cobiçadas estatuetas de melhor filme, diretor e roteiro adaptado – deixando pra trás seu ambicioso, caro e espetacularmente hollywoodiano concorrente estrelado por Brad Pitt. Mas por que será que a saga do jovem Jamal comoveu tanto a Academia a ponto de transpor a barreira da cultura, da língua (20% do filme é falado em hindi, o idioma oficial da Índia) e dos próprios produtores que chegaram a cogitar a hipótese de lançar o filme diretamente em dvd?

Em primeiro lugar é preciso que se saiba que o diretor responsável por essa ousadia comercial é o escocês Danny Boyle, que começou sua carreira da melhor forma possível, com os sucessos “Cova rasa” e “Trainspotting, sem limites” e depois foi perdendo a mão em fracassos críticos e comerciais como “Por uma vida menos ordinária” e “A praia” – no qual trocou seu tradicional protagonista Ewan McGregor pelo hypado Leonardo DiCaprio e deu com os burros n’água – literalmente. Exímio contador de histórias (fato que já não era tão óbvio graças a seus filmes menos felizes), Boyle encontrou no romance de Vikas Swarup, “Q&A”, o material perfeito para que ele pudesse utilizar sua criatividade sem a pressão de um grande estúdio (o filme foi financiado pelo braço independente da Warner) e, melhor ainda, explorar artisticamente uma cultura riquíssima e pouco conhecida pelos frequentadores de cinema que lotam as salas para ver atrocidades como “Transformers”. Livre das amarras que um grande orçamento e grandes astros fatalmente trariam, o cineasta voltou à sua melhor forma e, se não criou um legítimo filme como aqueles que a indústria indiana de cinema, a Bollywood – capaz de lançar centenas de filmes por ano, sempre seguindo a mesma e bem-sucedida fórmula – ao menos fez uma bela e competentíssima homenagem.


A história imaginada por Swarup sofreu consideráveis alterações em seu caminho para as telas graças à imaginação do roteirista inglês Simon Beaufoy, que mudou o nome do protagonista, sua trajetória e incluiu na trama uma história de amor bastante diferente da contada no livro. Aqueles que leram o livro e esperam fidelidade de sua adaptação cinematográficas devem ter espumado de raiva, mas o fato é que, da maneira como é contado por Beaufoy e Danny Boyle, “Quem quer ser um milionário?” consegue a proeza de ser engraçada, romântica e comovente – e também mostrar uma chocante  realidade de diferenças sociais que não difere muito do Brasil.

E qual é essa história que tanto agradou à Academia? Bem, quando o filme começa, o jovem Jamal (interpretado por Dev Patel, que depois chegou a trabalhar em Hollywood, no filme “O excêntrico Hotel Marigold”) está sendo brutalmente espancado e torturado em um escritório. Ele está a um passo de tornar-se milionário ao responder corretamente as perguntas de um programa de tv chamado justamente “Quem quer ser um milionário?” e seus algozes, não acreditando que um rapaz com pouco estudo e de uma classe social tão baixa possa estar chegando tão perto do grande prêmio de um milhão de rúpias. A partir daí, Jamal passa a recordar toda a sua vida, desde a infância passada nas favelas até o momento em que chegou ao programa de tv – dando especial importância a seu relacionamento amoroso com a bela Latika (Frieda Pinto, também roubada por Hollywood, onde fez “Você vai conhecer o homem dos seus sonhos”, de Woody Allen), que, afinal de contas, é a principal razão pela qual ele está passando por tantos apuros.

Utilizando a narrativa fora de ordem cronológica como uma ferramenta a mais para contar sua história e não como simples artifício de cineastas ansiosos por demonstrar seu talento e criatividade, Boyle embaralha suas cartas de maneira a prender a atenção do espectador até a sequência final – talvez a maior influência do cinema de Bollywood em seu filme – que encerra uma história de amor e superação com um contagiante bom-humor. Não foi à toa que “Quem quer ser um milionário?” seduziu o mundo todo. Com seu perfeito equilíbrio entre ousadia e uma história que (apesar da diferença geográfica) faz sentido em qualquer parte do mundo, é um filme que mostra que nem só de super-produções vive a Academia de Hollywood. O único senão disso tudo é que o extraordinário “O curioso caso de Benjamin Button” teve que contentar-se com apenas 3 Oscar técnicos. Coisas da vida!

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