terça-feira, 4 de março de 2014

A TROCA

A TROCA (Changeling, 2008, Warner Bros, 141min) Direção: Clint Eastwood. Roteiro: J. Michael Straczynski. Fotografia: Tom Stern. Montagem: Joel Cox, Gary D. Roach. Música: Clint Eastwood. Figurino: Deborah Hopper. Direção de arte/cenários: James J. Murakami/Gary Fettis. Produção executiva: Audrey Chon, Tim Moore, Jim Whitaker. Produção: Clint Eastwood, Brian Grazer, Ron Howard, Robert Lorenz. Elenco: Angelina Jolie, John Malkovich, Colm Feore, Michael Kelly, Jeffrey Donovan, Amy Ryan. Estreia: 20/5/08 (Festival de Cannes)

3 indicações ao Oscar: Atriz (Angelina Jolie), Fotografia, Direção de Arte/Cenários

Algumas ideias (ou obsessões) não devem ser subestimadas. O roteirista J. Michael Straczynski que o diga. Logo que tomou conhecimento da chocante história de Christine Collins, ocorrida na Los Angeles da década de 20 - através de documentos que estavam em vias de serem destruídos pela prefeitura da cidade - o autor de inúmeros episódios da série televisiva "Babylon 5" percebeu que ali estava algo que merecia ser contado no cinema. Pelo período de um ano, ele dedicou-se a pesquisar a respeito não só de Collins, mas também do caso policial conhecido como Wineville Chicken Coop Murders, com o objetivo de escrever um roteiro o mais próximo possível da realidade. A julgar pelos diálogos transcritos diretamente dos documentos do tribunal e o cuidado com a reconstituição fidelíssima aos fatos a missão foi cumprida: tendo o primeiro tratamento de seu roteiro escrito em apenas onze dias, "A troca" chegou aos cinemas com o selo qualidade de Clint Eastwood e com a mais poderosa atuação da carreira de Angelina Jolie - que mereceu uma indicação ao Oscar de melhor atriz.

Ficando com o papel que despertou o interesse de atrizes como Hilary Swank e Reese Whiterspoon - ambas já premiadas pela Academia - Angelina está nitidamente entregue à sua personagem, uma personagem de dimensões trágicas da qual ela se desincumbe sem cair nas diversas armadilhas de uma trama que, conduzida por mãos menos hábeis e experientes que as de Eastwood, se transforma, em seu desenvolvimento, de um pungente drama familiar em um aterrador suspense policial que tem o agravante de ter acontecido na vida real. Orquestrando seu filme com seriedade e sem firulas desnecessárias, como é seu estilo, Clint não deixa que nada fique maior do que a força da história, nem mesmo o caprichado visual, cortesia da fotografia esplêndida de Tom Stern e a reconstituição de época impecável: não à toa, tanto Stern quanto o desenhista de produção James J. Murakami foram indicados ao prêmio da Academia, assim como Angelina Jolie - que perdeu o que poderia ser sua segunda estatueta para Kate Winslet em "O leitor".


Christine Collins, a personagem de Jolie, é a mãe solteira do pequeno Walter, de nove anos de idade, que desaparece misteriosamente em uma tarde de 1928. Desesperada, ela procura a ajuda da corrupta e violenta polícia de Los Angeles, que, para efeito de boa publicidade, resolve o caso em pouco tempo, reunindo mãe e filho. O problema é que Christine não reconhece o menino que lhe é entregue como seu filho: certa de que houve uma troca - por razões óbvias que os oficiais insistem em ignorar - ela passa a exigir a retomada das investigações, contando com a ajuda do Pastor Gustav Briegleb (John Malkovich). O que ela não poderia esperar, no entanto, é que sua cruzada acaba servindo de justificativa para uma árbitrária prisão em um hospital psiquiátrico.

Se desde o princípio "A troca" já investe em um tom melancólico e claustrofóbico, seu ato final consegue ser ainda mais tenso: quando a verdade a respeito do desaparecimento de Walter finalmente vem à tona, Eastwood mostra porque é um dos cineastas mais respeitados de sua geração. Com pleno domínio de sua técnica, ele equilibra momentos de tensão com cenas de uma dramaticidade coerente e discreta, capaz de emocionar e revoltar na mesma medida. É um filme para ver e rever, realizado com a extrema competência e seriedade que o tema pede.

Um comentário:

o Humberto disse...

Então, nessa nós vamos discordar.

Vi esse filme há uns 10 dias, ia até escrever a respeito tb. Achei chatíssimo, não acabava nunca. Se soubesse que era do Clint nem tinha visto, pq não dou conta do quanto são longos os filmes dele (esse, em especial, não precisava ser tão extenso).

Achei Angelina super canastrona (aliás, se parar pra pensar, acho que ela É canastrona), e confesso que a magreza dela foi o que mais me deu aflição.

Enfim, achei tudo tão canseira que até desisti de falar a respeito.